Literatura russa

Esqueçamos por uns momentos que os russos invadiram a Ucrânia e não estão a fazer guerra limpa, atacando alvos civis e matando inocentes, entre os quais crianças. O assunto aqui é a literatura russa, e os escritores não têm culpa nenhuma dos desvarios do senhor Putin nem merecem que os deixemos de ler. Será provavelmente o caso de Ludmila Ulitskaya, já com dois títulos publicados entre nós pela Cavalo de Ferro, um dos quais creio ter tido em tempos uma edição na velhinha Campo das Letras. Mas, como ainda só li Sonetchka, falarei apenas deste para tirar, desde logo, uma conclusão: é que, apesar de Ludmila ter nascido nos anos 1940, ser uma escritora contemporânea, o seu romance tem o mesmo tom dos autores clássicos; ou seja: lêem-se duas páginas e vê-se logo que é um livro russo, ou não fossem as mulheres sempre designadas por diminutivos (Sonetchka é mais ou menos Soniazinha) e os homens com os seus apelidos (Robert Viktorovitch, o marido de Sonechka). É um livro sobre uma rapariga que gostava muito de ler, mas que deixa de ter tempo de o fazer quando se casa com um pintor mais velho (que passara um tempo num campo de trabalho depois da Segunda Guerra) e é mãe de Tania, acumulando dois empregos para garantir uma casa e alimento à família e permitir que o marido dê asas à sua veia artística. E que acha ter encontrado a felicidade até ao dia em que... Não, não posso contar, a única coisa que avançarei é que no dia mais triste da sua vida Sonetchka vai à estante ler Pushkin, palavras que amenizam o horror. Apesar de nem sempre ter gostado muito da tradução, depois de ler outras tantas coisas que me aguardam, tenho de procurar Medeia e os Seus Filhos, da mesma autora.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de janeiro de 2023 às 02:23

    Claro que os escritores russos, sobretudo os da época pré-Putin, não podem ser ostracizados!
    Como não o foram os escritores americanos que eventualmente tenham defendido a guerra do Vietname, por exemplo... ou os escritores confederados, etc.
    Isto de uns tentarem obliterar outros, porque não são apoiantes de determinadas causas, é que deveria ser motivo para os obliterar a eles... era provarem do seu próprio remédio!
    Os escritores russos, imperiais, comunistas, não-comunistas e da era actual são apenas isso mesmo: escritores! Certo que a escrita é veículo de idéias, mas só afecta quem se deixe afectar porque, como dizem os brasileiros, tenha "o miolo mole".

    Saudações de mioleira rija, cá da Cidade Morena.

    P.S.
    Muitos parabéns pela sua nomeação para o prémio literário!

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  2. Quando se fala dos russos acodem-me logo os nomes de Dostoievsky, Tolstoi, Tchekov, Andreiev, Turgueniev. Mas esta Ludmila (para as mulheres, o nome), que não conhecia, também terei que ler.

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  3. Leiam-se autores russos!

    Mas nunca esqueçamos, nem por momentos, que os russos invadiram a Ucrânia!

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  4. Quem invadiu a Ucrânia foram as tropas russas e os lideres russos e não toda a população russa.

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  5. Exactamente!
    Por isso, é perfeitamente possível apreciar os artistas russos, sem esquecer a guerra. Quem precisa de a esquecer é que mistura, não acha?

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  6. Preparo-me para começar a ler Caderno do Escritor de Dostoievski.

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  7. Perfeitamente de acordo. É preciso atribuir a culpa aos culpados.

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  8. O livro Mentiras de Mulher da mesma autora, está publicado na Relógio d'água, e saiu recentemente na Granta em Língua Portuguesa, no volume com o título Rússia, um conto belíssimo da escritora. Sem dúvida recomendo.

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