Excerto da Quinzena

No início da semana observara as modas atuais e dirigira-me imediatamente a uma loja de vestuário onde, a transpirar, adquirira roupas, as experimentara atrás de cortinas e mergira transformado.


E agora esperou, com os pés largos nos sapatos novos firmemente plantados à sua frente.


– Provavelmente – disse-lhe Phil mais tarde –, provavelmente o problema foi que todos se lembravam do que eu fiz. Provavelmente a culpa não foi tua.


Mas George nunca acreeditou nisso e nunca se esqueceu de ter ficado à espera naquele quarto, um jovem corpulento, com os pés largos plantados à sua frente. Quando o corredor finalmente se silenciou, vestiu o pijama novo e enfiou-se na cama; pela janela aberta ouviu vozes e cantorias. O ar da noite da Califórnia estava pesado, não com o cheiro de artemísia mas com o odor de flores desconhecidas.


 


Thomas Savage, O Poder do Cão, tradução de Elsa Vieira

Comentários

  1. António Luiz Pacheco3 de maio de 2024 às 01:48

    Creio que muito a propósito, de uma colectânea de caçadores-escritores em preparação:

    Uma história da África portuguesa: de colonos e caçadores!

    Os portugueses são colonos de mão-cheia, no melhor sentido do termo.
    Não com a conotação política negativa hoje tão em voga, que o confunde com o invasor que conquista e submete. Colono, é o que se instala num local e faz dele a sua terra, onde vive e cria a família. Terra normalmente bravia, que pelo seu trabalho amansa e desenvolve, onde constrói o seu lar! O colono investe em sacrifícios e esforços, persiste, rega essa terra com o seu suor e se necessário o sangue, mistura-se, adapta-se, inclusive adopta novas práticas e culturas, no fundo ao colonizar é colonizado, esse é o colono!
    O colono que se instalou em Santo Isidro de Pegões como pelo Mundo, das Américas às Índias, pelo Oriente e em África, onde deixou obra que deve orgulhar-nos, e, não pode ser esquecida lá porque o entendimento actual da história é outro, segundo as tendências da moda, política ou filosófica, que sendo isso mesmo, moda, tende a alterar-se.
    As modas passam, o homem evolui, mas as obras permanecem na memória e na alma das gentes, como no terreno!
    É dessa alma, a do colono português, que nas minhas deambulações por África recolhi testemunhos como o que aqui trago, fazendo notar que não é conclusão minha mas mera verificação do que outros, além e antes de mim, bem melhor do que eu, disseram.
    Vou falar de Angola, o país em que me encontro neste período da minha vida, onde contacto diáriamente com esse facto e realidade, com essas memórias.
    O colono português, na senda dos descobridores, esteve entre os pioneiros no Oeste americano, foi capitão-do-mato lá no Brazil, e, no caso concreto de Angola deu origem ao sertanejo, quem ombreou com o bóer no que toca ao desbravar, à descoberta e adaptação ao continente. O sertanejo a quem foram roubadas as páginas da história depois reescritas pelos agentes da Sociedade Geográfica e do imperialismo britânico, alemão e francófono, que a ser noutro país não faltariam quem as celebrasse nos filmes e obras literárias que na verdade merecem.

    Votos de um Extraordinário e primaveril fim de semana, para todos, cá desde a Cidade Morena.

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  2. O “PODER DO CÃO “, um livro inesquecível.

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  3. António Luiz Pacheco3 de maio de 2024 às 03:13

    E um filme muitíssimo bom!
    Diga-se também.

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  4. Concordo. Ambos fantásticos. Escapa-me o significado do titulo, embora se mencione o cão supostamente delineado na montanha.

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  5. António Luiz Pacheco3 de maio de 2024 às 05:32

    Se bem me recordo, o título tem a ver com uma citação bíblica!
    As interpretações são verdadeiramente magníficas.

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  6. Referência ao salmo 22 , diz-me a IA. Agradeço a informação.

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