Disfarçados de ricos

Com a situação actual, estão a surgir todos os dias novos pobres: além dos que de certa forma já o eram e sofrerão agora mais com os aumentos de tudo, os que perderam o emprego por falência ou estratégia das empresas onde trabalhavam e aqueles que se deixaram iludir pelos bancos e viviam claramente acima das suas possibilidades, não conseguindo agora manter o nível nem, muito provavelmente, pagar tudo aquilo que ainda devem. É sobre este último grupo que, a todos os títulos, vale a pena ler o romance As Viúvas das Quintas-Feiras, de Claudia Piñeiro, uma argentina que foi considerada uma das melhores escritoras da América Latina com menos de 40 anos. Num condomínio de luxo, paredes-meias com um bairro de lata, podemos assistir neste romance à derrocada de um grupo de pretensos ricos, que empenham literalmente a vida pelo sonho de parecer o que não são. Da mesma autora, li também uma novela intitulada Elena Sabe, que não sei se está traduzida em português, sobre a relação de uma mulher com a mãe que sofre da doença de Parkinson e que pode ser o seu melhor livro, mas é de tal forma um soco no estômago que nem me atrevo a aconselhá-lo nos tempos negros que vivemos.

Comentários

  1. Também por cá temos matéria suficiente para vários romances destes (refiro-me ao tema). O que mais por aí encontramos são papás e mamãs que no seu BMW, Mercedes ou Audi ou algo parecido, deixam de manhã os filhos no colégio particular, mas esquecem todos os dias o pequeno almoço, o lanche, etc.
    Enfim, preocupações e esquecimentos. Preocupações com a casa que é demasiado cara e não há dinheiro, com o carro que além de caro tem manutenção, com os passeios de fim de semana, com o empréstimo que se pediu para pagar os empréstimos, etc. Há que manter o estatuto. Com tanta preocupação é natural que algo acabe esquecido, a começar por si mesmos.

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    1. Foi/É precisamente essa mentalidade que criou/cria a "geração à rasca". Deixemos de culpar os jovens e olhemos para o ambiente familiar em que cresceram!

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    2. Presumo que não tenha deduzido do meu comentário, ou de outros escritos por aí, que eu acuso os jovens.
      De modo algum. Mesmo quando "acuso" alguém, costumo apontar factos.
      Podemos sempre relembrar (cito de cor) Brecht e "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".
      Convém é não esquecermos que a água segue sempre para onde a gravidade a puxa e os humanos podem sempre subir, descer, ir para os lados. Podem escolher.

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    3. Não quis acusá-lo de nada, caro João Raposo, só aproveitei a oportunidade, pois concordo que muitas famílias apenas estão preocupadas em manter o estatuto, a qualquer preço. É esse tipo de valores que transmitem aos filhos. E, quando acusamos os jovens de serem preguiçosos e de só quererem roupas de marca, telemóveis e carros, esquecemo-nos de que eles vivem nesse mundo desde que nasceram, não conheceram outro. Claro que está nas suas mãos lutar contra a corrente, ou saltar para a margem, mas nem todos encontram motivação, ou sabem como fazê-lo.

      Mas repito: apenas aproveitei a oportunidade, não me referi a nada que o João Raposo tivesse escrito noutra ocasião.

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  2. O tema faz-me lembrar uma reportagem televisiva que vi na semana passada, salvo erro, visando os condomínios de luxo no Algarve e o abandono a que estão sendo votados, precisamente por causa da crise.

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  3. Cláudia S. Tomazi - Brasil24 de maio de 2011 às 06:35

    Vou caracterizar em dois momentos este comentário.
    Agora pela manhã recebi informações de que muitos portugueses estão chegando na capital catarinense, Florianópolis, e estes, vem suprir as vagas de TI, Tecnologia de Informação. Possivelmete estima-se que embora tenham que adaptar-se, os jovens ou, até quem busca novos desafios, vislumbram oportunidades, não sendo de todo o pior dos casos, em por se tratar até em tornarem-se novos ricos, e pela experiência daqui alguns anos, valorizem seu retorno à Portugal.

    O outro ponto, é que esta característa com relação ao livro, As viúvas das Quintas-feiras, tem tido a empatia espanhola ou, ganhado espaço por também ser de tempos os espanhóis quererem afinar seu violino com a América.

    Discursos a parte, o disfarce caí como luva.

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