O marketing e a literatura
Vivemos num tempo em que as técnicas para fazer vender seja o que for são essenciais ao sucesso de qualquer marca ou produto. E não minto se disser que às vezes me ponho a pensar que, com capacidade inventiva e dinheiro, podemos realmente vender tudo o que quisermos e a toda a gente. Em relação aos livros, há, de resto, o exemplo de uma campanha exemplar, que deu frutos claros e pôs o autor nos píncaros (ou, melhor, nos Top). Falo de Bolaño e do êxito de vendas dos seus romances em Portugal, mesmo tendo em conta que o facto de o escritor ter morrido prematuramente constituiu um escândalo a que o público um pouco mórbido não foi completamente imune. No entanto, quando li Os Detectives Selvagens, não podia adivinhar que a obra deste autor se tornaria uma autêntica marca de sucesso. Achei que se tratava de um livro para leitores já rodados, com uma cultura literária respeitável e experiência suficiente para acompanhar uma obra requintada mas densa, na qual até o humor é incomum e encontrei (perdoem-me a sinceridade) algumas páginas bem aborrecidas. E, pelos vistos, a campanha foi tão bem pensada e posta em prática à saída do monumental 2666 que atraiu um número de leitores impensável, leitores que fizeram de Bolaño um verdadeiro autor de culto também em Portugal. Às vezes, há que tirar o chapéu aos marketeers...
são quase sempre bem sucedidos, Rosário, até quando promovem "lixo" (que não é o caso de Bolaño, claro).
ResponderEliminarOs marketeers são sem dúvida uma espécie de mágicos da nossa era. Fazem-nos acreditar que precisamos/gostamos de coisas que poderiamos muito bem passar sem elas.
ResponderEliminarNo caso dos livros pode muito bem ser uma coisa boa. Haverá (bons) autores que de outra forma passariam completamente despercebidos...outros talvez sejam beneficiados... mas ninguém diz que o mundo é justo:)
Venda de livros e leitura dos mesmos são uma e a mesma coisa?
ResponderEliminarSenti-me tão enganada com este autor, a sério! Li o Terceiro Reich e depois o 2666 e não percebi "lhufas" nem de um nem de outro, até hoje continuo sem saber que raio é que o senhor nos queria dizer.
ResponderEliminarCorrijo: Compra de livros e leitura dos mesmos são uma e a mesma coisa? Creio que é o Umberto Eco, na excelente entrevista que Carlos Vaz Marques lhe fez para a revista Ler, fala no assunto com o desassombro e a inteligência que lhe são habituais.
ResponderEliminarEntão, quer melhor que o Paulo Coelho???
ResponderEliminarDava um estudo de caso sobre marketing bem interessante tentar perceber como é que se vende um autor como ele em todo o mundo.
Vendas não são necessariamente factor de qualidade bem sabemos, mas o contrário também não é verdadeiro.
~CC~
Bolaño é um autor de caracteristicas narrativas invulgar e genial. No entanto, o extenso 2666 tem várias passagens alongadas demais e narrativamente divagatórias mas não deixa de ser um produto literário que vicia: não sabendo bem aonde o autor nos leva e de que fala, ficamos embriagados com o seu poder de descrever e dar vida à sua prosa. É um prodígio de saber escrever. Um caso em que o Marketing tem alguma coisa a ver com o produto que promove.
ResponderEliminarBelo blogue, Maria Rosário Pedreira. É também um saudável vicío.
Atenciosamente,
Carlos Teixeira Luis.
Li A valsa dos detectives, gostei qb. Acho que aquelas 500 páginas se poderiam reduzir a duzentas,há mesmo passagens chatas. Mas a campanha torna-o incontornável, o mesmmo com o roth.tem toda a razão com dinheiro podemos vender tudo a todos.
ResponderEliminarEu fui uma das leitoras a que o mkt atingiu. Li apenas o "terceiro reich " e o meu pensamento foi: " tanta coisa para isto???". Talvez precise de um pouco mais de experiência para ler e apreciar. Talvez tivesse demasiadas expectativas. A verdade é o livro (principalmente o final" ficou muito aquém do que esperava.
ResponderEliminarÉ! Tempos estranhos estes! Quais ovelhas preguiçosas, assim a maioria de nós; de contrário, não seríamos tão “levemente levados”...
ResponderEliminarMarketeiro é aquele que te convence a comprar uma embalagem alegando que o vazio interior já está incluído no preço.
ResponderEliminar:- )
E Saramago não é isso? Um produto do Zeferino Coelho, dando cumprimento à mais antiga sabedoria de agit-prop (a designação do marketing militante)?
ResponderEliminarLi o Bolano e gostei bastante. É certo que não há por lá cheirinho a metáfora e, provavelmente, se não fosse a publicidade e um blog que também costumo visitar, nunca o teria comprado.
ResponderEliminarMas gosto daquele tipo de escrita, como dizer, seca, sem floreados.
Ao ler 2666 estava sempre a imaginar as paisagens desérticas do México. Aqueles ambientes secos e transpirantes de Juan Rulfo.
Foi um prazer lê-lo. Se voltarei para reler? Provavelmente não, ao contrário de José Luís Borges que frequentemente releio.
A literatura, muitas vezes, só consegue ultrapassar barreiras se o marketing ajudar a divulgar os bons escritores. Aproveito este post para divulgar o blogue “diasdesiguais.blogspot.com”, pois a poesia com que o autor brinda o leitor ultrapassa o imaginável…
ResponderEliminarah! mas eu li o 2666 até ao fim! teimosa que sou e porque queria desesperadamente perceber o que o Sr. Bolaño me queria contar. No final o que me ficou foi uma frase parecida com "em 1941 a europa não estava para bolos". Se calhar devia ter lido original.
ResponderEliminarOs autores prematuramente desaparecidos (tanto melhor se tiver sido de forma trágica) com grandes tijolos no fundo da gaveta têm sido um maná. Veja-se o Bolaño e o Larsson. Caí na esparela de ambos: Os Detectives Selvagens a meio, dois terços vá, talvez um dia lhe volte a pegar, e do Millennium, bastou-me o primeiro volume. Mea Culpa. Terei mais cuidado com a próxima revelação de um autor genial, desaparecido prematuramente :)
ResponderEliminarEste seu comentário tem alguma relação com uma reflexão minha. Como não tenho o hábito de comentar textos de blogues, irei directo ao assunto: julgo que há significativa diferença entre os casos em que o marketing tomou conta do negócio e os casos em que o marketing é um instrumento do editor. Não?
ResponderEliminar"êxito de vendas dos seus romances em Portugal" Ai sim? Qual deles, além do 2666, teve sucesso de vendas? Tem números que substanciem essa afirmação, ou ela não passa também de "marquetingue"?
ResponderEliminarLiteratura subversiva na Turquia
ResponderEliminarWilliam S. Burroughs, se fosse vivo, ficaria satisfeitíssimo: o seu livro de 1961, “The Soft Machine”, foi mais uma vez proibido. Não que Burroughs fosse a favor da censura, com certeza; antes pelo contrário, grande parte da sua obra acusa a civilização ocidental de ser censória, não só abertamente mas também pela pressão económica e outras formas mais subtis. No entanto, “The Soft Machine” não é um livro cuja subversão do conteúdo salte logo à vista; perturba mais na forma, através de uma escrita cheia de entrelinhas e referencias obscuras que o leitor normal achará bastante chata. Por outras palavras, é uma obra para intelectuais que não representa qualquer perigo imediato para a estabilidade de uma sociedade burguesa medianamente policiada. O mais perigoso de Burroughs é a personagem que ele inventou para si próprio, não os seus livros.
Então, “The Soft Machine” acaba de ser proibido na Turquia, um país que há cem anos, mas principalmente nos últimos vinte, procura desesperadamente ser ocidental e “civilizado”. E foi proibido por uma repartição dificilmente imaginável num pais ocidental e civilizado: O Conselho do Primeiro Ministro para a Protecção de Menores de Publicações Explícitas.
Porque é que um livro para adultos, e ainda por cima para um grupo restrito de adultos cultos que se interessam por literatura experimental, foi parar a este Conselho, ninguém sabe; provavelmente terá sido uma denúncia. O facto é que os conselheiros o acharam perigoso, “desconforme com as normas morais” e susceptível de “magoar os sentimentos morais das pessoas”. Além disso acusam a obra de “falta de unidade no tema”, “em desacordo com uma unidade narrativa”, com “utilização de calão e termos coloquiais” e, pior, “a aplicação de um estilo de narrativa fragmentado.” Finalmente a obra de Burroughs “contem interpretações que não são nem pessoais nem subjectivas, retiradas de exemplos de estilos de vida de figuras históricas e mitológicas”.
Mas o que interessa não será, com certeza, o disparate desta interpretação de “The Soft Machine”, que ainda consegue ser mais marada do que o próprio livro. O que interessa é que ainda existam países que se preocupem em censurar obras que, pela sua própria natureza, pouca subversão possam causar, só porque não estão de acordo com a doutrina estabelecida, tanto para o conteúdo como para a forma.
Realmente, a Turquia ainda tem de andar muito até poder entrar na União Europeia. Pelo andar da carruagem, quando puder aderir já uma grande quantidade de países terá saído – por razões completamente diferentes