Livros, filmes e tabaco
Há muitíssimos anos, escrevi com uma amiga uma colecção de romances juvenis, na qual um adolescente de dezasseis anos fumava às escondidas. Numa cena, a irmã mais nova, toda desportista, criticava-o e prevenia-o do mal que aquilo lhe faria; noutra, ele era apanhado a fumar e repreendido pelo pai, levando como castigo não ir a uma festa onde tencionava pedir namoro à miúda por quem estava apaixonado (azar). Era, quanto a nós duas, uma boa forma de avisar os nossos leitores para os perigos de fumar cedo demais; mas, se a colecção tivesse sido publicada dez anos mais tarde, já não teríamos decerto podido incluir essas cenas, pois os cigarros de repente foram banidos dos livros e dos filmes (até o Lucky Luke deixou de fumar) para não dar (más) ideias aos mais novinhos: não vejo, não sei que existe. Porém, leio num jornal de há dias que essa preocupação foi chão que deu uvas nas séries e nos filmes do último ano: em nome do realismo, da verosimilhança, de uma moda e daquilo a que os mais radicais chamam «inconsciência», o cigarrinho voltou aos ecrãs (faria sentido que grandes fumadores na vida real deixassem de fumar numa biografia cinematográfica?). Diz o artigo que os jovens ficaram de novo mais expostos ao perigo do tabagismo, mas a verdade é que os nossos televisores voltaram a «fumegar». Eu deixei de fumar há sete anos e meio. Não comecei por causa do cinema, mas por ser filha de dois fumadores. Terá a literatura influência numa coisa destas? Quem sabe?
Hoje só as imagens em movimento influenciam os jovens. O retorno do tabagismo só seria ameaçador se fosse promovido pelo Tiktok, a rede milionária cujos lucros Trump quer partilhar com os chineses. A literatura é fraco promotor de hábitos tóxicos.
ResponderEliminarO poder da literatura, não sendo dispiciente, já não é prevalente - se alguma vez foi. A concorrência no mercado comunicacional é forte. Ler requer atenção, um recurso tão ou mais escasso como certos metais preciosos.
ResponderEliminarMuitas mulheres não sabem, mas terão começado a fumar indirectamente influenciadas por Edward Bernays e pela campanha publicitária engendrada para a indústria tabaqueira americana, ironicamente baptizada Tochas da Liberdade (Como agora se diz, é googlar: https://en.wikipedia.org/wiki/Torches_of_Freedom ou ler a profusa literatura não ficcional sobre o assunto.)
O ser humano é fascinante, não?
Boas leituras
Parabéns à Rosário pelos seus sete anos e meio de liberdade. Deixei de fumar há quatro anos e três meses. Muito feliz por ter conseguido, e sem ajuda de terapeutas ou de terapias. Foi a frio, como se costuma dizer. Em boa hora o fiz. Maldito vício. Veneno diário que todos os dias entrava no meu sagrado corpo. A ele lhe peço muita desculpa por essa horrível e diária agressão de quase três décadas. E que sorte tive... Por mim, o tabaco, fosse sob que forma fosse, nunca teria presença na literatura, no cinema, na banda desenhada, na vida.
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