Demais ou de menos
Por causa de um comentário ao post de sexta-feira passada, que mencionava os dois romances de Cristina Drios que tive o prazer de publicar (Os Olhos de Tirésias e Adoração) e «marcava falta» a esta autora, que já não publica há muito tempo, pensei que realmente temos alguns escritores que bem podiam brindar-nos com romances com maior regularidade. Mas, claro, a Cristina viaja bastante, tem uma profissão que lhe rouba muito tempo e, além disso, é bastante exigente consigo mesma. Por outro lado, conheço autores (meus e de outras editoras) que estão sempre a teclar e a entregar livros novos, sobretudo os que não trabalham e querem viver exclusivamente da escrita, ou então têm trabalhos episódicos, mas não um verdadeiro emprego. Percebo que, se é essa a sua paixão, o façam, mas muitas vezes não deixam que os seus livros respirem o suficiente, nem que os leitores cheguem a desejar mais um livro seu, de tal modo os romances saem colados uns aos outros. Há ainda aqueles que, não conseguindo escrever com a velocidade que gostariam, mal entregam o livro querem que seja lido e publicado (como se os editores não tivessem as suas prioridades) e exprimem a preocupação de serem esquecidos pelo público se não publicam de dois em dois anos. Enfim, há de tudo como na farmácia e, embora se diga que tudo quanto é demais é erro, a verdade é que também pode ser um risco escrever de menos.
É muito interessante o que aqui revela, partilhando a sua experiência, sobre os autores.
ResponderEliminarSão detalhes da vida de escritor e de editora, que se ignoram evidentemente, só quem nessas águas navega é que o sabe.
Ao ler o que postou, fiquei a entender algumas coisas... e, prontos, já não aperto mais com o Paulo Moreiras apesar de gostar que ele publicasse mais... eheheh! Desculpa lá a minha insistência ó Paulo, mas fico na mesma à espera.
Bom, na verdade, tenho os meus autores de referência como bem se entende. Alguns já falecidos, outros nem por isso, estarão mais ou menos vivos - e digo mais ou menos consoante publiquem mais ou menos.
Salvo muito raras excepções (e uma já é conhecida) não sou daqueles leitores adictos a um autor e que está ansiosa e frenéticamente à espera que publique, pois graças a Deus que vai havendo muito para ler, portanto é uma questão de esperar. Mais, não me esqueço de um autor porque demora a publicar. Se gostei dele, basta ver um novo livro ou até um que nunca tenha lido, para me recordar, desde que tenha realmente gostado.
E prontos, ficamos por aqui neste interessante tema.
Saudações literárias cá da Cidade Morena.
Pode sempre escrever e não publicar, para não perder a mão. Nem todas as colheitas dão Pêra Manca...
ResponderEliminarO problema (parece-me) é prateleiras e prateleiras e prateleiras cheias de zurrapa, à espera de serem guilhotinadas. Com a advento da "inteligência" dita artificial, não prevejo melhoras no afluxo (ou refluxo) editorial.
Haja paciência (a mais desvalorizada das virtudes) e critério para distinguir o trigo do joio, procurar agulhas no palheiro. Isto vale para editores e leitores.
Boas leituras
Uns trabalham, outros viajam e outros ainda “teclam”. O que tem isto que ver com literatura?
ResponderEliminarVejamos: "uns trabalham". Claro, toda a gente trabalha, de algum modo, de forma a prover o seu sustento. Os escritores não são excepção, uns trabalham e escrevem, outros apenas escrevem (até porque estejam reformados...) mas escrever dá trabalho, e até muito, logo literatura e trabalho estão intimamente ligados, penso eu.
ResponderEliminar"Outros viajam". Bom, a literatura de viagens não poderá existir sem se viajar... a menos que se escreva sobre viagens imaginárias, mas isso não é literatura de viagens. Paul Theroux viaja muitíssimo, e ainda bem!
"Outros teclam": Parece-me bastante óbvio, pois hoje se escreve muitíssimo e se calhar quase exclusivamente, em computadores. Portanto, teclam para escrever, produzir literatura!
Não será assim, caríssimo e misterioso anónimo? Se é que percebi bem...
Bom, vejamos se sou capaz de responder à sua questão!
ResponderEliminar"Uns trabalham". Claro, penso eu, toda a gente trabalha para prover ao seu sustento, os escritores não sendo excepção, a menos que sejam ricos ou reformados, caso contrário trabalham, tendo as suas profissões que pode até ser a de escritor, e, não deixam de trabalhar menos, pois escrever dá muito trabalho.
"outros viajam". Com certeza, a literatura de viagem é feita por viajantes óbviamente. Sem viajar não há essa literatura, e, até outras que dependem de inspiração, de conhecer lugares, pessoas e até assistir a factos e acontecimentos depois reproduzidos na literatura mesmo que não seja a dita de viagem. Paul Theroux viaja muitíssimo, e ainda bem!
"outros teclam". Evidentemente, pois na actualidade escreve-se sobretudo, e talvez até exclusivamente, em aparatos digitais nos quais é preciso teclar. Sem teclar, não há livros, literatura afinal.
Enfim, é o que m'a mim parece, obrigado pelo exercício a que me conduziu.
Ora... isto apagou-se, desapareceu e depois apareceu... fica à escolha de cada um!
ResponderEliminarEheheheh!
Percebo que para um editor há os escritores que vendem sempre bem, como Miguel Sousa Tavares, de quem se gostaria de editar um romance todos os anos, e escritores de grande criatividade literária, muito apreciados pelo leitor/editor, mas menos acessíveis ao grande público, como a Maria Velho da Costa, a quem bastará publicar uma obra em cada cinco anos, tendo em conta as vendas. A edição é uma atividade comercial, não mecenática. “A Cicatriz” terá sempre prioridade sobre a “Lucialima”.
ResponderEliminar«Conheço autores (meus e de outras editoras) que estão sempre a teclar e a entregar livros novos, sobretudo os que não trabalham e querem viver exclusivamente da escrita...»
ResponderEliminarEu diria que escrever também é um trabalho, mas enfim...
«Há ainda aqueles que, não conseguindo escrever com a velocidade que gostariam, mal entregam o livro querem que seja lido e publicado (como se os editores não tivessem as suas prioridades) e exprimem a preocupação de serem esquecidos pelo público se não publicam de dois em dois anos.»
... E há ainda aqueles que, escrevendo, não conseguem publicar, ou publicam muito menos e mais irregularmente do que: os que «caem no goto» de editore(a)s (empresas e pessoas); e/ou que beneficiam do «factor ABC»; e/ou que têm a sorte de serem vistos como praticantes de «grande/séria literatura», mesmo que não possuam originalidade e talento substanciais. Aqueles que têm livros prontos, embora não editados, há cinco, dez, 15, 20 anos ou mais - mas que, por isso, e em «compensação», deixaram que eles «respir(ass)em o suficiente». Aqueles que nunca chega(ra)m a um ponto em que podem ser esquecidos pelo público... porque nunca foram verdadeiramente conhecidos.
Que estranho, uma editora dar a entender que escrever não é trabalhar... Parece coisa do século passado.
ResponderEliminar