Index

Uns dias antes de sair para as livrarias um livro maravilhoso cuja acção decorre numa escola de elite da Opus Dei (escreverei aqui sobre ele oportunamente), falo de um artigo que guardei sobre a quantidade de livros portugueses que estão proibidos por esta instituição e só tive tempo de ler agora. Os livros sempre foram malquistos por certas organizações e muitos deles, como todos sabem, foram queimados pela Inquisição e, mais tarde, pelos nazis que deles fizeram fogueiras públicas. A Igreja também chumbou a leitura de obras que a ofendiam ou iam contra os seus dogmas, e a escola fascista que frequentei durante a ditadura censurava os «fi de puta» de Gil Vicente nos livros escolares. Mas eu desconhecia que a Opus Dei em Portugal tivesse um index tão extenso (mais de 30 000 livros!) de  proibições e que, entre as mais ou menos evidentes, como o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, ou A Relíquia e o Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, constassem obras de Lídia Jorge, como A Costa dos Mumúrios ou O Dia dos Prodígios,não se terão mesmo enganado? Faz-me lembrar há muitos anos uma livraria católica em Évora que não quis comprar exemplares de O Primeiro Éden, de David Attenborough, por achar que o Éden era outra coisa, e os censores do Antigo Regime que confiscaram uma biografia de Nijinski só porque lhes cheirou a russo. Brinco, mas não devia...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco14 de março de 2024 às 02:42

    Ou talvez devesse... afinal o ridículo mata! Segundo dizem, mas acredito que sim.
    O Diácono Remédios e o seu "não havia nezezidade", quando criticava os "soquetes" no Hermanias (era?) é bem a personificação do ridículo da censura.
    A censura instalou-se em determinados momentos e regimes, ainda permanece em Cuba por exemplo, coisa que os intelectuais de esquerda fingem ignorar e desprezam os muitos intelectuais perseguidos e presos pelo regime de quem fazem apologia.
    Se formos a ver há outras formas de censura, as próprias Casas Editoras o que fazem senão censura, quando determinam e nos respondem que o original enviado para apreciação não se enquadra na linha editorial? Se calhar valia a pena pensar nisso... um editor tem o poder de censurar o autor, porque não lhe cai bem e não falo da qualidade do texto em si, que pode ser trabalhado, mas sim da ideologia, do tema que seja considerado inoportuno. Não será isso censura? Apenas uma reflexão minha que me parece enquadrada com a conversa, peço desculpa se não for.
    Sou católico, por formação e não por devoção, no entanto entendo que Deus Nosso Senhor nos deu o discernimento ou a inteligência para alguma coisa e que será o livre arbítrio. Aliás é essa a analogia da famosa maçã que a serpente deu a Eva, de quem sou filho e portanto pecador no sentido de ter os olhos abertos para lá do Paraíso. Portanto, se aceito que as diferentes fés ou igrejas aconselhem e orientem os seus fiéis, no entanto não aceito que "proíbam" leituras. Se assim não for, pois quando for presente ao Criador, Ele que me puna por pensar deste modo, que entretanto vou enchendo a barriga de leituras, ainda que contrárias à Fé, mas porque entendo que para fortalecermos o nosso pensar devemos ler também o que seja contrário a esse nosso pensamento.
    Ninguém me proibe a leitura dos 7 Pilares da Sabedoria, Mein Kampf, o Capital, o Príncipe, a Bíblia, como de Tarzan dos macacos ou o Triunfo do bastardo! Essa agora.
    A Opus Dei que proíba o que entendam os seus beatos, afinal é só mais uma das muitas tentativas de nos condicionar o pensamento, o que vem sendo tentado, em vão, desde que o Mundo é Mundo. Só espero que continue sendo vã, pois que hoje mais do que nunca se assiste a essa tentativa e há os meios que nunca antes houve! Mas acredito no homem e na sua ânsia de liberdade. Haja Largueza!

    Saudações livres e lidas, cá da Cidade Morena.

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  2. Hoje já não é preciso fogueiras, listas negras, ou outro tipo de censura. Tremendamente mais eficaz, existe ainda uma pior forma de censura: a auto-censura não consciente.

    Pode-se bem resumir nesta curta frase: https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/dixit-38141

    Boas leituras

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  3. As ridículas proibições que não fazem sentido em pleno séc. XXI. A Costa dos Murmúrios? Porquê? Talvez porque relata a guerra colonial e que inspirou um belo filme de Margarida Cardoso.
    Mas esperemos por mais surpresas que já andam por aí, como avisou MRP quando, nas Correntes de Escrita leu o texto inspirado no mote “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. Vale a pena ouvir.

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  4. https://open.spotify.com/episode/29ltUwLf5hKmm6vKwkO2bj?si=jecHlchQRQO6PrPQyL2FFg

    Por aqui se vai para a intervenção de Maria do Rosário Pedreira (que me desculpe a ousadia) e mais dois intervenientes.

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  5. Em linhas gerais a censura pratica-se nos regimes políticos porque a obra não está alinhada com o regime e nos regimes económicos porque não vai dar lucro.

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  6. Tempos de estupidez e ignorância.
    Lia-se o Padre Amaro às escondidas e com deleite.
    Tempos findos. Já não há index.

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  7. «Há outras formas de censura, as próprias Casas Editoras o que fazem senão censura, quando determinam e nos respondem que o original enviado para apreciação não se enquadra na linha editorial? Se calhar valia a pena pensar nisso... um editor tem o poder de censurar o autor, porque não lhe cai bem e não falo da qualidade do texto em si, que pode ser trabalhado, mas sim da ideologia, do tema que seja considerado inoportuno. Não será isso censura? Apenas uma reflexão minha que me parece enquadrada com a conversa, peço desculpa se não for.»
    Não tem de pedir desculpa, caro Pacheco. Esta reflexão que fez também pode ser, ou é mesmo, minha. Aliás, mais do que reflexão, é constatação, porque tal aconteceu-me várias vezes ao longo dos anos.

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  8. «A combustão é um processo que requer oxigénio, e a estrutura física de um livro, especialmente quando fechado, impede que quantidades suficientes de oxigénio atinjam as páginas internas, limitando a queima às bordas e superfícies expostas.
    As páginas densamente compactadas conduzem o calor com menos eficiência para o interior do livro, o que pode limitar a propagação da combustão para além das páginas exteriores.
    Os livros são predominantemente feitos de papel, que é composto principalmente por celulose. A celulose pode queimar, mas a reacção química com o oxigénio requer uma quantidade significativa de energia para ser iniciada. Além disso, muitos livros são tratados com compostos químicos que podem retardar a combustão.
    Os livros frequentemente contêm uma certa quantidade de humidade, absorvida do ambiente. A presença de água no papel requer que parte do calor gerado seja usado para evaporar essa água antes que a temperatura possa atingir o ponto de ignição da celulose. Este é um processo endotérmico que absorve uma quantidade significativa de energia, retardando ainda mais a combustão.
    Para que a combustão se propague através de um livro, o calor gerado pela queima das páginas exteriores deve ser suficiente para elevar a temperatura das páginas internas acima do ponto de ignição. No entanto, a transferência de calor é ineficiente num meio compactado, como as páginas de um livro.
    A combinação destes factores cria um ambiente onde a combustão de um livro é inerentemente ineficiente. A estrutura física do livro limita severamente a disponibilidade de oxigénio e a eficácia da transferência de calor, enquanto a composição química do papel e a presença de humidade exigem condições de ignição relativamente altas que são difíceis de atingir e manter em todas as partes do livro simultaneamente. Portanto, sem uma exposição suficiente a uma fonte de calor externa que possa compensar essas limitações, os livros tendem a arder mal.
    A verdade e a sabedoria verdadeiras emanam de Deus e estão em consonância com os preceitos da Igreja inscritos na Bíblia e no Catecismo da Igreja Católica. Assim, a protecção dos fiéis contra ensinamentos falsos ou distorcidos é uma responsabilidade pastoral e das prelaturas, visando preservar a integridade da fé e a salvação das almas.
    Considerando a ineficácia da incineração de livros, sugerimos a implementação de métodos alternativos para evitar a leitura de obras contrárias aos ensinamentos e valores cristãos.
    As chamas podem consumir páginas, mas não a fé que reside no coração dos justos. A verdadeira sabedoria resiste ao fogo da perseguição.»

    Fonte:
    Pacheco, Diogo J.; Dias, Rita B. “Desafios na Combustão de Livros: Uma Análise Tecnoteológica”. In: Observatorio para la Unificación de Saberes: Diálogo entre Esferas Intelectuales (OPUS: DEI). Jerusalem: Institute for Advanced Research in Science and Faith, 2024. (Technical Report No. 2024-03).

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