A guerra dos sexos
Um dos recentes posts deste blogue, dedicado às mulheres escritoras, suscitou um número de comentários nunca antes aqui visto. É bom saber que as questões de género estão bastante vivas (em alguns casos, em carne viva) e que há muitos que sobre elas se querem pronunciar – e, felizmente, não só mulheres. Contudo, porque foi muitas vezes referido o «machismo» de quem faz crítica de livros, queria apenas relembrar que o principal crítico que tivemos nos nossos jornais nas últimas décadas – e que foi grandemente responsável pela divulgação e o ulterior sucesso de muitos autores portugueses – nunca deu mais espaço a um escritor do que a uma escritora (era mais fácil o contrário ser verdade) e se mostrou sempre invulgarmente atento a todos os que iam aparecendo, sem qualquer preconceito de idade e género: poetas, romancistas, e até contistas e cronistas que, já se sabe, representam uma minoria à qual às vezes é difícil prestar atenção. Porque me lembrei dele enquanto assimilava os mais de cinquenta comentários dos meus leitores – e tive saudades de o ler, ainda que nem sempre concordasse com as suas ideias –, pensei que podia dedicar-lhe hoje o meu post, chamando-lhe um macho man muito feminista. Precisávamos de outro Eduardo Prado Coelho nos nossos jornais…
Nesses mais de 60 comentários, por acaso, não foi mencionado o facto de que as mulheres talvez não se atrevam tanto como os homens. Apesar de muitas escreverem, não se atrevem a enviar os seus manuscritos a quem os sabe apreciar. O mais curioso é que me lembrei de que, nos meus tempos de liceu, as raparigas escreviam mais do que os rapazes. Muitas vezes, nós, meninas, comparávamos os nossos escritos, poemas e devaneios. Não me lembro de ver rapazes a fazerem isso.
ResponderEliminarE não são as meninas que escrevem diários? Mas onde se encontram elas, agora?
P.S. Estou a preparar um post sobre isso...
Uma vez mais parece-me que a Cristina Torrão, é capaz de estar certa!!!
ResponderEliminarSem dúvida que me recordo de, aparentemente, as raparigas serem muito mais dadas à escrita...
Desde os tempos do liceu, quer como aluno quer depois como professor, recordo que pelo menos naquela que chamarei a idade romântica, muitas das minhas colegas ou alunas escreverem e até me mostrarem poesia ou prosa, quase sempre textos onde punham o que lhes ia na alma e talvez não tivessem voz para o fazer, nas conversas entre amigos ou de grupo, café... onde se falava de outras coisas e não de sentimentos mais profundos.
Talvez por isso, depois ficassem abafados... ou se perdessem quando a vida adulta chegava e com ela as tais responsabilidade de mães e donas de casa...
À mulher, se calhar, não ficava bem expor os seus sentimentos e logo por escrito, porque as palavras leva-as o vento, mas à escrita não.
Arrisco a dizer que havia talvez uma má conotação entre a mulher e a palavra, sobretudo escrita... e digo isto porque cá em casa e desde sempre que me lembro de saraus, teatros e manifestações artísticas diversas, numa casa que era frequentada por muitos artistas ou gente com esse tipo de gosto e actividades... meu avô materno, advogado, foi um orador notável e amante do violoncelo - ficou célebre a sua interpretação para um convidado que alojou quando veio actuar a Santarém e que comentou baixinho "Quel paveur !" . Minha avó materna sobretudo desenhava, tendo deixado muito quadro a carvão. Tive uma tia bisavó que na sua época foi célebre actriz de teatro. Havia tias e tios, amigos da casa que eram artistas amadores ou profissionais... um primo nosso cantava ópera como amador, minha mãe foi violinista. Lembro-me desses serões onde se representava, declamava e tocava sobretudo... e se pintava havendo desenhos ou quadros de temas aqui da quinta ou mesmo pessoas assinados por nomes conhecidos. A minha irmã mais velha estudou desenho... eu mesmo não me ajeito nada mal a ilustrar com desenhos alguns artigos técnicos, que já fui encontrar em sites brasileiros... e passei a assinar! MAS de facto escrita, não era coisa a que as senhoras se dedicassem! Embora literatura fosse também tema de tertúlias ou debates que recordo com alguma saudade.
Minha mãe quando morreu, deixou um caderno manuscrito com poesia... e uma tia por afinidade (a Joana, viúva do tio Major) hoje com uns 90 e tal anos também já me mostrou os seus versos apontados num caderno. Mas de facto nunca se pensou em publicar ou sequer divulgar... e continuo a pensar que por acharem que não lhes ficasse bem, fruto de uma época.
Talvez isso se tenha feito sentir pelo tempo fora, e ainda haja pudor entre as senhoras em se exporem pela escrita... ou em serem polémicas como os críticos. Será? Ainda hoje as mulheres parece que sendo polémicas isso se confunde sempre (ou frequentemente) com escândalo...
Será?
Cumprimentos às Mulheres escritoras (estou a ler O Último Homem Americano, de uma grande autora) e desculpem esta Largueza de post ...
Também faz falta outro Luiz Pacheco, embora aí já não tenha tanto a ver com esta discussão de mulheres escritoras.
ResponderEliminarLa raison, c'est l'intelligence en exercice ; l'imagination c'est l'intelligence en érection.
ResponderEliminarVictor Hugo Faits et croyances
Esta visão masculina responde pela gestão feminina ao amor.
EliminarE se então, que o amor é historicamente padronizado para o universo de anseios apenas pelas visões masculinas mundo a fora?
Fato da capacidade dos homens, amarem ao seu desejo.
E, no outro lado da moeda!
Penso que as mulheres não amam apenas uma idéia de amor –
Elas amam por vínculos de origem ao existir pela concepção, o que bastaria como característica real e não imaginária, portanto em se tratando da verdade e da finalidade do amor enquanto vida ao amo e existo, estendendo-se até o por que existo.
As mulheres ainda não se deram conta de que este lapso é vossa pedra no sapato...
Amicus Plato, sed magis amica veritas
O Platão é amigo, porém a verdade é mais amiga.
Do Por Quê?
EliminarAo homem que falta,
razões de um querer,
da luz que apalpa,
seu íntimo ser.
No horizonte de almas,
que dispersam verdades,
são medos, sem calma,
à confundir as cidades.
Se quem, na fantasia,
a cada instante,
resta um por quê?
Aí, do extrato caminhante,
em que cúpula vazia,
ficaste à mercè? ...
Todos os comentários e idéias acima inclusive poema, foram publicdos no Blog "O que eu andei" do Prof. João Serra.
E que se multiplique a discussão se necessária pela devida importância da causa.
Atenciosamente.
Parabéns pelo blogue.
ResponderEliminarLo sigo con mucho interés dada mi condición de lector vocacional.
Reconozco una cierta tendencia, que se podría considerar machista, en las críticas literarias de muchos críticos varones, pero -en mi opinión- es detectable asimismo una orientación ¿feminista? cuando esa misma crítica literaria se realiza por mujeres. Quizá en algunos casos de manera más acusada, especialmente en esos tiempos que vivimos, con una ideología de género agresiva, tantas veces. No es mi deseo provocar polémica pero sí me gustaría contribuir a construir una visión más completa de un asunto tan complejo y que suscita tanta pasión. Quizá esas querencias no formen sino parte de la condición humana.
Peco desculpa por não escrever em português, mas o meu conhecimento da língua é ainda limitado. Mais, o teclado do meu computador não suporta alguns dos caracteres portugueses.
Nao ha´ questoes de genero na literatura. Ha´ talento ou nao ha´ talento. Onde se quer chegar? Que as mulheres escritoras o nao sao porque devem mudar fraldas e ferver biberons? (A proposito: sou pai de 4 filhos e tambem o fiz, nem e´ motivo de lisonja, nem de vergonha, nem de nada: e´ simplesmente um acto banal).
ResponderEliminarE Sophia (de que nao gosto particularmente), nao foi mae de nao sei quantos filhos? E Yourcenar, nao era lesbica? E Wolf, tambem e mais-ou-menos? E Agustina, uma senhora casada e mae? E Cecilia Meireles, que era? E Clarice Lispector? E (que sei eu, que felizmente ha muitas e muito boas), Angela Carter, e Alice Munro (fantastica), e Fiama (prefiro a Sophia, sao gostos), e Silvia Plath (que prefiro `as anteriores), e Iris Murdoch (extraordinaria!!!), e Nadine Gordimer, e tutti quanti, e um rol infinito de infinito talento, que felizmente enriquecem o mundo e o mundo dos leitores - eu grato me declaro e confesso -, e a que conclusao se chega, sim, a que conclusao? A nenhuma e´ claro, rigorosamente a nenhuma.
Questoes de genero na literatura? E quando se acaba com "a politicamente correcta"? E com o culto (snob, vaidoso e amediocrado - oh!, eu sei que nao existe) das falsas questoes?
De Eduardo Prado Coelho recordo o prazer de algumas críticas no Jornal de Letras e no Suplemento do Público, quando o Público ainda tinha suplemento literário. Mas recordo sobretudo um livro notável que os nossos críticos literários, grandes e pequenos, muito ganhariam em ler. Refiro-me obviamente aos "Universos da Crítica".
ResponderEliminaro EPC era um critico especial, preferia fazer criticas sobre o que gostava, o que lhe dava uma aura simpática (e alguns ódios de estimação de quem acahava que o papel do critico não era ser simpático).
ResponderEliminarcomo gostava de mulheres, também escrevia sobre elas.
Concordo. EPC faz falta.
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