O que ando a ler
Descobri há uns tempos, por recomendação de amigos, uma série de pequeninos livros belíssimos, publicados com a chancela BCF. O «B», descobri bem mais tarde, é de «Brito» e tem que ver com o nome de um dos proprietários, o filho do saudoso editor Manuel Brito, da Contexto, onde Al Berto publicou a sua obra. O primeiro desta série que li (e de que aqui falei) foi a pérola escrita pela cineasta Chantal Ackerman, Uma Família em Bruxelas; e agora estou a terminar As Malditas, o primeiro romance da argentina Camila Sosa Villadas. Trata-se de um história tremenda e dura sobre um grupo de travestis nos anos em que a SIDA começa a ceifar vidas, curiosamente contada por uma delas: a própria Camila, que nasceu rapaz, e negro, e pobre, em Córdoba, Argentina. (Se viu a série espanhola Veneno, é algo do mesmo tipo.) E não escrevo «trans» porque a autora acha a palavra que a Europa e os EU usam hoje algo eufemística, mas é na verdade um livro sobre meninos e rapazes que sempre se sentiram raparigas, sempre gostaram de vestir saias e de se pintar, que injectaram silicone nas mamas e nas nádegas, raparam os pelos, fizeram operações, que se prostituíram, tiveram chulos, foram maltratadas, presas, gozadas. Mas é também uma história de gente imensamente solidária, sensível, inclusiamente capaz de recolher um bebé encontrado no cesto de lixo de um parque ou receber uma mãe solteira para ter o seu filho no bordel. Penso que todos nós beneficiaríamos com esta leitura antes de darmos opiniões sobre aquilo que não conhecemos sobre a problemática trans. A história pessoal da narradora, bem como das suas muitas amigas, é realmente comovente e capaz de iluminar. A única coisa que não apreciei especialmente foi uma tentativa algo forçada de introduzir um elemento de realismo mágico (a uma das travestis, a María muda, crescem penas no corpo), mas, enfim, é um pormenor.
Durante as férias li vários livros, mas o que mais gostei de ler foi "Viver com os outros", de Isabel da Nóbrega.
ResponderEliminarDe início fez-me confusão a forma como as personagens se interpelavam e se misturavam nos pensamentos e conversas, mas depois começaram-me a ser familiares e as coisas começaram a fazer sentido.
No fundo é um livro sobre a vida, sobre a forma como nos relacionamos. Para a época em que foi publicado (1964), parece-me demasiado moderno, mas as personagens femininas são todas inteligentes e sabem-se movimentar muito bem naquele mundo dos homens (acho que sempre deve ter sido assim...). Claro que é uma história sobre a classe média, mais para o alto que para o baixo, tão pouco retratada na literatura.
É um livro humano, em que as pessoas são apenas pessoas.
E agora estou quase no fim de "A Mancha Humana" de Philip Roth, o autor de quase todas as inquietações... tanto que este senhor me faz pensar.
Fui lendo aos poucos o "Auto-de-Fé", de Elias Canetti e, face a um certo desconforto, intercalei a leitura de uma obra que esperava ser lida há uns 30 anos, "A Queda", de Camus. Gostei, não só pelo tema e pela escrita, mas também porque, sendo embora narrado por um só personagem, me deu a sensação de ser uma peça de teatro.
ResponderEliminarNos meus tempos livres leio, sempre que posso, porque a leitura é uma necessidade para o bom funcionamento do nosso cérebro. Leio, principalmente, para ter mais saúde e não para ser mais culto ou erudito. Ler lubrifica os neurónios.
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ler é um bom remédio para lubrificar os neurónios
https://lereumbomremedio.blogs.sapo.pt
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Acabei de ler A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, não gostei, estava à espera de outra coisa dado que começa assim:" Vecinos, vecinos, roubaram o Corpo Santo!" Esta senhora de luto, que se chama Tia Benita dos Caralhos, pelos muitos que mete na conversa.." .A verdade é que não cheguei ao fim deste tijolo de quase 700 páginas; Gostei mais de Mazurca para Dois Mortos do Cela.
ResponderEliminarOlá Maria do Rosário, que bom tê-la de regresso e à sua companhia, tão boa, à volta dos livros!
ResponderEliminarEu estou a ler uma preciosidade, muito difícil de largar: Obras completas de Maria Judite de Carvalho, editadas pela Minotauro - vou no segundo volume.
Um dia feliz para todos e boas leituras!
Voltando com muito gosto a este espaço diário repleto de livros e opiniões sobre os mesmos.
ResponderEliminarEstou a ler IRMÃS DE PROMETEU de João Paulo André, um livro enorme no que a páginas diz respeito (650) e de uma trabalhosa pesquisa. O autor, professor de química na Universidade do Minho, enveredou pela história da ciência e a participação feminina na investigação científica, desde a alquimia até à química actual.
De leitura acessível, é um mundo a descobrir.