Velhos são os trapos

«Não é todos os dias — nem todos os anos — que se encontra uma estreia tão fresca, segura e divertida como Escovar a Gata», disse o New York Times, um livro sobre o mundo sensual das mulheres mais velhas escrito por Jane Campbell à beira de fazer oitenta anos. Longe de caírem nos estereótipos da velhice, as protagonistas deste livro delicioso (e por vezes altamente dramático) – tantas  vezes atiradas para lares ou casas de família só por terem passado dos setenta – querem continuar a ter a chave de casa e não deixam que a sua vida seja controlada por outros. Susan descobre-se sexualmente atraída pela sua cuidadora no hospital; ao enviuvar, Linda resolve procurar o homem com quem teve um relacionamento escaldante durante um congresso; Martha, isolada num apartamento em tempos de pandemia, aceita a proposta do governo para desfrutar da companhia de um robô bem-comportado, que engana descaradamente; a avó que vai de comboio ao encontro da neta decide casar-se com o único passageiro da carruagem para não ter de ficar a tomar conta da irmã inválida e prepotente; a senhora que escova a gata do filho recorda, nos movimentos do animal, as próprias experiências sexuais e pensa que a nora há de acabar por pô-las na rua, a ela e à siamesa… Escrito de forma desafiante, cheio de uma sabedoria intemporal, eis uma fantástica lição contra o preconceito e os equívocos que rodeiam a vida das mulheres de idade.


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco25 de março de 2024 às 01:57

    Bom... então por uma questão de paridade, fico à espera que saia um livro chamado... escovar o cão? Sei lá, que fale na sexualidade e abandono dos homens que passaram dos setenta. Eheheh.

    Votos de uma semana Extraordinária, cá desde a Cidade Morena.

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  2. Bom dia
    Se lermos 52 livros por ano, e vivermos 100 anos, arredondando (sete e dois nove, e vai um), isso dará a extraordinária média de 5200 livros por leitor. Se se editarem 10mil livros por ano em Portugal, mesmo descontando os que nunca iríamos ler, somos confrontados com a nossa inexorável finitude: https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/dixit-14201
    Por mim continuo a preferir as serendipidades a outro algoritmo de escolha. O acaso pode ocorrer em qualquer lado, seja no mundo real ou no seu espelho digital.
    Boa semana, boas leituras (e bons acasos)!

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  3. Bom, se o livro é de escritora avançada na idade, partimos do princípio de que saberá do assunto. Mas as escritoras não são de fiar, inventam muito. Podem mesmo inventar que a velhice seja divertida. Até agora ainda só lhe encontrei um factor positivo. Para não mentir, são mais dois ou três. Contudo, verdade ou invenção pura, se o livro é bem humorado, já vale a pena. E como pelo menos a Europa parece estar a (de)compor de velhos, terá muita procura. Digo eu.

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  4. Ao ler este post de Maria do Rosário Pedreira, e também das linhas que dois ou três leitores/leitoras acrescentaram, lembrei-me de uma série que recentemente vi na Netflix. Aborda a vivência daqueles que são menos novos e até numa idade onde o pensamento espreita outros vôos e, "realidades" sobre as quais não sabemos se as são. Talvez se foque mais nas vivências masculinas, mas não se fica por aí. (atenção, será assim uma proximidade a uma futura obra em que alguém escove o cão). Chama-se O Método Kominsky, com Michael Douglas, Alain Arkin, Sarah Baker e Kathleen Turner nos papéis preponderantes. Uma forma de abordagem de factos à séria, numa apresentação super divertida. Um Michael Douglas sublime aqui, a fazer nascer uma boa gargalhada e somar sedução.Fiquei com interesse na obra recomendada de Jane Campbell. Se em pouco mais de meia dúzia de anos estaremos à porta dessa idade, porque não "espreitarmos" uma introdução, uma visita guiada a uma fase em que desejamos estar bem vivos nos dias, nas relações, nos sentimentos, em todo o quotidiano, encharcando um pano e prometê-lo a quem se apronte falar do "parecer mal".

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