Excerto da Quinzena
O presidente do Brasil, mãe, você o conhece pessoalmente. Ele já foi em casa duas vezes, quando ainda era líder sindical. Você esteve na fundação do partido dele. Esteve ao seu lado na luta pela Anistia, pelas Diretas, pela redemocratização. Até queriam você como suplente de senador do partido dele. Ele foi em casa numa noite em que tudo estava uma bagunça. Eu jogava War na sala com amigos. Tínhamos fumado maconha. Ríamos alto. Você, no quarto.
A Veroca o trouxe com o Geraldinho. Ele entrou, e gargalhamos, pois estávamos bem chapados. Ele nos cumprimentou, riu também, deve ter sentido o cheiro da rua. Claro que não oferecemos. Ele entrou e foi conversar com você sobre os rumos da política brasileira, que se reorganizava, saía da ditadura. Ficamos nos perguntando se deveríamos ou não oferecer maconha ao metalúrgico líder sindical. Melhor não. Naquela época, eu fumava maconha em casa com os amigos. No quarto, na varanda, nunca na sua frente. Depois de você ter descoberto que eu fumava, depois de ter descoberto que meus amigos fumavam, depois de ter descoberto que seus amigos, e amigos que fez já viúva, fumavam, depois de seus amigos que fumavam terem lhe oferecido, e de você não recusar, por educação, por timidez, e ter dado uns pegas, curiosa… e não ter sentido nada, você viu que não era coisa do demônio. Liberou.
Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui

Belo trecho de escrita em português coloquial do Brasil ! O que deixa a sugestão de livro merecer ser lido, mesmo que ofuscado pelo super-êxito do filme.
ResponderEliminar(no centenário da morte de Kafka)
ResponderEliminarFÁBULA BREVE
“Ah”, disse o rato , “cada dia que passa, o mundo vai ficando mais estreito. No princípio, era tão vasto que eu tinha medo, continuei a correr e fiquei contente por finalmente ver, lá longe, muros à direita e à esquerda, mas estes extensos muros aproximam-se tão rapidamente um do outro que eu me vejo confinado já ao último compartimento, e ali, ao canto, está a ratoeira para onde eu corro.” “Só tens que mudar de direção “, disse o gato e devorou-o.
(tradução de Álvaro Gonçalves)
Se vivermos onde todos sofrem e passam fome, os nossos actos incitam-nos a ajudar. Mas quando há fartura esquecemo-nos da nossa generosidade, acreditamos que o nosso país substitui tudo e todos. E não é assim; isso é, aliás, uma ilusão. Pelo contrário, o poder de salvar vidas existe em todos nós; e em cada um de nós retrocede quando não o utilizamos. É um poder concentrado.
ResponderEliminarExcerto da carta de Álvar Núñez Cabeza de Vaca ao rei de Espanha, suponho que Felipe II.
(A maravilhosa aventura de Cabeza de Vaca – Haniel Long)
Votos de um Extraordinário fim de semana!
"En 1991, la guerre froide est terminée, mais une nouvelle guerre mondiale a commencé: celle de l'information."
ResponderEliminarLa guerre de l'information - Les États à la conquête de nos esprits
David Colon
https://www.sciencespo.fr/histoire/fr/chercheur/David%20Colon/76313.html
https://david-colon.fr/
ResponderEliminarAinda um excerto d' o outro mundo, de Cyrano de Bergerac, como há duas semanas:
ResponderEliminarQuando os árbitros [...] eleitos por acordo entre as duas partes, designaram o tempo acordado para o armamento, o caminho, o número de combatentes, o dia e o lugar da batalha, e tudo isto com tamanha equidade que não há em cada exército um único homem a mais do que no outro, os soldados estropiados de um lado encontram-se agrupados na mesma companhia, e quando entram em ação, os marechais de campo têm o cuidado de os opor aos estropiados do outro lado, os gigantes defrontam os colossos; os esgrimistas, os hábeis; os valentes, os corajosos; os débeis, os fracos; os indispostos, os doentes; os robustos, os fortes; e se algum se dispusesse a ferir em outro que não fosse o inimigo que lhe foi designado, a menos que possa justificar que foi por engano, é tido por cobarde.
O KAFKA é absolutamente soberbo, inigualâvel!
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