O escritor que sabia fazer rir
Fiquei cheia de pena quando, na semana passada, li sobre a morte do escritor britânico David Lodge. Era um homem muito simpático (e também bastante surdo) que cheguei a conhecer em Lisboa; mas o que me liga a ele são os seus romances, muitos dos quais publiquei na primeira editora onde trabalhei, há um ror de anos, começando, se não me engano, por Um Almoço nunca É de Graça. Mas o meu preferido foi, sem dúvida, Terapia, com o protagonista a ler Kierkegaard para ver se atinava consigo próprio (a mulher pedira-lhe o divórcio e ele nem dera por que havia algo de errado com o casamento), e a ir de fim-de-semana com uma nova conquista para as Canárias, onde se tornou intimidante ir à casa de banho e ficar com um cocó entalado (chorei a rir com a cena que quase acabou com o romance). Também recordo vivamente Notícias do Paraíso, sobre pacotes de férias que acenam com o Paraíso e são um fracasso completo, até porque passara pela mesma experiência num longínquo arquipélago em que, no final do terceiro dia, já não havia nada que ver e, ainda por cima, era noite às cinco da tarde (eu tinha ido no nosso Verão...). Professor e romancista de excepção, Lodge honrou realmente o proverbial humor britânico e vale muito a pena lê-lo. Há muitos livros traduzidos em português.
“Terapia”, hilariante, sarcástico e inesquecível: faz-nos reconhecer vaidosas ilusões e ajuda-nos a aceitar as mediocridades do dia a dia. Adoro o estilo “fácil” da escrita do David Lodge, um autor a que regresso sempre com prazer, uma leitura que nunca é monótona ou chata. Fiquei muito triste ao ler a nefasta notícia. Foi como perder um amigo de quem se tem só gratas recordações. Em breve irei atirar-me ao seu olhar sobre Henry James, e o meio cultural do seu tempo, em “Autor, Autor”. Confesso que o primeiro livro de Lodge que me deslumbrou nem foi de ficção, mas o sim o seu muito criativo ensaio “The Art of Fiction”. Foi como assistir a uma série de aulas de um grande professor de Literatura que ele também era. Que bem que David Lodge aí discorre sobre as correntes do modernismo literário ! Agora, gostava que ele nos contasse, com a sua graça e a sua mordacidade, como são os seus dias na vida eterna.
ResponderEliminarÉ uma grande perda, até porque o estilo de David Lodge era único e inimitável.
ResponderEliminarEmbora tenha lido todos os seus livros que foram traduzidos para português, os meus favoritos são "A Terapia" e "Pensamentos Secretos"
Acho que ninguem fica indiferente a David Lodge,ou consegue sequer resistir a continuar a ler as suas obras depois de ter começado.Sempre bem humorado e com historias que geralmente se passam no meio academico,da-nos tambem a conhecer um pouco do nivel de vida dos professores ingleses,da sua forma de viver e o famoso humor britanico.
ResponderEliminarRecomendo vivamente e aproveito para desejar ver neste blog mais posts assim leves e menos desgraças,dramas,racismos,violencia de genero...
“O Mundo é Pequeno” do David Lodge é um brilhante retrato do chamado turismo científico: as viagens, os encontros, as palestras, as interações e as situações cómicas que ocorrem entre académicos e cientistas que se conhecem e convivem no âmbito de congressos internacionais a terem lugar em locais distantes das suas instituições de origem. Parece uma temática enfadonha, mas o génio de Lodge transforma-a numa novela deliciosa, indo buscar inspiração a episódios da sua própria vida profissional e dando o toque da Grande Arte.
ResponderEliminarUm autor de referência, sem dúvida e uma perda.
ResponderEliminarO humor britânico é proverbial e ele era um dos seus destacados cultores.
Não sendo único como foi dito, sendo embora igual a si próprio, o que temo é que a actual e omnipresente inquisição woke ou lá o que são os política, sexual e ecológicamente correctos, acabe por limitar ou até eliminar o humor são e livre, basta ver a onda de "reescrever" tanto romance porque ofende os gordos, os feios, os marrecos, os maricas... sei lá!
Os ingleses continuam a brindar-nos com magníficas obras de um humor inteligente e sobretudo fruto do sarcasmo, no cinema ou na literatura. Até agora não se percebeu que o afamado multiculturalismo o afectassem, até parece que houve deveras integração e sobrevive.
Talvez porque haja quem sabe rir, ao contrário dos seráficos e pesporrentos censores que nada fazem e nem querem deixar fazer. Creio que nem Hitler ne Estaline se riam... a Greta também não é lá muito risonha, nem vou falar dos nossos cerberos de serviço no parlamento e dos que acorrem aos media na defesa da sua ofendida personalidade.
Honra a David Loge e outros como ele, que nem precisam de ofender directamente ninguém, o que deveria ser observado pelos pretensos humoristas nacionais, que não passam de cães de guarda do regime. Saudades de Raul Solnado...
Enfim,, uma notícia triste num dia triste e cinzento de Inverno, cá pelo Bairro Ribatejano encharcado, onde todavia vejo desde a janela que o pasto está viçoso, as mertolengas e alentejanas redondas, os angus cumprem e a bezerrada está lustrosa!
Já agora, o livro podia chamar-se “Em busca de Angélica”, a belíssima académica que o protagonista, crítico literário, anda, de congresso em congresso, à procura de uma oportunidade para a seduzir. David Lodge faz uma pequena batota: arranja uma gémea para a Angélica…
ResponderEliminarNão li o “Pensamentos Secretos”. Pode dar-nos a sua opinião sobre o livro?
ResponderEliminarQuanto a rir, não me parece que Trump, ou o seu patrão Musk, apreciem o humor. Oxalá eles desistam rapidamente da sua intenção atual de “Make Europe Great Again” com o capataz Órban à frente de uma turba de Venturas.
ResponderEliminarBoa tarde,
ResponderEliminarA personagem principal deste livro é Ralph, um homem aprecia a vida, nas suas várias dimensões. A certa altura, Ralph (o nome da personagem) conhece uma mulher Helen, que enviuvou há pouco tempo.
Claro que Ralph se apaixona por ela, apesar de terem mundividências e opiniões muito diferentes sobre quase tudo.
O que mais gostei neste livro foi o facto de, ao estilo irónico e carregado de humor de David Lodge, ele narrar os vários acontecimentos para um pequeno gravado como ele os entendeu e interpretou, e passado pouco tempo percebemos que Helen viveu e entendeu os mesmos acontecimentos de uma forma completamente distinta.
Para o leitor, é sempre uma surpresa perceber o que ele viu ou sentiu num determinado evento e por outro lado, a experiência dela, sobre os mesmos factos.
No fundo, o autor pretende - e consegue - mostrar-nos que nunca saberemos o que outra pessoa, que até nos pode ser próxima, pensa ou sente.
Leia que vale a pena ! O livro é muito, mas muito melhor, do que o resumo que eu tentei fazer dele.
Muito obrigado por nos oferecer a sua visão sobre o livro “Pensamentos Secretos” do David Lodge. É bem original e atraente a temática que nos revela ser por ele tratada neste romance. Fica o livro na minha lista de prioridades de leitura para os próximos tempo. Obrigado, de novo, pela sua generosidade.
ResponderEliminarNão faço idéia, pois desconheço tanto essa intenção, quanto as pessoas a que alude.
ResponderEliminarOs que cito, sei que não riam ou não riem, tal como os ayatollahs ou o Maduro.
Enfim, cada qual tem os seus receios e o meu não é certamente vir a ter uma Europa Grande, pelo contrário temo pela sua invasão pelos que farão dela o que não sabemos mas podemos imaginar.
Votos de um bom ano de 2025 e que este não veja confirmados os nossos piores receios.