Língua rica

O português é um idioma extremamente rico; quando vemos, lado a lado, um dicionário de Português-Inglês e outro de Inglês-Português, imediatamente nos apercebemos de que temos muitíssimos mais vocábulos do que os nossos velhos aliados. E isto passa-se realmente em todos os contextos. Um dia destes, fui jantar fora a um restaurante de bairro e aí encontrei na ementa uns «grenadinos», palavra que não conhecia associada a comida. Uma amiga que tem sempre a internet à mão consultou o telemóvel e logo descobriu que se tratava de uns finíssimos escalopes,  enviando-me o link em que o descobrira, com o qual me diverti nos dias seguintes, pois só em termos de preparação, corte e confecção de carnes a oferta de palavras não pára de aumentar. Vejamos, por exemplo, termos como «lardear» ou «albardar» juntarem-se a vocábulos mais comuns como «atar», «chamuscar», «limpar», «cortar», «desossar», «picar» e «rechear». E, antes ainda de pôr a carne a cozinhar, podemos dividi-la em «escalopes», «bifes», tournedós», «costeletas», «entrecôtes», «medalhões, «supremos», «carrés», «selas», «rojões», «febras» e muito mais (além de «grenadinos», evidentemente, que acima referi). Finalmente, para confeccionar a carninha (estamos quase a poder provar), há várias técnicas à disposição, tais como «fritar», «cozer», «panar», grelhar, «guisar», «estufar», «assar», «saltear», «gratinar», «brasear» (e isto para usar apenas verbos, porque ainda temos coisas como «ao sal» ou «au bleu», mas não vale a pena ser exaustiva). Um dia destes volto com o peixe e com mais uma dúzia palavras que, em inglês, são quase de certeza menos de metade. Claro que a nossa comida também nada tem que ver com a deles, pelo que ler um livro de receitas em Portugal é mesmo uma aprendizagem da língua, lá isso é.

Comentários

  1. «dessossar» vs desossar

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  2. António Luiz Pacheco27 de março de 2024 às 03:38

    Grenadino... aportuguesamento do termo francês "grenadin". É um medalhão ou tornedó, mas de vitela, mais pequeno e delicado, devidamente lardeado e atado, normalmente cozinhado num estufado com molho rico.
    Enfim, chama-se a isto "épater les bougeois". Os "chefs" adoram épater... e o pessoal alinha em ser "épaté". Mas por mim tudo bem, sejam felizes! Eheheh!
    E coma-se bem, olá!

    Na alimentação, seja no talho ou na cozinha, na preparação, corte, culinária, disposição, apresentação, há uma gíria própria e riquíssima cheia de estrangeirismos que de facto só enriquecem a língua portuguesa. Domino uma parte, por força da minha actividade nesta área, ao longo de tantos anos, em que o francês prepondera.

    Penso que todos nós e em particular os Extraordinários, temos essa noção, da riqueza linguística da nossa língua, fruto de três coisas, penso eu:
    - Primeiro, do facto de sermos um Finisterra, isto é um ponto final nas deslocações ancestarias, nas migrações, fugas ou busca de novos territórios, que desde tempos imemoriais ocorreram, tendo sido invadidos ou simplesmente atravessados por outros povos, alguns dos quais se estabeleceram mesmo neste cantinho em frente do mar, e, nos colonizaram de forma indelével: a língua foi uma forma disso acontecer e deu ao português arcaico como ao moderno, as ricas bases que persistem.
    - Segundo, da nossa dispersão geográfica, fruto dos descobrimentos e da nossa errância como marinheiros, comerciantes, viajantes, emigrantes, colonizadores, aventureiros. Do contacto com o Mundo inteiro nos vieram palavras e termos, conceitos expressos por outras palavras ou idiomas, que fizeram a língua portuguesa como ela é.
    - Terceiro, porque sendo abertos ao Mundo, fomos sempre simultâneamente colonizadores e colonizados, que se integraram ou integrámos outros. Daí, recebermos e adoptarmos outras línguas, expressões, palavras, termos.
    A razão da riqueza, única, da nossa língua portuguesa deverá vir disto? Assim creio.

    Ser tradutor de português para outros idiomas é capaz de não ser fácil, e imagino quão prejudicados possam ficar os textos de escritores mais ricos ou regionalistas como Aquilino e Paulo Moreiras, só para citar dois de que me lembro de repente.
    Já traduzir para português, creio que deve ser com dar uma paleta de tintas a um pintor e deixá-lo colorir! No pressuposto de que quem o faça domine e conheça a extensão do nosso prolixo vocabulário.

    É por isso que engalinho com determinadas brasileirices que nos passam atestado de limitados linguísticos, que de todo não somos! Também encafifo solenemente com determinadas traduções que fazendo-a "à letra", exprimem essa limitação e a falta de conhecimento do vocabulário por parte do tradutor.

    Bom apetite literário e culinário, são os meus votos cá da Cidade Morena, onde também há cortes de carne próprios, por exemplo "tiras" que são muito apreciadas no churrasco, ou o "peito alto" popularíssimo no seu estufado rico, gordo e suculento, com molho!

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  3. António Luiz Pacheco27 de março de 2024 às 03:42

    "ancestarias" é ancestrais, peço desculpa!

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  4. Também vejo na nossa língua uma outra riqueza. A mesma palavra adquire vários significados, dependendo do contexto e por vezes apenas pelo tom em que é pronunciada.

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  5. O português é realmente um idioma extremamente rico mas mesmo assim o staf e o chef, para além dis influenciers, são o pão nosso de cada dia cá na terra dos tugas.

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  6. Incidentalmente tenho uma ideia contrária: em inglês há muito mais vocabulário do que em português. Porque a língua inglesa tem palavras de origem latina e saxónica. Por vezes com significados parecidos (nem sempre) mas não exactamente iguais. Exemplo: comprehend e understand.
    Os portugueses que falam inglês geralmente utilizam as palavras parecidas com as suas, as de origem latina, mas para os ingleses normalmente as que vêm do latim são consideradas palavras "caras".
    Já vi um inglês gabar imenso o inglês de um amigo português e cheguei à conclusão que era devido a ele utilizar muitas palavras "caras", isto é semelhantes às o português.
    Mas todos os falantes de qualquer língua consideram a sua como sendo o máximo e cheia de qualidades.

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  7. E ainda "entalar" tenho a ideia da minha mãe usar para o início de um prato em que juntava cebola, alho, vinho, temperos e deixava a carne a entalar em lume brando antes de juntar outros ingredientes

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  8. O termo que conhecia para o efeito descrito, e que se utilizava muito na minha aldeia, era "encalar".
    Boa Páscoa
    Manuel dias da Silva

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  9. Muito obrigada e Boa Páscoa também!

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  10. Não sou entendido na matéria mas não creio que sendo o português uma língua "rica" não será mais "rica" que as outras todas. Geralmente todos os falantes consideram a sua língua a mais "rica" de todas. O problema acho que começa precisamente pela definição do que é uma língua "rica". É a que tem mais palavras? A que tem mais sinónimos? Este assunto não deixa de ser interessante mas muito difícil de resolver.

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