A pintura e os escritores
Às vezes, quando participo de actividades em que falo do que são bons livros e da importância do trabalho editorial, vou buscar exemplos para ilustrar algumas situações a declarações de pintores em livros e entrevistas. Sim, pode parecer estranho, mas os pintores têm às vezes sobre a construção da respectiva obra frases e ideias muito mais facilmente perceptíveis do que os escritores, que tendem a complicar um pouco as suas elucubrações sobre a própria arte. Por isso achei mesmo interessante que a nossa Conselheira Cultural em Madrid tenha feito um convite original nesta temporada, virando do avesso esta minha presunção; como vai haver uma exposição grandiosa da pintora Vieira da Silva no Guggenheim de Bilbao, resolveu convidar escritores (leu bem, escritores!) para irem ao museu falar da nossa grande pintora e comentar alguns dos seus quadros. Claro que algumas das pinturas de Vieira da Silva estão ligadas à leitura, aos livros, às bibliotecas. Mas tenho a certeza de que o discurso dos escritores sobre uma arte que não é a deles será bem mais acessível e claro do que se estivessem a falar de literatura. Um excelente exercício para eles e uma excelente ideia para nós.
Parece um tema muito interessante, este!
ResponderEliminarNão deixo de associar a escrita à pintura, já que quando se conta uma história (ou uma mentira daquelas bem elaboradas) se diz estar a "pintar". Na verdade acho que o escritor é um pintor da palavra, a colorir o livro como o pintor vai compor na tela.
Sem dúvida sinto essa profunda ligação, sendo um apreciador de pintura.
No entanto, penso (talvez erradamente) que, e como talvez sugerido neste post, que o pintor consegue melhor transmitir de forma imediata através do quadro (mesmo que seja um Pollock) do que o escritor através das palavras.
Teria muita curiosidade em ouvir essas palavras de escritores.
Enfim, há escritores e escritores, os densos, os ensimesmados ou mesmo herméticos e os outros que são verdadeiros pintores da palavra!
Saudações coloridas cá da Cidade Morena!
Há o livrinho antigo do Cesariny sobre Vieira da Silva e Árpád Szenes, no tempo da ditadura, e outro com seleção de correspondência entre os dois membros do casal.
ResponderEliminarImagino que a vida e a obra deles daria um excelente romance e ofereceria um testemunho interessante da evolução artística e literária de boa parte do século XX.
Excelente iniciativa. A propósito da interpretação das obras por escritores de que aqui dá notícia, lembrei-me do livro que ando a ler, aos poucos, de título “Les Yeux de Mona” de Thomas Schlesser, que não tem tradução cá, e já está traduzido para outras línguas incluindo o espanhol.
ResponderEliminarO assunto envolve uma menina que sofre um episódio temporário de cegueira e o seu avô, que durante cinquenta e duas semanas a leva a visitar museus (Louvre, Orsay e Beaubourg) antes que ela fique eventualmente sem visão. São 52 obras visitadas e comentadas ao pormenor.
Bela sugestão ! Já tinha lido em tempos algo sobre este livro e, entretanto, esqueci-me dele. Vou encomendá-!o. Obrigado !
ResponderEliminarJá escrevi três romances biográficos sobre pintores, o primeiro sobre a vida de Amedeo Modigliani com o título " O Olhar e a Alma, romance de Modigliani" (Planeta, 2015) e que foi Prémio SPA / RTP Autores na categoria Literatura para a “melhor ficção narrativa” em 2016; o segundo sobre August Strindberg com o título "Strindberg, Neste Mundo Fui Apenas Um Convidado" (Relógio D'Água, 2021). Devo dizer que o génio Strindberg não foi apenas um grande pintor - alguns dos seus quadros estão expostos nos melhores museus do mundo - foi também um imenso escritor, foi um químico e um fotógrafo extarordinário. Este meu livro está traduzido e publicado em Espanha (Sabaria - Zamora). E também escrevi um romance biográfico sobre a nossa Paula Rego com o título "Paula Rego, A Luz e a Sombra" (Relógio D'Água, 2023).
ResponderEliminarNa verdade, foram existências que me apaixonaram e elevaram o meu pensamento a paragens nunca antes por mim imaginadas. Assim como outras existências com outras actividades que me proporcionam algo inexplicável e que também não é necessário explicar. O facto de escrever sobre estas pessoas é-me essencial. Vivo de outra maneira.
Muito obrigada por tudo, pela tua amizade, Rosário.
Cristina Carvalho
ResponderEliminarRelativamente ao meu comentário anterior,
Esqueci-me de dizer que Modigliani está também traduzido em francês - LLP (Linda Leith Publishing) Montréal - Canadá
Obrigada!
Cristina Carvalho
Também ando a ler Les Yeux de Mona aos poucos, e estou a gostar.
ResponderEliminarBoas leituras📚
Gostei imenso de ler O Olhar e a Alma e A Luz e a Sombra. Hei-de procurar o de Strindberg.
ResponderEliminarBoas escritas🖊
Muito obrigada!
ResponderEliminarLi há bastante tempo “Adoração “de Cristina Drios.Aflora uma parte da vida de Caravaggio,além do resto do romance e que tem a ver com o fio da história.É muito interessante e leva-nos a conhecer esta escritora com outra obra também relevante “Os olhos de Tirésias”.
ResponderEliminarLeiam e não se vão arrepender!
Penso que não tem mais nenhum livro publicado.Pode ser que se entusiasme e volte à escrita!