O que ando a ler
Leio menos ensaio do que gostaria, mas, por deformação profissional, estou treinada sobretudo para ler ficção, encontrar autores, perceber o que está a mudar na arte de contar histórias. Porém, agora leio um ensaio maravilhoso, que já comprei há muito e estava lá por casa à espera de uma brecha. Soube que um colega o andava a ler e o seu entusiasmo pegou-se-me; então, mal terminei o romance que tinha em mãos, passei a Regresso a Reims sem mais demoras, até porque o livro de Didier Eribon é também uma história como as da ficção, a de um rapaz que nasceu num meio extremamente pobre e bruto e sai de casa assim que pode (até porque é homossexual e o pai e os amigos deploram pessoas como ele), não regressando senão muitos anos depois, quando já a mãe está sozinha e a relação com ela finalmente se recupera. Esse regresso a Reims é realmente poderoso, porque Didier Eribon entende que não era afinal da homossexualidade que teve vergonha (já escreveu sobre este assunto noutro ensaio que foi, aliás, libertador para muitos), mas das suas origens sociais. Colocando-se, assim, no centro da narrativa, ele analisa sociologicamente o tempo da sua infância e mesmo o tempo que antecedeu o seu nascimento (a vida tremenda de ambos os progenitores) para analisar as razões por que cresceram tanto os votos na Frente Nacional, incluindo no seio da sua família, que votara sempre no Partido Comunista. Elogiado por muitos, incluindo a falecida romancista Hilary Mantel, Regresso a Reims é um livro sobre as desigualdades de sempre e o que estas provocam no futuro.
Bom dia
ResponderEliminarJulgo estar na posição inversa, leio muito mais não ficção (aliás, basta atentar na minha desinteressante pegada digital)
Li o livro referido, de rajada, numas férias de Verão, já após o desembarque em Portugal do sucedâneo da Frente Nacional.
Ilustra bastante bem o fenómeno da ascensão do populismo em França, as suas causas (quase podemos generalizar daí para o continente europeu e mesmo americano) e sobretudo, faz-nos pensar sobre as suas possíveis consequências - sobretudo para quem se interessa pela História da Europa e conhece "filmes parecidos".
Porém, ao introduzir a sua história pessoal e familiar no fluxo narrativo torna esta obra bastante sui generis, quase um híbrido.
Boas leituras, bom fds!
PS: Sobre esta temática, permitam-me a sugestão de uma autor mais "técnico", mas igualmente apreensivo - já que é avô: Martin Wolf https://leiturasimprovaveis.blogs.sapo.pt/a-crise-do-capitalismo-democratico-de-13219
Acabei de reler O Monte dos Vendavais da Emily Bronte na tradução de Paulo Faria; a primeira leitura na tradução de Fernanda Cidrais, dos anos 50, era eu ainda muito jovem, impressionou-me bastante; penso que já é a terceira leitura, e cada uma delas é diferente da anterior; é uma obra imortal! Ando a ler Os Dias de Saturno do Paulo Moreiras, nesta edição revista e aumentada.
ResponderEliminarAndo numa fase de ler livros que devia ter lido mas que iam sempre esperando a sua vez. Assim, de enfiada li "As Minas de Salomão" (Henry Ridder Haggard, com tradução de Eça de Queirós) e "Vathek" ( William Beckford) e estou embrenhado na "Manon Lescaut"(Abade Prévost).
ResponderEliminarInspirei-me livremente na obra de Didier Eribon para escrever o rap “Beja-se o Beat”, sobre o meu regresso ao Alentejo, à terra que me viu crescer.
ResponderEliminarCom a obra de Didier Eribon como guia,
A minha mente embarca numa viagem sentida.
Ao Alentejo, terra natal, regresso,
Em busca das minhas raízes, num abraço.
Escrevi este rap com alma e coração,
Inspirado na tradição e na emoção.
Espero que vos traga paz e reflexão,
Assim como a mim, na sua criação.
Só vos peço que, enquanto o lêem, o cantem imaginariamente ao estilo de Wu-Tang Clan, sendo que o refrão tem samples de Cante Alentejano. Vá lá, se cantar não for a vossa onda, pelo menos declamem o texto numa fusão de rap e cante, a dropar os versos ao ritmo de uma seara de vento.
BEJA-SE O BEAT
Deixei o Alentejo, terra de sol e pão,
Em busca de um sonho, com o coração na mão.
As planícies douradas, meu berço, meu chão,
A cada passo, uma saudade sem perdão.
Cresci entre o trigo, sob o céu sem fim,
Histórias de luta, um legado sem fim.
Mas o mundo lá fora chamou-me com o seu som,
Deixei o meu porto seguro, com um aperto no coração.
Refrão (com Cante Alentejano):
Regresso ao Alentejo, onde a vida começou,
Entre o passado e o presente, o que eu sou.
Nas veias corre o vinho, na alma o amor,
Regresso ao Alentejo, com força e vigor.
Na grande Lisboa, a vida acelerada,
Cada passo uma batalha, a mente embotada.
Mas na memória, a terra sempre amada,
Um refúgio seguro, a alma serenada.
Aprendi a ver o mundo com outros olhos,
Experiências novas, novos brotos.
Mas o Alentejo chama-me com os seus laços,
Sua gente, seus costumes, seus abraços.
Refrão (com Cante Alentejano):
Regresso ao Alentejo, onde a vida começou,
Entre o passado e o presente, o que eu sou.
Nas veias corre o vinho, na alma o amor,
Regresso ao Alentejo, com força e vigor.
Ponte:
No silêncio da planície, encontro a paz,
Entre o que fui e o que sou, a ponte que me faz.
A terra, o trabalho, a luta que nos traz,
Ao Alentejo, que me mostrou que sou capaz.
Agora vejo a terra com um olhar diferente,
Cada pedra, cada monte, um presente.
O futuro do Alentejo e eu, juntos, de repente,
Com as raízes do passado, eternamente.
Refrão – variação (com Cante Alentejano):
Regresso ao Alentejo, meu berço, meu lar,
Onde a história se escreve, sem vacilar.
Nas veias corre o vinho, a força que me faz vibrar,
Regresso ao Alentejo, para continuar a sonhar.
Final:
Alentejo, terra amada, meu porto seguro,
Aqui me encontro, completo e puro.
Ando a ler “O quarto do bebé “
ResponderEliminarQue grande seca!Ate agora ainda não percebi donde vieram tantos elogios…
Leio JUNIA OU A JUSTIÇA DE TRAJANO, de Theresa Schedel, autora que não conhecia. História baseada na vida do infortunado duque de Bragança, D. Fernando, ao tempo de D. João II e da terrível guerra entre o poder real e a nobreza.
ResponderEliminarECG - anónimo
ResponderEliminarAguardo sempre o dia 1 para saber o que anda a Extraordinariedade a ler!
ResponderEliminarÉ sempre ponto alto do mês.
Hélas, este mês fiquei frustrado, pois além de me encontrar sob os nefastos efeitos dum violento acesso de malária, na Sexta-feira fiquei privado de internet, por uma das muitas e recorrentes avarias em que esta terra é pródiga. Falta sempre ou a luz, a água ou a net, quando não todas ao mesmo tempo.
Só há pouco me dei conta do seu restabelecimento, pelo que apesar de tardio pude aqui vir pontificar e ler-vos, como tanto gosto!
Como dei conta no passado dia 1, andei a ler "Ter ou não ter" de H. Hemingway, que dispensa comentários, todavia teve um efeito secundário funesto, é que o livro em que peguei a seguir e estou a meio, tornou-se uma séca. Não por culpa do livro em si, tenho de ser honesto, pois é uma boa obra, porém ficou nítidamente prejudicado pois tinha a minha percepção de leitor em alta e o romance que estou a ler, não chega nem perto ao anterior. A despeito dos muitos encómios... mas quem se atreve a classificar "Tasmânia" como o melhor livro do ano? Foi alguém que leu TODOS os romances publicados por acaso?
É por isso que cada vez menos dou atenção às críticas e cada vez mais sou crítico em relação aos críticos.
Sim senhor, "Tasmânia" (Paolo Giordano), é um bom romance! Para mim tem tanto de oportuno quanto de oportunista, pois não se pode criticar o autor por surfar a onda e aproveitar o grande tema do momento, as alterações climáticas, para se inspirar e claro tirar dividendos. No entanto ´para mim não é um GRANDE romance, nada disso. É bom, está bem escrito, é sobretudo actual e reúne informação de forma suficiente para se perceber que foi trabalhado, mérito ao autor que tenta ser honesto e tratar este e os demais temas (relacionamento humano) de forma correcta. Já em relação aos personagens, bom creio que por desinteressantes são quem mais prejudica a acção. São um bando de chatos, misóginos insossos e introspectivos.
É livro a ler, sem dúvida que o afirmo e até aconselho. Mas está bem longe daquilo que dele esperava, também tenho de o dizer.
Aguardo ansioso pelo "Os passageiros da sombra" de Jaime Nogueira Pinto. É o primeiro romance que leio deste autor, de quem tenho outros títulos e muito aprecio o pensamento, pelo que pedi me comprassem e enviassem, Já está em Luanda e deve vir de boleia para baixo, amanhã. Espero compense o Tasmânia, mas acredito que sim, depois darei notícias!
Já está comprado e aguarda portador, o inevitável "Os dias de Saturno", do incontornável Paulo Moreiras. Conversei sobre este com a minha mulher, por essa novel e útil linha de comunicação de nome Watsap, e ela leu-me as análises à sua reedicção, justamente porque coincidem com o que eu lhe havia dito sobre o autor que muito aprecio. Levada pela curiosidade, começou a ler, está gostar e por isso ainda demora a vir cá parar, também na verdade ainda não tenho portador. A parte mais engraçada é que ela acha que o Paulo e eu temos muito em comum! Bom, eu também sinto que sim pelo que vou ter de o desafiar para um encontro de treta gastronómica, quando estiver em Portugal. Uma vez, já há uns anos, reuni à mesa lá em casa alguns dos autoproclamados "desalinhados" e foi um sucesso, pelo menos em termos de comezaina. O Paulo não é nenhum desalinhado e graças a Deus pois seria uma pena não ser editado e distribuído, mas é bem-humorado e acho que vai gostar!
Saudações convalescentes cá da Cidade Morena.