Livros a arder

Quando pensamos em livros na fogueira pensamos naturalmente na Inquisição e no seu Index, ou em sistemas políticos repressores e ditatoriais, nos quais há sempre centenas de livros proibidos e queimados. Mas, desta feita, os livros na fogueira, os livros ardidos, nada têm que ver com censuras e proibições, mas com os horrorosos incêndios da Califórnia. Sim, é verdade, algumas editoras e livrarias nos arredores de Los Angeles foram apanhadas pelo fogo e, já se sabe, o papel arde depressa e bem; os fogos prejudicaram os proprietários, os autores, os leitores, as bibliotecas de alguns famosos, a cultura em geral... Os donos e o pessoal da  Book Soup e da Vroman's, uma livraia e uma editora, respectivamente, segundo um artigo publicado na Publisher's Weekly, foram convidados a afastar-se dos respectivos estabelecimentos e ficaram sem notícias do que aconteceu com eles, mas não esperam já nada de bom. Um ou outro livreiro sabe que a sua loja foi salva pelos bombeiros, mas mesmo assim foi obrigado a mantê-la fechada por vários dias e, não podendo vender livros por esse período, terá outro tipo de prejuízos. Em Pasadena, Santa Mónica, Riverside, Carmel e outros locais da Califórnia, o fogo chegou à porta de muitas casas e devorou livros nas estantes; e, nas livrarias, há muita gente sem saber como recuperar do susto e dos danos (e como vai conseguir pôr tudo de pé depois do rescaldo). Solidarizemo-nos, pois, com os nossos pares californianos, amantes da leitura como nós. O que lhes vale é nos EUA haver uma Book Charitable Foundation para ajudar, enquanto Trump não acaba com ela.

Comentários

  1. Mais do que tudo o que se perde nas chamas, sejam livros, editoras ou livrarias, o que me impressiona é não se assumir que os ventos ciclónicos, por vezes associados mortiferamente ao fogo, são o novo normal da dinâmica da atmosfera em resposta ao aquecimento que causámos.
    Há três décadas foi divulgado o resultado de simulação científica que mostrou serem as perturbações atmosféricas, não a subida da água nos oceanos, o primeiro efeito dramático que iríamos sentir. E em outubro de 2017, Portugal sofreu duramente o efeito dessa associação entre vento ciclónico e fogo.
    Porque haveria de, entretanto, não surgirem episódios piores pelo mundo fora? Será que destruindo o fogo a propriedade de ricos americanos vai algo mudar?
    Restam-nos os livros que nos ajudam a aceitar a nossa impotente consciência de que estamos a caminho do precipício.
    “Benditos sejam os livros ! “ exultamos nós, avançando tristes ao longo do corredor da morte do planeta.

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  2. Realmente é sempre uma pena quando os livros ardem, seja na América ou na China.

    A propósito, chamou-me a atenção o comentário final, pois não deixo de me espantar quando leio, escrito por pessoas inteligentes e cultas, comentários como este de o Trump ir acabar com a Bokk Charitable Foundation... O Trump tem coisas bem mais importantes e urgentes para tratar, não entendo porque há de ir acabar com esta fundação!
    Não estou mínimamente preocupado em relação a isso. Ah, mas ele é inculto e isso tudo, já oiço muita gente a pensar. E depois? Vai proibir a leitura? Não creio... ao contrário de outros que o fazem e vejo depois essas mesmas pessoas a usar adereços próprios dessas anti-culturas em jeito de solidariedade para com quem os despreza, proibe e impede. Isso ainda me espanta mais!
    Enfim, sei que são desabafos, mas não creio que lá por o referido parecer o Poupas Amarelo seja inimigo dos livros a esse ponto.

    Ainda de ressaca de uma viagem longa, sempre atribulada e sobretudo cansativa, não isenta de riscos, saúdo cá da Cidade Morena!

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  3. Não sei se ele vai acabar ou não com a entidade, mas que na sua anterior presidência cortou significativamente tudo o que tinha que ver com o apoio às artes, cortou, pelo que se teme o pior em tudo o que tenha que ver com os livros.

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  4. António Luiz Pacheco14 de janeiro de 2025 às 04:31

    Não sei se foi assim... é o que se diz, e, diz-se muita coisa que depois se verifica não ter sido assim. Sobretudo quando se fala de um mal-quisto dos media e de alguma das elites com eco mediático. A América estava em crise económica então, pelo que não me espantaria. O Obama bem-amado, fez o quê? Foi eleito pela Oprah e o que ganharam a cultura e as artes? Não defendo o Trump nem político nenhum pois não merecem, diga-me se algum político português dos ditos amigos das artes e dos muito cultos, fez algo de relevante nesse campo? Falaram, tiveram programas de televisão onde exibiram a sua erudição, mas deram alguma coisa de concreto em legislação ou financiamento?
    Ora, é por isso que comentei, porque se estamos à espera que eles apoiem sem ser com palavras, ficaremos no zero. A cultura e as artes terão de se remediar por si mesmas, pelos seus cultores e praticantes, pelos consumidores e pela fileira económica associada.
    Veremos...

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  5. As chamas arderem livros americanos. Há quem sussurra baixinho: ardem bem ou mal?

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  6. https://www.washingtonpost.com/lifestyle/style/for-third-year-in-a-row-trumps-budget-plan-eliminates-arts-public-tv-and-library-funding/2019/03/18/e946db9a-49a2-11e9-9663-00ac73f49662_story.html

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  7. Na verdade, nenhum corte no apoio público às artes foi feito durante o primeiro mandato de Donald Trump:

    https://www.nytimes.com/2021/01/15/arts/trump-arts-nea-funding.html

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