O que ando a ler
Leio Paradaise (escreve-se mesmo assim, não estranhem, é o nome pomposo de um condomínio de luxo no qual se passa a história, escrita por Fernanda Melchor, a mexicana que recentemente ganhou em Portugal o Prémio Correntes d'Escritas com o anterior romance, Temporada de Furacões). Muito elogiada em toda a parte pelo seu estilo directo e torrencial, em que a palavras parecem literalmente jorrar de uma fonte inesgotável, Melchor dá-nos desta feita um pequeno livro que é de grande eloquência no tratamento da desigualdade. Partindo de duas jovens personagens, uma rica e outra miserável, descobriremos em pouco tempo como se aparentam no disparate, na bebida, no desejo, na imaturidade e na falta de contenção: Franco, o menino rico, é um gordo que se masturba o dia inteiro, filho de um advogado que não lhe liga pevide (o rapaz vive com os avós, que o deixam fazer tudo) e o que quer é fornicar com a vizinha trintona boazona, de cujos filhos pequenos se faz amigo para conseguir alguma intimidade com a família e o passaporte para entrar em casa da família (donde rouba cuequinhas de renda sujas da apaixonada). Na outra ponta, temos Polo, o jardineiro do condomínio, um negro sem um tostão furado, que chumbou a todas as disciplinas por faltas e está ali de castigo para devolver à mãe o que ela gastou com ele por causa do que não fez na escola e também por causa do que não devia ter feito a uma prima que vive com eles. Mas, para saber o que vai irremediavelmente ligar estas duas figuras, sem nada de aparentemente positivo ou agradável, o melhor é mesmo mergulhar nesta torrente de má conduta e ver como se vão ajudar na concretização dos respectivos desejos...
Continuo a ler - é um livro volumoso e não tenho o tempo que desejaria para dedicar à sua leitura - Os passageiros da sombra, de Jaime Nogueira Pinto.
ResponderEliminarCom a continuação da leitura, que acabou por me agarrar, evoluiu muito a acção e evoluiu aquilo que penso sobre o romance: que posso agora dizer, sem hesitação, que é muito bom!
Claro que esta classificação é inteiramente pessoal e discutível, não quer dizer que outrem goste tanto ou que até nem goste nada!
É um género de romance na senda daquilo que se falava há dias, do suspense, o qual creio que se pode classificar como um thriller por ser uma trama de política internacional e espionagem, aliás muito bem urdida, com todos os condimentos necessários e desde logo o conhecimento de causa e a informação que o autor possui e lhe conferem algo de muito valioso: realismo e autenticidade!
Não é um género habitual nos autores nacionais, sendo comum entre os anglo-saxónicos ou francófonos onde creio que o nosso escritor foi beber, o que aliás faz todo sentido, e, revela-se bastante ao longo do desenvolver da intriga pelo ambiente que consegue recriar, os lugares e as personagens. A grande novidade, para mim pelo menos, e aquilo que o faz diferente é justamente o local onde se centra a acção, que é Angola antes da paz, em plena guerra civil e com a África do Sul.
Sou um apreciador de descrições e do detalhe, no que o romance também é generoso, identificando-me bastante com o usar de histórias paralelas ao tema principal, devidamente enquadradadas e bem interligadas de modo a não quebrar a acção, servindo para contextualizar o leitor e apresentar os actores numa cadência cronológica bem conseguida.
Portanto e resumindo, vale a pena, estou a apreciar!
Saudações sombrias cá da Cidade Morena.
Eu ando a ler " O estrangeiro", de Albert Camus.
ResponderEliminarAcabei de reler "As Mãos Sujas" de Jean-Paul Sartre. Leio dois contos de Balzac - "A Obra Prima Ignorada" e "O Elixir da Longa Vida".
ResponderEliminarACCarvalho
Estou a ler “UM CAPRICHO DA NATUREZA” de Nadine Gordimer. História de uma improvável heroína na época dos movimentos de libertação, originária da classe média sul-africana, onde se fala também das colónias portuguesas, a talhe de foice.
ResponderEliminarÓ caro Paxeco ando há muitos anos atrás da história (verídica, aconteceu mesmo) que só agora vejo publicada em livro e que estou a ler. "Durante trés décadas, o tenente Hiroo Onoda esteve convencido que a rendição japonesa na II Guerra Mundial era uma mentira do inimigo. Manteve-se no seu posto defendendo a bandeira do Japão numa pequena ilha filipina. Escondendo-se na selva durante décadas, sem acreditar que a II Guerra Mundial tinha acabado.
ResponderEliminarConfesso que esta saga tinha todos os ingredientes para gerar um grande livro, mas Werner Herzog não esteve à altura de tão fascinante personagem e por isso as minhas expectativas ficaram aquém. "O CREPÚSCULO DO MUNDO"- Werner Herzog.
Que pena...
Recordo-me bem dessa história e de quando foi notícia!
ResponderEliminarÉramos rapazes...
Não sabia que tinha sido escrito um livro, acerca disso, porém e como dizes é um belíssimo tema, pena se não for bem aproveitado.
Abraço.