Excerto da quinzena
Quando acabou a escola, Rahel foi admitida numa medíocre Faculdade de Arquitectura em Deli [...] Os examinadores ficaram impressionados com o tamanho (enorme), e não com a mestria, dos seus esboços de naturezas-mortas feitos a carvão. As linhas descuidadas e estouvadas foram confundidas com arrojo artístico, apesar de a sua criadora não ser artista.
Passou oito anos na faculdade sem terminar o curso de cinco anos e obter a respectiva licenciatura. As propinas eram baixas e não era difícil governar-se, alojando-se num albergue, comendo em cantinas subsidiadas, raramente indo às aulas e, em vez disso, trabalhando como desenhadora em obscuras firmas de arquitectura que exploravam mão-de-obra barata de estudantes a quem cabia fazer os desenhos de apresentação dos projectos e arcar com as culpas quando as coisas corriam mal. Os outros estudantes, especialmente os rapazes, sentiam-se intimidados pela indocilidade de Rahel e pela sua quase feroz falta de ambição. Deixavam-na entregue a si mesma. Nunca a convidavam para as suas casas simpáticas ou festas barulhentas. Até os professores a olhavam com ar desconfiado -- os projectos dela, bizarros e impraticáveis, apresentados em papel castanho barato, a indiferença dela às suas críticas apaixonadas.
Foi quando andava na Faculdade de Arquitectura que Rahel conheceu Larry McCaslin [...]
Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, tradução de Teresa Casal (Booker Prize, 1997)
"Na cidade viviam dois mudos que eram inseparáveis. Todas as manhãs, bem cedo, saíam juntos de casa e desciam a rua de braço dado, rumo aos respectivos empregos. Os dois amigos eram muito diferentes."
ResponderEliminarO CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO - Carson McCullers
"Precisamos de alguem com quem falar.
ResponderEliminarNao interessa de que.
Precisamos de uma voz humana"
Isabela Figueiredo "Um cao no meio do caminho"..
Na periferia das cidades, entrepostos gigantescos abertos ao domingo, grandes mercados, vendiam milhares de sapatos, de utensílios, de móveis. Os hipermercados tornavam-se cada vez maiores, os carros das compras eram substituídos por outros maiores ainda, nos quais, mesmo debruçados, mal conseguíamos tocar no fundo. Trocávamos o aparelho de televisão para podermos ter uma entrada Péritel e um leitor de vídeo. Mas o aparecimento das novidades já deixava as pessoas tranquilas, a certeza de um progresso contínuo retirava-lhes o desejo de imaginar as coisas. Recebiam os novos objetos sem deslumbramento nem angústia, apenas como algo mais a acrescentar à liberdade individual e ao prazer.
ResponderEliminarAnnie Ernaux - Os Anos
Tradução de Maria Etelvina Santos
"— É uma ilusão ingénua acreditarmos que a nossa imagem é uma simples aparência, por trás da qual estaria escondida a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam que é o contrário que é verdade: o nosso eu é uma simples aparência, incaptável, indescritível, confusa, ao passo que a única realidade, quase demasiado fácil de captar e de descrever, é a nossa imagem nos olhos dos outros. E o pior é que tu não és senhor da tua imagem. (...)"
ResponderEliminarMilan Kundera - A Imortalidade (trad. Miguel Serras Pereira)
"O deus das pequenas coisas", um dos livros que gostei mesmo muito de ler.
ResponderEliminarEstá noite vou recuperar o atraso, cada página em branco é uma incriminação e um estímulo para o remediar. Acúmulo palavras à toa, exorto-me a trabalhar, mas crio muito pouco. Demasiado cansada, por exemplo, para tirar notas sobre as seis pessoas que conheci e sobre a casa onde fomos no sábado à noite. Caminho sem ver nada , de olhos no chão. A vida escapa-me . Uma noite má - o Ted não anotou devidamente o nome , a morada ou a hora do convite.
ResponderEliminarSYLVIA PLATH - Diários - 1950-1962. Tradução de José Miguel Silva e Inês Dias
Li este livro o ano passado. Comprei-o por impulso. Gostei. É conhecer um pouco da Índia, através das páginas...simultaneamente um livro duro, mas comovente...
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