Excerto da Quinzena

A primeira visita de Angelica na situação de noiva à família Salina foi regulada por uma encenação impecável. O comportamento da rapariga fora tão perfeito que parecia sugerido gesto por gesto, palavra por palavra, por Tancredi; mas as lentas comunicações do tempo tornavam insustentável esta eventualidade, tendo de se recorrer a uma hipótese, a de sugestões anteriores ao noivado oficial; hipótese arriscada até para quem conhecesse melhor a previdência do Principezinho, mas não totalmente absurda. Angélica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as sedosas tranças pretas cobertas por um grande chapéu de palha ainda estival onde cachos de uva artificial e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce e os celeiros de Settesoli. Na sala de entrada, largou o pai; fazendo esvoaçar a ampla saia, subiu ligeira os nada poucos degraus da escada interior e lançou-se nos braços de Dom Fabrizzio; deu-lhe, nas patilhas, dois belos beijos que foram retribuídos com sincero afecto; o Príncipe demorou talvez um instante mais que o necessário a aspirar o aroma de gardénia daquelas faces adolescentes. Depois, Angelica corou, retrocedeu meio passo: «Estou muito, muito feliz... [...]


 


Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, tradução de José Colaço Barreiros

Comentários

  1. Grande livro que originou um grande filme.
    Maria

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  2. Só o nome de Burt Lancaster é cinema!

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  3. " O que o encantava quando estavam na Europa começou a pesar-lhe e, depois, a irritá-lo. Mathilde era caprichosa e frívola. Amine recriminava-a por não saber mostrar-se mais dura, por não ter mais estofo. Ele não tinha tempo, nem jeito para a consolar. As lágrimas! Quantas lágrimas ela já derramara desde que chegara a Marrocos! Chorava à mínima contrariedade, desatava constantemente a soluçar e isso exasperava-o."Pára de chorar. A minha mãe, que perdeu vários filhos, que ficou viúva aos quarenta anos, chorou menos a vida toda do que tu na última semana. Pára, pára!"
    Leila Slimani- O País dos Outros

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  4. Esta forma de controlar os comentários faz-me lembrar que afinal o lápis azul continua activo (é eu já fui aqui vítima dele). Custa-me a compreender está forma de controle (censura encapotada) ainda por cima num país em que se apregoa a liberdade e democracia...

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  5. Não fui eu que mudei, ja escrevi de resto à SAPO para perguntar o que aconteceu de repente neste blogue.

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  6. Preferíamos os textos com palavras e frases que resumiam a existência humana, a nossa, a dos homens da entregas e das mulheres da limpeza na cidade, de quem, no entanto, nos distinguíamos, porque, ao contrário deles, nós "levantávamos questões". Faltavam-nos palavras que contivessem em si princípios que explicassem o mundo e o próprio ser, que indicassem uma moral: a "alienação" e os seus satélites, a "má fé" e a "má consciência", "imanência" e "transcendência". Tudo era avaliado com base na "autenticidade". Se não fosse o receio de nos zangarmos com os pais, que juntavam sob a mesma ignomímia os divorciados e os comunistas, teríamos aderido ao Partido.
    Annie Ernaux - Os Anos
    Trad Maria Etelvina Santos

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  7. Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores.
    Tomas Tranströmer, (Nobel 2011) em "As minhas lembranças observam-me".
    Maria

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  8. É verdade que conhecemos os nossos rostos anteriores. Mas, reparo, nem sei se isso é bem verdade, tenho de procurar entre as fotos uma em que tivesse vinte anos para saber como era. E há idades em que, sem foto, não tenho ideia de mim; ainda que sempre me reconheça se acontece ver fotos antigas. Também nunca me senti mais nova do que sou, nem desejei ser mais velha, isso que, dizem, é tão comum em crianças e adolescentes. Talvez tenha nascido velha.
    E, no entanto, esse pode ser um bom livro.

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