Adeus, cultura?

Sempre que se avizinham tempos de crise, a cultura leva a primeira talhada. As famílias com filhos vêem chegar a inflação e não podem, claro está, poupar na roupa e na alimentação da prole, esforçam-se também por garantir o pagamento da renda ou da prestação da casa ao banco, não vá o diabo tecê-las e ficarem no olho da rua; mas livros, filmes, espectáculos de dança ou teatro, mesmo concertos, têm de ficar adiados para o fim da crise e do consequente aumento disparatado dos preços (que em certos casos é só um aproveitamento escandaloso da situação). Nos tempos difíceis, a cultura é sempre a mais afectada, e portanto devia ser obrigação do Estado tornar a televisão e a rádio públicas mais culturais, com programas que estimulassem a curiosidade, a leitura e a audição de artistas de qualidade. Mas nem sempre é assim e as audiências são normalmente o que impera... Este ano, e ainda estamos no início, a Antena 1 já cancelou o programa Biblioteca Pública, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida (com Dulce Maria Cardoso, Richard Zimler e Afonso Reis Cabral) e a Sociedade Portuguesa de Autores acabou com Original é a Cultura, no qual Cristina Ovídio conversava com Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery e Carlos Fiolhais (e que já só transmitiam às duas da manhã, desgraçadamente, mas poderia ser visto no dia seguinte). Será um prenúncio do que aí vem?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de janeiro de 2023 às 00:54

    Claro que, e muito pragmáticamente, o alimento do corpo vem primeiro que o alimento do espírito. Lembro que só depois de garantir a sua alimentação é que o homem, e, as sociedades em geral, dedicam tempo a outras actividades das quais a cultura faz parte mas não é prioritária, nunca foi.
    As pessoas de cultura e da cultura, são quase sempre quem consiga alcançar a sua subsistência e conforto, restando-lhes o suficiente para esse extraordinário que pode ser importante para elas, mas pode não ser para quem mal consiga pôr comida na mesa e agasalhar a família.
    Para nós, os que têm essa possibilidade, é preocupante sem dúvida, e, comungo dos receios da Nossa Extraordinária Anfitriã, porque vamos ter forte recessão cultural.
    O público em geral vai sentir, pois já se habituou, mas também se vai distrair dessa necessidade por força daquilo que lhe vai pesar mais. Os do costume, que são os governantes, não querem saber, aliás quanto menos cultura houve melhor para eles pois o populismo (que não é apanágio da direita, longe disso) surte mais efeito havendo menos cultura, como diz no manual do governante!
    Serão tempos difíceis em toda a linha, e o espírito vai sofrer primeiro, não duvidemos.
    Haveria formas de o contornar sim, mas seria preciso que a TV Pública tivesse a coragem de assumir o seu papel em vez de querer competir com as outras, indo pelo mesmo caminho á procura do "share", em vez de fazer o seu serviço, que era ajudar a divulgar a cultura, mantendo-a em vez de promover a boçalidade e a alienação junto do público... mas e isso interessa aos governantes?
    Não, não interessa. Interessa agitar o fantasma do "fascismo" e promover a incultura para assustar a malta, enquanto se pisca o olho de forma camarada, a puxar à cumplicidade, pelos interesses dos mesmos, que nem por isso são os nossos.
    Tempos negros se avizinham, sim, isto sem querer ser pessimista, e, sem que haja a desculpa do Trump nem do Bolsonaro, ah! Pois, a culpa agora é do Putin... e assim alegremente se caminha para uma espécie de nova idade das trevas em que o importante são as alterações climáticas e as políticas externas do comércio com a China, o CR7 já parece estar arrumado. A nova inquisição também agradece o estado de coisas, pois terá facilitada a sua vida de fiscalizar e ditar o que devemos pensar, ler e assistir.
    Cá por mim... ainda tenho muito para ler, comprado no bom tempo, agora, que venha o Inverno!

    Saudações de uma cidade de Luanda, húmida e chuvosa.

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  2. É normal que isso aconteça. No nosso país a cultura nunca foi um bem de primeira, segunda ou terceira necessidade.

    Em relação aos programas cancelados, não posso falar da "Biblioteca Pública", porque nunca o ouvi. Já em relação ao "Original é a Cultura", nunca o vi como algo que conseguisse aproximar o povo da cultura. E isso devia-se tanto às pessoas escolhidas como aos temas que eram debatidos.

    Embora seja sempre negativo que se acabam com programas essencialmente culturais, não consigo ligar o seu fim aos momentos complicados que estamos todos a viver.

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  3. Uma pequena correcção, se me permite: no Original é Cultura não era Mário Zambujal um dos participantes mas antes Carlos Fiolhais.
    Votos de excelente semana.

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  4. Quando o Serviço Público se "lembra" de banir cultura, amputa uma quota-parte do corpo esquelético da sociedade.
    Se os detentores do pode se "lembrassem" de aproveitar as mais-valias do tesouro cultural ínsito no âmago societário talvez o leque das mais elementares necessidades fosse alargado beneficiando a comunidade humana com o vislumbrado.
    AM

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  5. Toda a razão. Devia estar a pensar no Mestre, desculpe. Vou corrigir.

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  6. P.S. Se for o jornalista da Antena 1, é um gosto cumprimentá-lo.

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  7. A historiadora Raquel Varela defendia muito bem, há uns meses, que o índice de pobreza é ainda maior do que o pintam, porque, em pleno séc. XXI, às carências socioeconómicas há ainda a juntar uma educação pobre e um acesso à cultura muito deficitário. Então e quem vive da Cultura, poderá desviar a atenção do pão para a boca? Dá que pensar.

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  8. Agradeço a informação, que lamento. Era ouvinte de ambos os programas em formato de podcast, mas há algum tempo que não ouvia os episódios do Original é a Cultura. Agora, certamente fá-lo-ei.

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  9. Os livros estão caros. Os alfarrabistas são uma boa alternativa.
    Quanto ao serviço público da Cultura nunca acreditei nele. Sempre foi mau e tendencioso. Como, de resto, a televisão, que o espelha bem.

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  10. Os livros estão caros...(mas há mais desculpas...e o tempo para ler, temos lá tempo...)
    Sabem quanto custa um bilhete para o concerto dos Coldplay em Maio-Coimbra-€ 350,00 e estão esgotados...os livros estão caros, não temos tempo, não me levem a mal mas é a tal conversa de ervanária...

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  11. António Luiz Pacheco9 de janeiro de 2023 às 10:16

    Um bilhete para um concerto custa quanto?????
    Não pode ser... neste país, neste momento? Devia ser proibido...
    É só o que digo, me perdoem.

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  12. Mas é preciso contar a história toda, porque o escândalo é muito maior! São 4 espetáculos no Estádio Cidade de Coimbra, no total de 200.000 bilhetes vendidos. Esgotado desde agosto de 2022! Pobreza em Portugal? Só para alguns. E só não há dinheiro para o que não se quer.

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  13. O principal problema da cultura é o preço dela. Vemos um livro por 28 euros, compra-se. Ao cabo de 2 horas, está lido. Afinal a publicidade era "muita parra e nenhuma uva". Vamos a uma livraria (já há tão poucas...) em que 99% dos livros são belas capas, as contra capas anunciam 100 prémios e uns posts de redes sociais, gastam-se 20 euros e o livro não vale nada.
    Na parte de televisão, há várias personalidades que cobram cachets gigantes para participar nesses programas (incluir nomes "famosos", que chegam a pedir 5000 euros para falarem 15 minutos sobre os seus próprios livros). É aqui que há uma diferença para a música: os músicos oferecem-se para promover as suas músicas, até serem famosos e para "poder participar, precisam de 3000 euros de ajudas de custo". No final de 20 programas, o orçamento é sempre muito curto, será isso que aconteceu a esses programas.
    Mas, há ainda pior: os serviços de streaming, que se adicionam ás operadoras de internet, em que se pagam 75 euros pela tv, internet e telemóvel, depois são 20 euros para um, 10 euros para outro, 15 euros para outro, 20 euros para outro, 300 euros (para 12 meses) de outro... no fim, é impossível saber as novidades. E sem isso, não há publicidade que pague os programas, muito menos as participações. Nem com a taxa audiovisual isso é possível. Jornalistas também já cobram balúrdios por apresentar programas culturais e exigem que amigos políticos sejam convidados nas alturas de maiores audiências.
    Em resumo: ter 30000000 livros numa estante, ao mesmo preço, complica muitíssimo a escolha, o humano escolhe o mais simples: confia noutros e fica desiludido, não comprando mais. Ter 20000 opções de escolha (a adicionar ao que paga no serviço de cabo) corta a possível ideia de seguir um assunto e aprender algo. Depois há os festivais de música, para jovens, em que se gastam milhares de milhões, anualmente, com a ajuda de promotores e publicidade, graças a quantidades massivas de interessados.
    Acaba tudo numa bola de neve que vai rebolando ao gosto do terreno.

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  14. Tanta fuga à verdade neste comentário, enfim!

    Começa logo pela "genialidade" de ler um livro de 28 euros em duas horas...

    A maior parte dos escritores, dos músicos, dos pintores e gente de múltiplas artes, vai à televisão praticamente de "borla". O que está completamente errado. Mas é a antítese dos ditos "5000" ou "3000" euros.



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  15. Eu também sou da opinião que os livros são muito caros e deveriam ter uma percentagem de IVA menor.
    Na época natalícia coloquei a hipótese de ir ver um espetáculo de circo, quando vi os preços desisti logo! O bilhete mais barato era de 15€.
    A televisão prefere investir em reality shows.

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  16. sim, foi na Antena 1 que ainda recentemente ouvi a conversa com a Autora deste blog.
    A Autora é qualificada, o ouvinte (naquele caso) é só mero ouvinte. Portanto nao posso nem quero protestar contra a reclamaçao que faz de mais cultura na radio-tv.
    Mas vou contar-lhe um caso : desde que nasci e durante todas estas muitas decadas fui sempre ouvinte da A1. Incluindo dos seroes com conversa das 22 as 23 ou das 23h-24 ou 24h- 1oo.
    Ate que entrou este jeitoso (o novo diretor da radio) e ordenou que a conversa começasse logo as 8 da noite.
    Em minha casa já nao ouço a A1.
    Isto para lhe dizer que a cultura nao pode ser inundaçao !
    Repare neste pormenor : em agosto os ouvintes que nao gostam de futebol continuam na sintonia da A1, sou feliz -como disse á provedora (entretanto desaparecida sem nenhuma explicaçao ). Entao neste agosto o jeitoso inventou conversa para as tardes de domingo de agosto. (indo mais longe, como é que uma radio que se queixa de falta de recursos, podendo simplesmente meter automaticamente musica, mobiliza equipas para tambem nas tardes de verao nos injetar mais palavras )

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  17. Se for banda desenhada até é capaz de o ler em menos tempo

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  18. Não há escândalo nenhum, pois só paga quem quer e com a rapidez que esgotaram (todos eles em menos de 1h), aos preços que pediram e as negociatas que se vêm no mercado paralelo inclusive para as dormidas na cidade durante esses dias, para perceber que o conceito de cultura cara é muito discutível. Diria até que, comparar um concerto com um livro é redutor para o livro. Se se quiser ir mais longe, basta ver o preço dos bilhetes do futebol ou de qualquer festival de verão (também esses sempre esgotados a largos meses do inicio e a preços proibitivos) e não se vê grandes queixas dos frequentadores, pois virou moda e a moda paga-se cara. Já os livros estão na face pobre da cultura, diria até que na parte em vias de extinção, numa época onde as novas gerações só gostam de ler posts e ver vídeos nas redes sociais.

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