Excerto da Quinzena
Custódio Braz afundava-se neste mar tormentoso e sombrio de cogitações quando sentiu que lhe afagavam o miolo da fraldiqueira e lhe esbulhavam as parcas moedas encafuadas. Foi como quem lhe chegasse urtigas às nalgas, que logo se alvoroçou e armou um aranzel de porfias e doestos, causando embaraço ao Aurélio das vistas, que ficou com o capítulo atrapalhado e o discurso fora do trilho.
O larápio, como lebre a fugir ao furão que lhe entrara na lura, escamugira-se da barraca em menos de um credo com o fruto da rapina enchouriçado nas mãos; a cuspinhar cobras e lagartos por entre os bigodes, Custódio também se desembestou no meio das pessoas a tentar deitar as unhas ao rato lascarim: o Trombeta não gostava que lhe bulissem com os pintos, ficava cego, adoudado, com as tripas cruzadas de tanta raiva.
Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas (nova edição revista, a sair este mês)
"É a ficção portuguesa, biografias incluídas, o último testemunho a que se pode recorrer para erguer a memória perdida.
ResponderEliminarNa situação actual, na altura em que este livro é acabado de escrever, Portugal vive uma das mais intensas e marcantes crises económicas, de identidade, de conhecimento, de crescimento e de educação. Refiro-me agora à zona cultural onde o oco e o vazio instalado são exibidos a cada passo, a cada esquina, como se não tivéssemos tido passado, como se nada ou pouco tivesse interesse na construção da nossa identidade. Consegue-se até evidenciar desprezo por criadores que existiram, como nós próprios hoje existimos e amanhã deixaremos de existir, um desprezo arrogante que marca a abundante ignorância e falta de sensatez e sensibilidades variadas.
Cabe a nós, escritores, no âmbito da literatura, falar mais alto e não deixar morrer a cultura pela ignorância que continua a vaguear por umm deserto devastado por ventos adversos. Que sem ela não há futuro."
Cristina Carvalho, in "António Gedeão, Príncipe Perfeito".
MUITO BEM! Não resisti a citar.
Saudações emocionadas cá do Bairro Ribatejano.
No dia em que Francisca foi embora para sempre da minha vida, só porque era isso mesmo que ela precisava fazer, no dia em que ela me deu um abraço e fechou a porta, iniciou-se uma hora que durou pelo menos três, eu não tinha corpo para ocupar o espaço que ela deixou, talvez não alcançasse mais os armários meus ossos retraídos eu inteira encolhida alheada de mim e da minha filha, olhei a bebê sentada no berço arremessando brinquedos para vê-los bater nas paredes e seu olhar cruzou com o meu e ela parou os arremessos como se encontrasse de repente não apenas a mãe que tinha estado distante, mas a minha dor, meu medo e o desespero da nossa solidão, o olhinho parado boiando dentro do nosso tempo, não sorríamos, ela baixou a cabeça num muxoxo e não chorou. Amadurecemos.
ResponderEliminarMariana Salomão Carrara - Não Fossem as Sílabas do Sábado
" ... um romance lugubremente luminoso, que nos fala ao ouvido " (Companhia das Letras)
A cultura sempre foi interesse de minorias e, por isso, estão sempre certas, e também são inúteis, as lastimações como esta da Cristina Carvalho.
ResponderEliminarSó os letrados as leem e eles não precisam nem do diagnóstico, nem do sermão.
Nada de novo: é chuva a cair no molhado, como a crónica de desesperança de hoje de Miguel Sousa Tavares no “Expresso” sobre a mediocridade da vida pública nacional.
A escrita do Amoreiras cheira a Aquilino a tomar esteróides de contrafação.
ResponderEliminarMoreiras (é a praga do corretor automático).
ResponderEliminarCarrara é uma virtuosa da escrita. Mas chamar o marido à rua para ser esmagado por suicida voando do alto do prédio?
ResponderEliminarO que aprecio em Paulo Moreiras é o recurso a termos pouco usados ou mesmo caídos em desuso no Português atual. E alguns são muito bonitos, muito expressivos pelo menos.
ResponderEliminarQuanto ao excerto:
[...] Esse movimento que atribuís à terra, não passa de um belo paradoxo [...].Um dia um dos nossos Padres que defendia a vossa opinião [...] dizia
"creio que a terra gira, não pelas razões que alega Copérnico, de maneira nenhuma, mas sim porque o fogo do Inferno, tal como nos ensina a Sagrada Escritura, encontra-se no centro da terra, e assim, os malditos que querem fugir ao ardor da chama, elevam-se para dele se afastarem, ao longo da abóbada, e assim fazem girar a terra, tal como um cão faz girar uma roda, ao correr nela encerrado".
Cyrano de Bergerac - o outro mundo
Tradução Emanuel Lourenço Godinho
Tem razão... porém, não me parece motivo para que não falemos disso, nem em público nem entre nós, "elite" que lê!
ResponderEliminarO recado da Cristina Caravalho é tanto para os escritores quanto para a generalidade e espero que chegue a onde deve, à tal "elite" e sobretudo a quem manda.
Quanto a chover no molhado, lembro que água mole em pedra dura, tanto dá até que fura!
Feliz Ano!
De acordo ! Feliz 2025 !
ResponderEliminarO português do Moreiras serve para um conto pícaro, é demais para um romance.
ResponderEliminarQue belo inventivo excerto do Cyrano, lui même ! A agitação dos condenados do Inferno fazem a Terra rodar.
Excerto de Borges sobre Kafka:
ResponderEliminar“Kafka está menos próximo daquilo que se costuma designar por literatura moderna do que do Livro de Job. Pressupõe uma consciência religiosa e antes de mais judia; a sua imitação formal noutros contextos não tem qualquer sentido. Kafka vê a sua obra como um ato de fé e não quer que ela desanime os homens. Foi por essa razão que encarregou o seu amigo de a destruir. Kafka, sinceramente, só podia sonhar pesadelos e não ignorava que à realidade se encarrega incessantemente de os fornecer. Teria preferido a redação de páginas felizes mas a sua honestidade não condescendeu na sua elaboração.”
“Foi por essa razão que encarregou o seu amigo de a destruir”-a propósito do comentário de Borges sobre Kafka,referido pelo extraordinário anónimo que me antecedeu.
ResponderEliminarGostaria que me desse a sua opinião sobre esta afirmação.Quem é o amigo?A quem se refere?
Agradeço
Comecei a ler “Pequenos fogos em todo o lado”de Celeste Ng.Embora muito no princípio,é uma leitura que entretém e parece desenvolver uma história interessante.Bom para começar o ano.
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