Uma invenção dos anjos

Recentemente, fui à Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte da Caparica, participar num debate sobre o suposto fim dos livros em papel e a emergência dos e-books. Antes do início, a gentilíssima bibliotecária fez-nos uma visita guiada pelo edifício, terminado há poucos anos e com condições extraordinárias para ler e trabalhar, quer individualmente, quer em grupo – uma vez que dispõe de vários gabinetes que podem ser reservados e ocupados por um máximo de seis alunos que preparem a mesma matéria para exames ou trabalhos colectivos. A forma como o arquitecto estudou a luz é também francamente inteligente, com janelas rasgadas e boas vistas que, em dias mais limpos, permitem um cheirinho de Lisboa. Mas o «supremo encanto da merenda», como diria Cesário, é uma invenção deliciosa, um lugar onde os estudantes podem sentar-se em sofás e ficar para ali a pensar, sem fazer mais nada. O nome do espaço? Adequadíssimo: Preguiçómetro. Era bom que todos tivéssemos uma coisa destas no local de trabalho para aliviar o stress de vez em quando...

Comentários

  1. Que saudades me deu este texto!!! As horas infinitas que eu passei nos silêncios da biblioteca da Senate House, sózinha com as minhas pilhas de livros, enfiada nos cantos pardacentos ao fundo de corredores forrados a linóleo azul gasto de passos. Ou as horas de trabalhos na biblioteca em Eichstätt na luminosidade verde do relvado que nunca mais acabava e os bancos de pinho cor de palha que pareciam amarelos em dias da luz forte do sol bávaro. E sim... os tampos largos da sala de leitura da BN de Lisboa...
    Saudades ao ler o texto e a constatação de que, neste momento, nada me chama numa biblioteca, nem talvez mesmo um "preguiçómetro". O que é a vida...

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  2. O direito `a preguiça esta´(ha muito) inscrito no texto constitucional. Integra a rubrica dos "DESC", direitos economicos, sociais e culturais. Na verdade, e´ um dos direitos de maior (pasme-se a pequena contradiçao) exercicio: os estados do Estado e do Pais assim o demonstram.
    Quanto ao preguiçometro nos locais de trabalho tem tambem previsao legal no Codigo do Trabalho e corresponde `a insusceptibilidade de despedir por mau desempenho de tarefas profissionais remuneradas.
    Pronto. Ponto final, paragrafo. Terminei a provocaçao de hoje.

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  3. Há provocações que vão além das chamadas «provocações saudáveis», aquelas que «aumentam o olhar» das afirmações iniciais, que acrescentam algo de novo, seja de forma irónica, jocosa ou outra.
    Outras há que, pervertendo a ideia inicial (pois mudam de registo), não só nada acrescentam como se tornam mesmo supérfluas ou gratuitas.
    A M. R. Pedreira referia-se aos trabalhadores que necessitam de ócio, pois o ócio é essencial ao equilíbrio emocional que o stresse normalmente destrói, não aos «trabalhadores-preguiçosos» portugueses, protegidos pelas leis, os tais que «preguiçam» cá (apesar de terem as maiores cargas horárias de trabalho) e trabalham/produzem exemplarmente como emigrantes, ou trabalham/produzem exemplarmente mesmo cá em certos casos em que a organização do trabalho é exemplar (a Auto-Europa é a fábrica mais produtiva do grupo).
    E os estados do Estado não devem estar assim tão mal, senão, as elites executivas portuguesas não estavam tão bem colocadas no ranking internacional das remunerações; e as elites financeiras não conseguiam ser tão criativas na «invenção» de produtos tóxicos que muito ajudaram ao estado do Estado (leia-se BPN e BPP).
    Há tiros que bem podiam não ser disparados, pois quando a pólvora é seca acabam por furar os pés do caçador.

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    1. Olha, olha, afinal vivemos no Paraiso. E eu nao o sabia.
      Muito obrigado pelo esclarecimento. E nao tinha conseguido entender a MRP, e´ sofisticaçao a mais para o meu parco entendimento. Que bom haver sempre uma alma generosa que nos esclarece.
      Tambem viu o filme do Carreira, foi?
      Com tanta excelencia nao consigo, de facto, perceber a realidade.

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  4. Sinceramente o maior desafio da humanidade chama-se estar confortável, onde a própria condição do saber é a posição racional mais confortável. Porém, em modesta opinião, esta inquietude é inversamente proporcional ao conforto e bem estar, pois quando o corpo acomoda-se, restará justamente romper com a preguiça que instalara-se ao racional.
    Um ambiente humanizado requer maior compromisso.

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  5. Gostei da ideia/imagem do preguiçómetro.

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  6. António Luiz Pacheco25 de maio de 2011 às 08:05

    De facto gostei da idéia do preguiçómetro e do post em si.

    Creio que não há nada para ter idéias como duas situações opostas próprias do ser humano:
    - A necessidade aguça o engenho... diz o adágio e é verdade! Quando estamos aflitos surgem muitas vezes idéias geniais! Mas sobretudo do improviso. Julgo que quem muito trabuca tem pouco tempo para pensar, e quando descansa está demasiado fatigado para isso!
    - O "dolce fare niente " é muito mais produtivo, em termos de pensamento. Repare-se que a sociedade evoluiu à medida que com a crescente segurança em ter alimento, foi havendo mais tempo ou oportunidade para pensar em melhorar processos.

    O preguiçómetro é tão útil como as sestas...

    Sobre o maior desafio da humanidade... creio que é e será sempre a tolerância! Ser capaz de conviver com idéias diferentes, e, aceitar que outros pensem diferente sem tentar impôr as de cada um... diria que foi o maior flagelo do século XX e continua, e o pior é pensar que os maiores crimes que homens cometeram contra outros homens, foi em nome de ideais e pela não aceitação de que outros pensassem diferente.

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    1. Ante muitos, respeito e aprecio sua opinião Sr. António Luiz Pacheco

      Certamente que nada mais confortável que ser tolerante, mas, em quanto esta necessidade tem implicado com sabedoria... Ao que tem sido um desafio ou uma conseqüência da evolução humana?

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    2. António Luiz Pacheco25 de maio de 2011 às 10:48

      Minha Cara Amiga

      Creio que a tolerância e o viver num Mundo de opiniões diversas, entendendo como a maior maravilha da humanidade precisamente essa diversidade que nos dá uma grande riqueza, é fruto precisamente dessa evolução e do saber que lhe está adstrito.

      Penso que só os grande homens, evoluídos e num verdadeiro estágio superior de saber e do entendimento podem ter essa postura e ser disso capazes - claro que quando digo "homem" refiro a humanidade sem distinção de sexo que pode até ser indefinido...

      E, creio que esse saber e evolução só podem ser atingidos "preguiçando"... ou seja porque conseguem alcançar de um ou outro modo, um estado em que não precisam do que os comuns mortais necessitam e se afadigam para obter.
      Isto é, trabalhar árduamente por exemplo para sustentar família ou ambição...

      Não sei se consegui ser claro? Se não o fui é por culpa minha e terá de me desculpar as limitações, mas creia nos meus bons propósitos.

      Aceite-me com estima e consideração, pois já vi que se trata de uma Senhora de grande erudição.

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    3. Como disse e reafirmo, aprecio de todo vossa explicação e para tanto, inclusive refleti e creio que é apenas de minha reistência à palavra preguiça, por tratar-se de uma seqüela cultural.
      Contudo, vossa exposição é bem acertada!

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  7. Inacreditável como poucas letras me retomou muitas coisinhas. Um livro do Cardoso Pires, foi exatamente isso, essa Lisboa enlivrada , esse lugar que ainda não pisei, mas acredito que, cada imagem, já está presa na minha cabeça. Assim, Lisboa segue seu curso.

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  8. A biblioteca central da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC ), onde estudei e fui professor, goza de um espaço com a mesma função, o verdadeiro paraíso dos preguiçosos. E vive lotado.
    :- )

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  9. Diz-se que a filosofia é filha do ócio. Penso que é necessário acrescentar a diferença. Mas sem um bom sofá, como meditar sobre a diferença?
    E como é também importante a luz, que MRP referiu, mas que, talvez por distracção, ninguém comentou. Porque a luz pode confortar-nos ou incomodar-nos.

    Do que todos estamos a precisar é mesmo de um espaço para preguiçarmos. Se não preguiçarmos, como nos poderemos encontrar connosco mesmos?

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  10. António Luiz Pacheco25 de maio de 2011 às 14:36

    Entendo perfeitamente o "anticorpo" da dúvida revelado pela nossa Cláudia, sobre a aludida
    "preguiça", e que afinal João Raposo vem substituir e clarificar, como sendo ócio!
    É isso mesmo... não se confunda a preguiça útil do pensador com a do relapso a qualquer tipo de esforço... o inútil!
    O ócio reflecte exactamente o que aqui falamos, como instantes de inacção que podem produzir pensamentos!

    Interessantíssima este discorrer à conversa e afinal as conclusões... o que era a idade do ouro?

    Cumprimentos a todos!

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  11. Sempre frequentei bibliotecas. Até porque não tinha acesso a livros de outra maneira. Biblioteca itinerante da Gulbenkian, bibliotecas das escolas (muitas vezes para estudar enquanto esperava pela hora do regresso a casa no autocarro), bibliotecas municipais (da Guarda, de Coimbra, de Aveiro, de Oeiras), bibliotecas universitárias (de Coimbra, de Aveiro - linda, de Lisboa) e agrada-me saber que esses espaços têm sido renovados e repensados também na sua função. Porque, convenhamos, não costumam ser muito concorridos...
    Quanto ao preguiçómetro, não deveria chamar-se preguiçório? Ou será que cronometram o tempo que cada um por lá fica?
    Tenho um amigo brasileiro que tem uma rede no gabinete (minúsculo). A seguir ao almoço estende a rede e dorme uma pequena sesta. E não é o único por lá (Universidade Federal da Bahia - Salvador). Os nossos vizinhos espanhóis aqui ao lado, não têm qualquer pudor em admitir oficialmente a sesta!
    Um bom descanso pode ajudar a trabalhar mais e melhor a seguir. A minha «sesta» é muitas vezes visitar este blog...

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