Criancices
Há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida. Quando vejo o Manel a ver um desafio de futebol, dando às vezes pontapés no ar e dizendo coisas sobre os adversários que ainda parecem insultos do tempo da escola, descubro nele esse lado de criança. O meu está em coisas, se calhar, não tão bonitas – como, por exemplo, não resistir a pôr nas livrarias os livros que publiquei por cima de outros quando acho que estão escondidos ou mal expostos. E os que tapo com eles são quase sempre de autores de que não gosto ou acho que ninguém ganha em ler… Mea culpa. Mas não sou só eu que escondo livros. Há umas semanas, numa livraria do Algarve, andei a ver se os livros que publiquei este ano estavam à vista e, de um deles, não havia sinais. Fingi-me então uma cliente e perguntei se o tinham. O senhor lembrava-se perfeitamente do título e andou a vasculhar a loja, acabando por encontrar três exemplares… mas dentro de uma gaveta! É por essas e por outras que sinto que as minhas malandrices estão mais do que perdoadas.
Boa!!!Ainda por cima divertida. Cristina
ResponderEliminarSe estamos numa de confissões, eu junto as criancices dos dois protagonistas do post. Sou uma espécie de dois em um :)
ResponderEliminarSempre que vou a uma livraria e encontro livros sobre clubes de football que os funcionários teimam em colocar lado a lado, em igualdade de circunstâncias, e abandono o local com o sentimento do dever cumprido, já que nas prateleiras, só deixo visíveis os livros que tenham o Glorioso Benfica na capa :)
Nem sequer tenho a desculpa de ter sido eu a escrevê-los :)
Um grave problema é que a generalidade dos funcionários das livrarias não sabe que vende livros. A maior parte pensa (quando pensa) que são uns objectos como quaisquer outros que até poderiam estar ali na feira (da ladra).
ResponderEliminarA maior parte não conhece autores, não conhece titulos, não conhece nada que não esteja no computador e mesmo assim é necessário soletrar.
Vivo há quase trinta anos no Porto. Mas antes vivia em Lisboa e era rara a semana em que não passava pela Parceria ou pela Bertrand, onde trabalhava uma pessoa conhecida e com quem mantinha uma boa relação. Conhecia qualquer livro de que lhe falasse e sabia imediatamente onde estava, fosse autor novo ou velho, prosa ou poesia. Qualquer assunto. Em 2006, estive quase o ano todo a trabalhar em Lisboa e foi confrangedor ver o estado geral de ignorância. Na Bertrand do Chiado (o meu conhecido já lá não trabalhava e ninguém se lembrava dele) entrei e perguntei pelo terceiro livro de poesia de MRP. Quem? Quem? como é que se escreve?
Já agora, a secção de poesia era miserável. Até a minha tinha mais livros, e não tenho assim tantos de poesia.
No meio destas salvava-se uma livraria na Av. de Roma, que agora não recordo o nome, mas creio ser onde foi feita a apresentação do livro de Paulo Nogueira. Pelo menos os funcionários, vários, sabiam responder pelos livros que lhes perguntava.
Perante o estado geral, como alguém dizia, de bovinidade, porque não fornecer alguma luz?
Todas as profissões, todos os trabalhos, todas as actividades têm as suas ovelhas negras, sendo que a actividade de livreira não é excepção.
EliminarComecei a trabalhar, ainda na faculdade, como livreira e quis o destino que assim continuasse, com algumas intermitências pelo meio. Aprendi muito com muitos e bons livreiros a amar , a respeitar ,a ler, a cuidar, a promover o livro....eu e muitos com quem tive o prazer de trabalhar.
Peço-lhe que não tome a parte pelo todo.
Há uns tempos resolvi colmatar uma falta indesculpável nas minhas leituras e fui procurar "Pedro Páramo" de Juan Rulfo. Entrei na Leitura do Bom Sucesso (Porto) e perguntei ao funcionário (acho que seria mais correcto chamar-lhe livreiro, ou não?) se tinha o livro. Surpreendentemente (só pelos exemplos que tenho tido nos últimos anos), sem consultar o computador, respondeu-me de imediato que não, mas que tinha uma antologia do Juan Rulfo que incluia o Pedro Páramo. Foi ao local e trouxe-me o livro. Poderia ser coincidência e ter mexido recentemente no livro, mas uma ou duas semanas depois voltei lá por um outro e novamente limitou-se a ir à prateleira e a trazer-mo. Claro esta que esta passou a ser a minha livraria, apesar de não ter os descontos da FNAC.
EliminarMas, como diz, não se pode julgar a parte pelo todo e aconteceu-me na FNAC encontrar um jovem dos seus vinte anos a quem perguntei por um livro e que imediatamente me sugeriu dois ou três que tratariam melhor o assunto em questão.
Infelizmente, estas são as excepções e se a ignorância e indiferença não são o todo, são a generalidade.
De qualquer modo, apesar de mentalmente fazer quase uma aposta comigo mesmo sobre o sabe, não sabe, continuo sempre com esperanças de que saiba e não precise do computador.
Só para finalizar, na Bertrand não foi só a um funcionário que perguntei, mas a três e nenhum conhecia Maria do Rosário Pedreira nem nas prateleiras de poesia havia qualquer livro seu.
Recentemente na FNAC Colombo fui atendida por um funcionário (na casa dos quarenta) absolutamente fora de série. Não lhe fixei o nome afixado na lapela mas se o vir lá, reconheço-o. Não só tinha lido os vários livros (no caso, romances históricos) sobre os quais lhe pedi opinião como discursou sobre literatura e história com grande prazer e, diga-se, pouca vontade de vender...
EliminarEstes cuidados de Maria do Rosário nas livrarias confirmam aquilo que, já em 1598, António Ferreira nos advertia (o que eu, ontem, referi na minha modesta homenagem ao aniversário do blogue):
ResponderEliminar“Os livros são obras humanas sujeitas sempre ao tempo: uma vez vindos à luz, com a novidade aprazem – mas logo em duro ódio e desprezo ficam.
Mas Maria do Rosário, que dá à luz os livros, logo depois os move, defendendo-os da lei do tempo e dos seus danos.”
Cumprimenta,
Joaquim Jordão, Amarante
Engraçado... Pensava que mais ninguém tinha o defeito de tapar capas, sobrepondo outras, nas livrarias. Tenho essa mania que tentei corrigir, mas não resisto quando deparo com umas estrangeiradas sobre autores bons ou então umas coisas das vedetas da TV ou uns pimbas da literatura, em destaque, tapando outros que julgo merecerem divulgação. Quanto ao benfica , isso é que não perdoou : escondo sempre - não gosto deles em parte nenhuma, até se jogarem com Israel (hediondo e desprezível ) torso pela derrota do Benfica ...
ResponderEliminarOh Luis! Primeiro os Portugueses, com estrangeiros devemos torcer pelos Portugueses não importa o clube.
EliminarEheheh ! Estão-se aqui a descobrir umas quantas carecas! Olá se estão...
ResponderEliminarCostumo dizer que o que vale a pena em ser criança é ter sonhos e o que vale a pena em ser adulto é realizá-los! E manter certas coisas de criança, acho que é saudável e profundamente humano... não creio que venha mal ao Mundo por se trocarem os livros em exposição... seja por causa do SLB ou de não se gostar do autor!
E fica o desafio para quem vier a seguir... se for do FCP ou fã do autor que está em baixo, volta a mudar... o que até constitui um merchandising dinâmico e que os livreiros se calhar agradecem!
Ahahah!
Sobre as prestações dos funcionários... já aqui se falou disso anteriormente e de facto é pena e até lamentável. Um exemplo pessoal: o meu romance Largueza tem escrito na capa que é "a melhor aventura de exploração em que pode embarcar" (não fui eu o autor desta afirmação!).
Ora numa conhecida cadeia de livrarias acharam por bem colocá-lo na secção de literatura de viagem... quando é um romance de aventuras, com base histórica! O resultado é óbvio, e, quem vai à procura dele não o encontra, assim como não está à vista do potencial leitor do género!
Por falta de esclarecimento ou de informação de quem os arrumou... não sei, mas alguma coisa falhou nalgum ponto.
Estamos a começar bem o segundo ano do HE !
Digo eu...
" (...) não resistir a pôr nas livrarias os livros que publiquei por cima de outros quando acho que estão escondidos ou mal expostos. E os que tapo com eles são quase sempre de autores de que não gosto ou acho que ninguém ganha em ler". LOL!!! Eu também!!!
ResponderEliminarExcelente.. Já recomendei este site aos meus amigos. Convido a visitar também www.blogconceito.com
ResponderEliminarOs livros na gaveta, pediram socorro. Acontece.
ResponderEliminarUma criancice muito, muito suave que, como bem diz, está mais do que perdoada. Uma criancice a sério - rejeitar um manuscrito sem usar um filtro no discurso, mas, então, infelizmente, seria entendida como uma cavalgadura sem educação ou, nos piores casos, um débil mental.
ResponderEliminarHá talvez três anos recebi, pelo meu aniversário, um cheque - livro da Bertrand. Decidi que ficava destinado para comprar poesia - um título seu e uma antologia do Almada. Logo que pude deslocar-me ao Porto, passei pela Bertrand do Via Catarina, que desapareceu recentemente, e, depois de muito vasculhar, encontrei os títulos que pretendia, dos quais havia um único exemplar.
ResponderEliminarNo Porto, sempre que procuro poesia, entro na Latina. Além de apostar um pouco mais em poesia, as funcionárias costumam saber onde encontrar o que procuramos, sem auxílio de computador.
Ainda bem que "há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida." Quanto maior for a importância desse lado infantil na nossa vida, mais felizes somos. Já reparou na felicidade que sente quando faz uma criancice?
ResponderEliminarClaro que não estou a dizer que se façam criancices a torto e a direito, temos o lado crescido que toma conta de nós. Mas deixemos o lado infantil imperar, sempre que seja possível (e não prejudiquemos os outros).
Se numa livraria houver só um exemplar do que quero, livros ou CDs, e se estiver indecisa, escondo-os.
ResponderEliminarA propósito de livros, já dei por mim a arrumá-los por ordem alfabética numa livraria no Brasil. Estava tudo desarrumado, é um facto, mas não havia necessidade.
Por falar nisso: pode confirmar os rumores de que o próximo livro infantil de Francisco José Viegas se intitulará "O meu primeiro dia na Assembleia", seguido de outro intitulado "O meu primeiro ministério"? Ilustrações de André Letria, papel couché e texto de acordo com o Acordo.
ResponderEliminarProcuro incansavelmente um jovem(?) autor que encontrei por acaso aqui:
ResponderEliminarhttp://195.23.38.178/catalivros/portal/bo/portal.pl?pag=02n4_ficha_do_livro&janpap_id=19
Uma obra interessantíssima!
Nada!
Encontro sempre uma indiferença e uma falta de respeito alarmantes por aqueles que não "circulam no meio" (foi o termo usado).
Lamento dizer-lhe, mas explicar a prática de crimes propicia a sua duplicação. É essa a culpa que terá de expiar.
ResponderEliminarSe não tivesse livro este post, jamais me teria lembrado de procurar o livro de um amigo, para o colocar por cima de outros, na secção de mais vendidos.
[por acaso é um livro por si editado, mas é só por acaso]