Capas enganadoras
Há uns anos, quando estava a trabalhar numa editora que precisava mesmo de somar vendas para subsistir, pusemos num livro de literatura (mas que podia ser lido por toda a gente) uma dessas capas cheias de flores, que geralmente apelam a um público mais dado à ficção romântica e comercial. A coisa resultou, porque os clientes (livreiros) dão demasiada importância às capas e, na altura, os hipermercados apostaram em grande. Não sei, porém, se o livro chegou ao seu público-alvo, que se calhar aquela capa florida afastou… Passa-se agora a mesma coisa com um livro intitulado Villa Amalia, que comprei recentemente, do francês Pascal Quignard; sendo francamente literário, tem a capa típica daqueles livros americanos muito leves passados com ricaças com casas na Provença ou em Itália. Confesso que fiquei um bocado arrepiada quando vi aquilo, mas, como estou no ramo, comprei-o na mesma e estou a lê-lo. Quignard vale sempre a pena, mesmo florido.
As capas sempre me interessaram imenso. Por vezes, entro numa livraria, só para mirar capas, títulos e autores. Bom, durante, praticamente, duas décadas imprimi ou ajudei na impressão de capas e miolos de de livros e de revistas, até de jornais. Há alguns anos atrás, a Editorial Caminho deu em mandar imprimir livros, colecções belíssimas e valorosas , em papel JA (papel de jornal). Num primeiro contacto, fiquei desapontado, dado que gosto de ter os meus livros e visitá-los, de vez enquando, mesmo depois de lidos, no entanto, as capas salvaram-se do JA , continuando, geralmente, em selecção de cor ou a duas cores com um fundo arejado: as capas dos livros da Caminho eram bem pensadas e, esteticamente, muito bem conseguidas. Lembro-me da colecção Universitária e, sobretudo, das obras reeditadas de Manuel da Fonseca: apenas a uma cor, mas aquele sobreirinho alentejano de Santiago do Cacém... Actualmente, ando triste com os artistas ou com as editoras porque já não apresentam criatividade: é tudo igual, sem graça, tudo macacada, as capas dos livros estão como o país, sem beleza, então agora com essa história do FMI...
ResponderEliminarEu tinha pensado em não o comprar por causa da capa...
ResponderEliminarPois é, Maria do Rosário, cá se fazem, cá se pagam...
ResponderEliminarConfesso que fujo de certas capas... Lembro-me que tinha uma colega da Faculdade que forrava essas capas com um papel de embrulho que gostasse. Lembro-me de um livro com poesia de Antero de Quental (acho que era Antero de Quental) que tinha uma capa horrorosa e dela o ter forrado com um papel muito bonito :D
ResponderEliminarCom frequência compro livros que já tenho, mas com outra capa. O relacionamento íntimo com os livros faz-nos ter estes desvarios. O meu filho, com 16 anos, diz-me que isto é como as miúdas que têm Barbies e gostam de lhes comprar roupa variada. Rimo-nos ambos.
ResponderEliminarA capa do objecto livro é uma parte importante que pode ser motivo de nova aquisição, mesmo que o conteúdo se repita na estante.
Uma característica das capas de hoje é fazerem muito recurso à imagem do autor. Dessa forma há uma identificação física, há uma cara, uma ‘humanidade’ por trás ou por baixo daquele conjunto de letras com um título. Há um processo de reconhecimento público que agrada ao leitor, mesmo que ele nem se dê conta. Há autores que têm fotografias oficiais que constam nos seus livros, como Perez-Reverte, e outros vão mudando a imagem e a posição, na maior parte ditados por desígnios comerciais da editora. Por outro lado, a imagem do autor na capa também é uma afirmação dele mesmo, numa altura em que as edições nascem como cogumelos em todo o mundo, e desta forma ‘credibiliza-se’ aquele nome, quase como se a fotografia fosse uma assinatura, pessoal e intransmissível, uma prova de confiança para com o leitor, como se o autor também estivesse em pessoa, ali, nas nossas mãos.
Mas se há livros que merecem viver connosco com roupagens diferentes, também há autores que procuramos mesmo que estejam nus ou ‘vestidos’ de forma embaraçosa.
"Mas se há livros que merecem viver connosco com roupagens diferentes, também há autores que procuramos mesmo que estejam nus ou ‘vestidos’ de forma embaraçosa." (Sic Areia)
EliminarExcelente!
Acho que a capa se tornou e creio que bem, numa outra vertente do merchandising do livro.
Se também pode ser arte, a completar o que foi escrito, porém não se compra um quadro pela moldura e nem um livro pela capa! Penso eu...
Mas acredito que a capa deve ser aquilo que possa ser como que uma afirmação do livro, uma atitude desde logo, do autor. Que pode servir para mostrar o que se pretende? Será?
Isto sou eu a divagar... afinal os olhos comem primeiro, como se diz no merchandising . E era capaz de dizer que olhando aos segmentos literários, parece que se nota haver uma preocupação com as capas tanto mais quanto estes parecem ser destinados a públicos com tipos de leitura mais específicos e menos exigentes. Diria eu...
Para além das capas floridas há ainda que aguentar edições cuja capa tem uma determinada cena do filme recente cujo argumento foi baseado no livro... como se o livro não pudesse existir enquanto tal, desligado do filme!
ResponderEliminarJá ouvi dizer a pessoas da área do marketing editorial que esta estratégia tem como objectivo os leitores "associarem mais rapidamente o livro ao filme que já viram". Pois eu digo que me afasto a sete pés de tais edições.
Por vezes, quando sei que vai ser lançado em breve um destes filmes baseado num livro que ando a "namorar", corro desalmadamente para uma livraria na esperança de conseguir ainda um exemplar convenientemente "desassociado" do filme...
Sim, a capa faz parte do processo editorial e em muitos casos valorizam a obra, tal como as capas de discos; agora, o que deve aumentar as vendas é aquela tarjinha vermelha com a inscrição "vencedor do prêmio tal", não?
ResponderEliminar:- )
Sempre que vejo uma capa assim tão florida afasto-me, mas já estive a pesquisar, até porque nunca li nada do autor. Fiquei curiosa. Talvez compre :)
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