Excerto da Quinzena

Mais tarde, naquela mesma manhã, estava a tomar um café num bar à esquina do escritório do especialista em investimentos – a estudar, pela primeira vez na sua vida, a página de economia do jornal da manhã – quando se apro­ximou uma sorridente mulher de meia-idade e lhe disse que depois de ter lido o que ele contava sobre a sua libertação sexual em Carnovsky se sentia também ela menos «repri­mida». No banco da Rockefeller Plaza onde foi descontar um cheque, o segurança cabeludo perguntou-lhe entre dentes se podia tocar o sobretudo do Sr. Zuckerman: queria contar à mulher quando à noite chegasse a casa. Enquanto atravessava o parque, uma jovem mãe do East Side elegan­temente vestida que passeava com o seu bebé e o seu cão atravessou-se-lhe no caminho e disse-lhe:


– O senhor precisa de amor, e precisa dele constante­mente. Tenho pena de si.


Na sala das publicações periódicas da Biblioteca Pública, um cavalheiro de idade deu-lhe uma palmadinha no ombro e num inglês com forte sotaque – o inglês do avô de Zuckerman – disse-lhe que tinha muita pena dos pais dele. – Não contou a sua vida toda no livro – disse com tristeza. – Na vida há muito mais coisas. Mas você deixa-as de fora. Para se vingar.


E por fim, de volta a casa, tinha um negro forte e jovial da Con Ed à sua espera para ler o contador da eletricidade.


– Ouça lá, você faz aquilo tudo que vem no livro? Com aquelas garinas todas? Você é um caso sério, homem. – O con­tador da eletricidade. Mas as pessoas já não liam só os con­tadores da eletricidade, também liam aquele livro


 


Philip Roth, Zuckerman Libertado, tradução de Francisco Agarez


 

Comentários

  1. " Pode-se dizer que o motivo daquela felicidade era fútil, mas se o sentimento era vivo, intenso e verdadeiro o que interessa se a causa não estava à sua altura? A causa não tem de sustentar o sentimento, tem apenas de o desencadear. Se indagássemos todas as causas da felicidade dos homens descobriríamos, espantados, a preponderância dos pequenos nadas, dos gatilhos insignificantes - a sombra de uma árvore, abrir a porta do prédio e sair para a rua ao sábado de manhã par encontrarmos a rua vazia, uma certa canção. Seria justo renegarmos a felicidade que despertaram? Dizer que os filhos, uma obra, um império ou um amor proporcionam alegrias mais duradouras, é uma afirmação sensata, dificilmente desmentível, mas a aparente frivolidade de certas causas não fará da felicidade que delas resultou uma felicidade mais pura, uma felicidade platónica no sentido de estar mais próxima da própria ideia de felicidade, quase independente do objecto que a originou?"
    Hoje estarás comigo no paraíso, Bruno Veira Amaral, págs. 82,83
    (um bem haja sem tamanho a quem me ofereceu os livros sugeridos)

    ResponderEliminar
  2. Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos […]! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente […]. Porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, arrumar a homenagem entre o copo-de-água e uma gentil amante, nas horas vagas, em suma. Se algo nos impusessem, seria a memória e nós temos a memória curta. Não, é o morto de fresco que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós próprios.
    Albert Camus - A Queda
    Tradução José Terra

    ResponderEliminar
  3. Cómodo Lúcio Aurélio8 de setembro de 2023 às 07:27

    "Terminada a cerimónia nupcial, o rabino deixou‑se cair num ca‑
    deirão. Depois saiu da sala e viu as mesas postas ao longo do pátio.
    Eram tantas que a sua cauda passava para lá do portão que dava
    para a Rua Gospitalnaia. Cobertas de veludo, as mesas serpentea‑
    vam pelo pátio como cobras exibindo a pança de coloridos retalhos,
    retalhos de veludo laranja e carmesim que cantavam com voz grave.
    As salas tinham sido transformadas em cozinhas. Uma grossa
    chama, uma ébria e farfalhuda chama, batia nas portas enegrecidas
    pelo fumo. Nos seus raios fumegantes, assavam as faces das velhas
    e os queixos trémulos do mulherio de seios viscosos. O suor rosado
    como sangue, rosado como a espuma de um cão enraivecido escor‑
    ria desse monte espesso que exalava um fedor adocicado a carne
    humana. Três cozinheiras, sem contar com as ajudantes, prepara‑
    vam o jantar da boda, sob o comando da octogenária Reizl, marre‑
    ca e minúscula, tradicional como um pergaminho da Tora."(...)

    Isaac Babel - Contos de Odessa

    ResponderEliminar
  4. Mar 1

    É o abandono ao novo, ao desconhecido,
    ao reino de Neptuno. Nada nos defende
    dos assaltos do exterior, senão a liberdade
    do caminho que, pelo mar, conduz ao seu
    horizonte, remoto e imprevisível. Qualquer
    porto é lugar de partida, para enfrentar o
    vento e a entrega ao movimento das marés.
    O ritmo sonoro das águas entranha-se,
    quando dele só restar a imagem que o
    pensamento foi construindo. O horizonte
    prolonga-se, afasta-se, envolto numa
    indisfarçável espera que a clarificadora
    madrugada arranca ao já esquecido. O mar,
    agora interior, transforma-se numa
    pausa de silêncio, onde tudo aparece.

    Manuel Dias da Silva, "No Reino de Mnemósine", p.43

    ResponderEliminar
  5. Este excerto é muito interessante, aguçou-me ainda mais a curiosidade que tenho de o ler. Obrigada pela partilha.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório