Maravilhosa tecnologia

O Manel nunca resiste a uma novidade tecnológica e, talvez porque isso se saiba por aí, foi convidado pelo jornalista José Mário Silva para comentar uma aplicação para o iPad da obra Our Choice, de Al Gore, para um artigo que saiu recentemente no semanário Expresso. Embora seja uma adoradora do livro em papel e não pense que ele venha a extinguir-se (Umberto Eco acredita que é mais fácil que se extinga o e-book), fiquei extasiada com a forma como um livro de ciência ganha realmente com esta versão: ilustrações tridimensionais, gráficos em construção, imagens em movimento, a voz do autor a explicar tudo. Pareceu-me, de facto, que esta pode ser a maneira ideal de explicar a um estudante como e porque entra em erupção um vulcão, o que é realmente um tsunami, um sismo, a chuva, a ruptura de um ligamento, o desenvolvimento de um tumor, etc., etc., etc. E, no entanto, passadas as páginas até ao final da obra (se é que podemos falar de páginas), a sensação que me ficou foi a de ter estado a assistir a um programa de televisão, e não a ler um livro. Acredito sinceramente que o mecanismo contribua para uma melhor aprendizagem de certos factos e matérias, mas ler – e, sobretudo, literatura – é outra coisa e requer uma concentração que não se compadece com estas maravilhas tecnológicas. Aliás, os números de consultas de e-books nas bibliotecas dos Estados Unidos apontam para uma percentagem de 76% dos chamados «professional books»: de medicina, direito, gestão, ciência. Parece que os leitores de romances ainda os preferem em papel. Como eu.

Comentários

  1. As duas versões talvez possam coexistir pacificamente, cada qual com a sua função. Também se previu o fim do/da rádio, quando surgiu a televisão.

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    1. Espero que possam. Um livro é sempre um livro, mas também é agradável poder ler o original de uma obra no iPad e aceder à tradução de um termo desconhecido, uma vez que normalmente a app inclui a obra e um dicionário. Por outro lado, em viagem ou em férias, podemos levar um grande número de obras num espaço muito reduzido.

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  2. Nenhum Ipad ou outra nova tecnologia qualquer poderá substituir o LIVRO. Falta-lhe o cheiro, a textura, a forma e a ligação afectiva que conseguimos estabelecer com esse organismo vivo chamado LIVRO.

    Cláudia Moreira

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  3. Eheheh. Eu não disse? Também para os romances, os livros interactivos têm o seu momento. O segundo. Que é o momento que eu tomo para mim no cinema, quase sempre depois de ver o filme, e mesmo nos livros. Ter acesso à versão interactiva do romance num segundo momento será (porque vai ser) magnífico. Entrevistas. Locais. Making of (não seria fantástico), documentação, fundamento, pessoas ligadas ao processo do livro, etc, etc.:)

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  4. Acho que não se devia chamar livro. Não é um livro, é outra coisa.

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  5. A humanidade chegou ao denominador comum que é “ter informação”. O mundo não é o mesmo e nem comporta mais, “assim caminha a humanidade” sendo outra a forma – Assim salta a humanidade... Salta, pelas tecnologias e nas convenções como na maneira de olhar através do tempo! Deste novo tempo de aprender em como ser aprendiz. Um divisor de águas que nos enriquece e entedia. Trás, curiosidade e espanto. De algo que não sabemos e que rompe com a segurança desta geração que vai ficando ao suor de afirmar seus valores, quando somente nós, que vivenciamos a verdade de nossas angústias e compreensão através do livro, orienta neste, já, um rastro de saudade de tempos idos que ainda presente. Não, o livro não findar, mas, a tecnologia é um caminho sem volta, e salta distâncias alarmantes.

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  6. O problema destes gadgets é a sua falta de imaginação, ou seja, não potenciam essa energia magnífica que um bom livro consegue provocar na mente dos seus leitores. Este paradoxo é a mais-valia de um livro, pois cada leitor reescreve o texto à sua maneira. Cada leitura tece a figuração dos seus personagens. Quando confrontados com o "filme" do livro, com a "materialização" dos seus personagens, algo se perde. Por isso o livro será sempre insubstituível, por muito que estes fenómenos tecnológicos nos puxem, quais abismos. Enquanto leitor, apaixonado por livros, não quero ser levado por filmes, não quero que me ofereçam a papinha toda feita. Quero ter trabalho, preciso que o autor seja exigente consigo, enquanto criador, para que os seus leitores também sejam exigentes. Quero pensar, imaginar e sonhar.
    Bernardo Santos

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    1. Plenamente de acordo.
      Mas talvez a adesão aos novos "livros" seja uma questão de idade e hábito.
      Talvez os novos escritores já consigam escrever para os e-book.
      Tenho vários livros que fui baixando de bibliotecas públicas que os têm disponíveis. Mas nem no monitor grande do computador os consigo ler.
      Falta sempre o peso e o cheiro do livro.

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  7. Li recentemente no Kindle um extenso romance que já aguardo há muitos anos de um dos meus autores favoritos. Ao chegar ao fim da leitura, a sensação com que fico é que terei que reler de novo em papel. Será falta de hábito a motivar esta releitura? Não me parece. Simplesmente o grau de concentração de uma leitura num e-reader não é o mesmo que num livro físico, e isso talvez se explique pelo facto de digerirmos imensa informação diária digital pela Internet que nos obriga a uma leitura rápida de modo a conseguirmos assimilar o excesso de informação. Não é à toa que muitas vezes sentimos a necessidade de imprimir em papel (se tivermos a possibilidade disso) para lermos melhor um texto importante. Penso que é um factor pouco referido ou subestimado nesta questão da tecnologia vs papel, mas o grau de concentração entre um e outro constitui (pelo menos para mim) uma experiência vastamente diferente.

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  8. "Concentração", era essa a palavra que eu estava procurando para justificar essa mesma impressão que tenho dos livros em relação ao e-book !
    :- )
    Quanto ao Al Gore, espero que esse livro seja mais honesto - intelectualmente honesto - do que aquele malfadado documentário que o elevou a guru da baixa academia.
    :- /

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  9. como os novos autores podem enviar os textos a leya

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  10. Cara Maria do Rosário,

    Este comentário não está relacionado com o tomar partido na discussão ebook vs papel. E não é feito com qualquer intenção subterrânea. Apenas deseja realçar o papel do formato ebook/manual multimédia nas edições escolares e sugere que, quando tiver um momento - não é fácil, suponho -, observe alguns manuais multimédia que as chancelas «escolares» da Leya (Texto... Asa... etc) apresentaram ao mercado para o próximo ano letivo (AO...).
    Tudo de bom para si.

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