Livros dentro de livros

Para quem gosta realmente de ler, um livro que tenha um ou mais livros dentro acaba por tornar-se ainda mais atraente; e foi certamente esta atracção que fez de alguns títulos verdadeiros campeões de vendas. Falo, por exemplo, de A Sombra do Vento, que já vendeu milhões de exemplares em dezenas de línguas e países e que, sendo de um autor até então perfeitamente desconhecido (publicara apenas dois ou três títulos juvenis), alcançou um sucesso de que Carlos Ruiz Zafón e os seus editores de certeza não suspeitavam. O livro lê-se muito bem e, apesar de falhas na estrutura (perdoáveis numa quase estreia), tem personagens muito bem concebidas, que convocam a nossa empatia imediatamente. Contudo, se não fosse essa invenção fantástica do cemitério dos livros esquecidos referida logo no início e o mistério à volta de um certo livro, os leitores não deslizariam ao longo das páginas com o mesmo prazer. Pois acaba de sair um romance de José Luís Peixoto intitulado justamente Livro e, assim que soube do título, fiquei entre o maravilhada e o receosa (lá que é estranho, é) – mas, sem sombra de dúvida, curiosíssima sobre que livro seria esse. Li depois que «Livro» era o nome de uma personagem e, sem querer, houve uma desilusão qualquer. Mas comprei na mesma e espero, apesar de tudo, que seja um Sr. Livro.

Comentários

  1. Tenho a dizer que o Livro do José Luís Peixoto é incessante e do melhor que tenho lido nos últimos tempos (não vou explicar a história do rapaz chamado Livro, tem de ler). A Sombra do Vento... sim, concordo consigo, ter livros dentro ajuda ao apego.

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  2. Os livros acabam todos por ter vários livros dentro deles, com maior ou menor visibilidade, ou mesmo consciência por parte do autor.
    A intertextualidade é inerente à criação literária e a própria dialéctica criação/recriação ou escrita/leitura é efectuada com base em protocolos de leitura, que são, essencialmente, redes de interpretações construídas por leitura anteriores.

    Para quem gosta de livros, de leituras, de autores, fruir de uma experiência literária em que a base do texto é exactamente essa intertextualidade, de uma forma visível e mencionada, é um deleite.

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  3. Sim, são algumas dessas "invenções fantásticas" que fazem de "A Sombra do Vento" um livro tão especial (o cemitério dos livros é uma delas; uma outra, a meu ver, é a casa misteriosa que exerce uma atracção irresistível na personagem principal, que acaba inclusive por a escolher para o seu encontro amoroso. Raramente li uma cena que me prendesse e impressionasse tanto como esse encontro, a altura em que o jovem - e o leitor - chega à conclusão que realmente "algo" ou "alguém" se movimenta dentro daquelas quatro paredes abandonadas). Porque, de resto, a história até nem é muito original: um incesto inconsciente (quero dizer, as personagens envolvidas não têm consciência dele) que conduz à tragédia. Em Portugal, temos uma certa tradição no que respeita a este tema...

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    1. "Édipo Rei" de Sófocles, Freud também aborda o tema...

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    2. Sim, mas Freud não o tratou a nível literário, ficcional. E estamos a falar do incesto não propositado, ignorado pelos envolvidos, resultado de uma infeliz coincidência.

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    3. Sim, correctíssimo.

      Tratou-o de uma forma não ficcional e como jogo de poder, de papéis.

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  4. Um livro que tem dentro um livro que mata: O Nome da Rosa.
    Genial!

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  5. O título do livro "Livro" não é "honesto", que me perdoe o autor.

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    1. Eu acho que se pode chamar de tudo a um livro, até "Livro" e, depois de se ler a história, até é honesto sim. Algumas pessoas (como eu) talvez até tenham inveja da descoberta brilhante, adoro o título e seria difícil igualar tamanha ambição...

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  6. A excelsa bloguista quer dizer com «falhas na estrutura»: ???

    Beijinhos (sem lacunas),
    Só Fantasia

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  7. Caríssima Maria João, então se vai ler o livro "Livro" faz favor de nos dizer o que achou do livro.

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  8. Adorei "A Sombra do Vento"; estive recentemente em Barcelona e fiz questão de passar por algumas paragens do livro ;)

    José Luís Peixoto é um dos meus autores portugueses contemporâneos de eleição; estou curiosa relativamente ao Livro.

    Saudações, Moura Aveirense

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  9. Não li nada de José Luís Peixoto, conheci-o aqui ou pela Bertrand que me envia email. Li a sinopse e decidi não comprar; e não gosto de gente, livros e filmes consensuais. Ontem fui imprimir umas fotos na FNAC e ao esperar li as primeiras paginas do Livro e fiquei fascinada. Escolho os livros pelas primeiras paginas. Só não comprei porque descobri que tinha ido com dinheiro que só dava para o cinema e as fotos. Tenho que ler JLP.

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  10. Gostei de "sombra do vento" que me foi oferecido. Havia uma cadencia, uma musica, gostei. Ontem vi um novo titulo não gastarei dinheiro com ele, lerei apenas se me oferecerem. Não é elogio para o autor eu pensar assim. Há autores, como Coetze que até leio em ingles porque não consigo esperar. E há Ruiz...

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  11. Outro livro dentro de um livro que recomendo e porventura conhece, também dos armazéns da Leya, "A Historia do Amor" de Nicole Krauss, mulher do seu conhecido Jonathan Safran Foer. Romance de enorme poder. Gosto das suas sugestões.

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