Excerto da Quinzena

Apesar deste ambiente quase perfeito, ocasionalmente ouvia alusões a conflitos passados, situações que haviam sido, na opinião da maioria das pessoas, criadas pelas alunas. Uma vez, soube, uma aluna grávida e prestes a abandonar o colégio – os pais queriam obrigá-la a ter a criança e a viver fora do país – atirou-se do primeiro andar do edifício do BGU. A rapariga e o feto sobreviveram, mas uma professora que já lá não trabalhava denunciou à direção que Alan Cabrera passara muito tempo a discutir com a aluna e as suas colegas os pecados do aborto. A rapariga grávida saiu tão consternada de uma das aulas de teologia que pouco depois se atirou do primeiro andar. A professora que denunciou o caso também se queixou nas redes sociais das políticas institucionais do Delta e acusou-os de perpetuarem a violência contra as mulheres. Essa professora, obviamente, foi despedida, mas houve mais algumas professoras que sentiram a beligerância do discurso de Alan Cabrera nas suas salas de aula, apesar de não se atreverem a comentá-lo para além dos corredores do colégio. Em situações destas, pensava Clara, não se podia fazer nada: os pais das alunas apoiavam o tipo de educação que ali recebiam e, por essa razão, todos os anos pagavam enormes quantidades de dinheiro para a celebração de cerimónias e atividades da Opus Dei. «Este é o lugar ideal para trabalhar», disse-lhe Ángela no dia em que tomaram café juntas. «Desde que de vez em quando saibas fazer de surda, cega e muda.»


 


Monica Ojeda, Mandíbula, tradução de Rui Elias

Comentários

  1. António Luiz Pacheco8 de março de 2024 às 03:05

    Brindou-os com a teoria do "império soviético em implosão". Era da autoria de um assessor do Director, um académico que viajava muito pela Rússia e pelos países de Leste. Dizia ele que nunca encontrara por lá um autoclismo que funcionasse; e um império que fazia satélites, mas que não conseguia fabricar um autoclismo decente era um império com pés de barro.
    "Os Passageiros da Sombra" - Jaime Nogueira Pinto

    Votos de um Extraordinário dia internacional da mulher, cá desde a Cidade Morena, onde é feriado.

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  2. "O ser humano

    O ser humano é uma criatura sensível. Só tem duas pernas mas no seu coração abriga-se uma multidão de pensamentos e sensações. Poder-se-ia comparar o ser humano, se o nosso professor permitissse semelhantes alusões, com um parque público bem projectado. O ser humano faz poesia ocasionalmente, e, quando se encontra neste estado, que é o mais alto e mais nobre, chamamos-lhe poeta. Se todos fôssemos como deveríamos ser; a saber, como Deus nos ordenou que fôssemos, seríamos infinitamente felizes. Por infortúnio, entregamo-nos a paixões inúteis que não poderiam ser mais rápidas a enterrar o nosso bem-estar e a trazer um fim à nossa felicidade. O ser humano deverá estar em todas as coisas acima do seu colega, o animal. Mas até mesmo um aluno estúpido consegue observar todos os dias homens que se comportam como animais irracionais."

    in As redacções de Fritz Kocher, de Robert Walser

    Boas leituras, bom fds, boa reflexão, boa escolha eleitoral (se acharem que tal é possível, recorrendo em caso de força maior à teoria do mal menor)

    PS: Alguém sabe se a Bazarov feneceu?
    PS2: Hipótese enviesada e preconceituosa: no dia que a tiragem do Público + DN + Expresso + JN suplantar os diários desportivos + Correio da Manhã + Revistas Rosa, não seria mais necessário comemorar o dia da mulher, pois a nossa sociedade viveria naturalmente em igualdade de género o ano inteiro.

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  3. Atendendo a que da meia dúzia de lançamentos previstos para 2023 só um viu a luz do dia (Ensaios - Lydia Davis), parece-me legítimo concluir que a Bazarov esticou o pernil. É com grande mágoa que o afirmo, oxalá me engane.

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  4. (...)
    "Tu, trata de prestar atenção ao que vou dizer.
    Na verdade, a matéria não está ligada entre si de forma compacta
    e coesa, pois vemos que tudo diminui e que todas as coisas
    como que se vão exaurindo com a longa passagem do tempo
    e que a velhice tudo subtrai aos nossos olhos,
    apesar de o conjunto do universo, contudo, permanecer incólume.
    Isto sucede porque os átomos que abandonam cada coisa composta
    a diminuem, mas aumentam aquela para onde vão,
    fazem envelhecer aquelas coisas, mas, pelo contrário,
    fazem florescer estas e também não ficam aí de forma permanente.
    Assim se renova constantemente o Universo, e os seres vivos
    vivem por trocas recíprocas. Uns povos crescem, outros definham,
    e em pouco tempo mudam-se as gerações dos seres viventes e,
    como corredores de estafeta, passam umas às outras o testemunho da vida."
    (...)

    Lucrécio, Da Natureza das Coisas (trad. Luís Manuel Gaspar Cerqueira)

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