Anedotas
Recuso muitos convites porque mos fazem em cima da hora e já não consigo corresponder. Mas um dia destes esqueci por completo que tinha um compromisso (vá lá, o Outlook lembrou-me a tempo) porque, na verdade, a conversa sobre o assunto já tinha sido há quase um ano. Sobre a antecedência «excessiva», conheço, aliás, uma história deliciosa. Um escritor em princípio de carreira é convidado por uma biblioteca de província (passa-se em Espanha) para fazer uma leitura dos seus poemas daí a oito ou nove meses. Porém, no início do ano, o bibliotecário reforma-se, vem uma pessoa nova substituí-lo, essa pessoa entra de baixa por doença uns meses depois, e desaparece de certo modo o rasto de sessões agendadas no ano anterior. Mas, no dia aprazado, o escritor novato mete-se no carro, leva a velha pasta que herdou do pai, e aparece à hora indicada na biblioteca, de pasta na mão. Dirige-se ao balcão e diz que está ali para fazer a leitura. Então, a senhora sai de trás do balcão e leva-o até um corredor, dizendo-lhe: «É aqui.» Confuso em relação a qual das portas pertence à sala onde deve entrar, ele indaga: «Aqui onde?» É quando a funcionária abre um armário de parede, deixando à mostra o quadro de electricidade. «Não disse que vinha fazer a leitura?» Bem, isto nunca me aconteceu, ainda bem, mas um autor meu já fez uma viagem intercontinental para participar de um festival que, afinal, não tinha sido diivulgado nem tinha público... Ele passou uns dias de praia e turismo óptimos, ganhou o cachet sem ter de fazer nada e voltou à pátria. Histórias dignas de Vila-Matas.
Quantas dessas histórias se podem contar... lembro-me de uma passada comigo, cujo título poderia ser: "ir á lã e sair tosquiado".
ResponderEliminarAqui há meia-dúzia de anos, um empresário português-moçambicano com forte presença em Angola nas áreas da agricultura e turismo, paisagismo e reabilitação de estructuras, com quem tenho amigos em comum, pretendia fazer um investimento de vulto no Cuando-Cubango, e, reuniu numa unidade turística-rural que possuía naquela província junto ao rio Cuepe, um grupo de investidores, banca, governo provincial. Tinha aí uma grande fazenda que estava a transformar em parque cinegético e onde construiu um "lodge" luxuoso. O investimento a fazer seria na área da apicultura e sabendo que eu coordenara em tempos um grande projecto de mel para o Banco de Desenvolvimento de Angola, convidou-me para ir passar um fim de semana ali com o tal grupo e fazer uma apresentação do que fora o nosso trabalho e conclusões. Isto a título particular, mas tendo em conta a pessoa que era e a pedido do nosso comum amigo, acedi de bom grado.
Ora, tinha na época um administrador executivo da empresa onde trabalhava (e trabalho), um bom mariola e valente artolas, self-made man com a mania que era o máximo, todo ele respirando marketing, advertising e confiança, expressas num discurso rico, prolixo, intenso, cheio de anglicismos e globalidade. Quando soube do caso, colou-se logo para ir também, pois queria muito contactar alguns dos presentes, gente grada dos negócios e banca. O pretexto seria ele fazer a apresentação do meu power point pois estava muito habituado, eu trataria da parte de responder a perguntas.
Lá fomos numa madrugada de Sábado, em avião privado, rumo ao luxuoso lodge. Como combinado, ele exibiu-se quanto pode na apresentação (como se fosse trabalho dele) e depois houve uma sessão de perguntas e esclarecimento. Correu bem, e houve um belíssimo almoço, que encerraria o evento, nós convidados para passar ali o resto do fim de semana, incluindo passeios pela fazenda, ver os animais e desfrutar do conforto do local aliás magnífico e muito bem provido de tudo.
Para mim, um fim de semana de repouso e na maior comodidade. Para o nosso pendura, a coisa não correu como previsto... é que uma das empresas do nosso grupo estava a construir para o governo provincial, uma série de casas num programa social, e, o governador (General Higino Carneiro) que não era homem para perder tempo, assim que soube que estava ali um administrador da constructora, mandou chamar o engenheiro chefe da fiscalização ao projecto por causa de uma série de incumprimentos e alterações, ou dúvidas existentes, e, o emplastro passou o resto do fim de semana diante de papéis e projectos. Como usava o cabelo rapado à gilete, foi mesmo ficar tosquiado!
Bem-feito!
Saudações lãzudas cá da Cidade Morena.