Excerto da Quinzena
[...] Pousou as mãos no corpo dela e procurou desajeitadamente os botões. Ela afastou-o, impassível; tinha os olhos fechados na penumbra e os lábios tensos. Virou-lhe as costas e, com um movimento rápido, desapertou o vestido, que lhe caiu, amarrotado, aos pés. Os braços e os ombros ficaram nus; ela estremeceu de frio e, numa voz inexpressiva, disse:
– Vai para a sala. Eu despacho-me num minuto.
Ele tocou-lhe nos braços e encostou-lhe os lábios ao ombro, mas ela não se virou.
Na sala, William observou as velas que tremeluziam sobre os restos do jantar, entre os quais se encontrava a garrafa de champanhe, ainda quase cheia. Serviu-se de uma taça e provou a bebida; estava quente e adocicada.
Quando voltou para o quarto, Edith estava na cama com as cobertas puxadas até ao queixo, o rosto virado para o tecto, os olhos fechados, uma ruga fina na testa. Silenciosamente, como se ela estivesse a dormir, Stoner despiu-se e enfiou-se na cama ao lado dela. Durante um tempo, ficou deitado com o seu desejo, que se tornara uma coisa impessoal, que lhe pertencia exclusivamente. Falou com Edith, como que para arranjar um porto de abrigo para o que sentia; ela não respondeu. Pousou a mão no corpo dela e, por baixo do tecido fino da camisa de noite, sentiu a carne por que tanto ansiara. Moveu a mão; ela não se mexeu e a sua ruga tornou-se mais funda. Ele falou novamente, dizendo o nome dela no silêncio. Depois, moveu o corpo para cima do dela, suavemente, apesar da falta de jeito. Quando lhe tocou na macieza das coxas, Edith virou a cabeça abruptamente para o lado e levantou o braço para cobrir os olhos, reduzida a uma mudez total.
Stoner, John Williams, tradução de Tânia Ganho
«Vai para meio-século ligado aos «papéis pintados com tinta» (assim o Nandinho Pessoa referiu a livralhada), creio-me no entanto pouco afeito a botar parlança sobre o «negócio dos livros», assunto de sobejo respeitável para muito boa gente – empresários, intermediários, funcionários & mercenários «do sector» mai’los achadores de ciência económica, esses que desgastam meninges a achar isto & aquilo sobre uma coisa que não só não se acha como, ao invés, se perde… a cada sábio parecer.
ResponderEliminar«Pouco afeito», diga-se, porque praticamente desde a hora inaugural situado num território-outro a que se pode chamar «paralelo», pois que sem ponto de contacto com as envolvências a que o «negócio» obriga. No nítido nulo vocacional (leia-se: sem jeito nem ânsia de tê-lo), alheio também a conhecimentos desses que se intuem ou se estudam e, em concomitância, das práticas subsequentes, eis-me algodoado pelo mais descontraído, o mais voluntarioso, o mais irresponsável borrifanço face a tão magna matéria.»
Do Intróito de Vitor Silva Tavares a «O Negócio dos Livros» de André Schiffrin, Letra Livre, Lisboa 2013.
"...E sobre os descrentes? Darwin pensava em seu pai moribundo, e em si mesmo. Coleridge atribuía a falta de sentimentos deles para com o cristianismo a uma certa "vontade escravizada". Deixe que esses "efans de diable", disse ele, sofram a retribuição divina. Irá "qualquer um de vocês", ele perguntava aos descrentes, "ser curado daquela doença comum, o medo da morte?" Ele respondeu com uma paráfrase do Evangelho de João, o favorito de Emma.
ResponderEliminarDarwin não se comoveu, nem mesmo quando olhava seu pai que sucumbia. Não havia nenhuma cura nos livros de Coleridge. Ele havia aprendido seu cristianismo bem demais, em fontes como a Paley e de Norton - cristianismo baseado em provas - para pensar que sua doutrina pudesse sobreviver baseada somente em vagas emoções. Há muito ele abandonara a distinção de Coleridge entre alma e o corpo, razão é instinto. Por todos os seus protestos, mentava a caldeira de seu apelo religioso. O Doutor, Erasmus também, talvez o próprio Charles, estavam destinados a arder no fogo eterno. Era uma doutrina monstruosa..."
Darwin - The Life of a Tormented Evolucionist pg.381
Adrian Desmond & James Moore
A minha mãe! Mulher da monda, mulher da ceifa, mulher da cava do milho. Mulher de trabalho, mulher limpa, que se algum se lhe chegasse, levava lampada. Dezasseis filhos, todos do mesmo homem - mulher que não conheceu o paladar doutro. Quando me ponho a lembrar a nossa casa! Era mesmo ali, metida nas rochas, ao pé do porto. Era só uma casa, o repartimento que tinha era só umas sacas feita em parede. Dois, dois repartimentos. Um onde a gente dormia mais os meus pais, o outro onde a gente fazia a cozinha. Era muito escuro lá dentro. Quando se acendia o lume, era muito fumo e aquele cheiro à morraça. Era, era assim a nossa casa. Ai sorte! O que um homem padece desde que nasceu!
ResponderEliminarOlga Gonçalves - A Floresta em Bremerhaven
Um excerto original. Em vez do encontro tórrido que se espera, ou apenas do encontro, um dos intervenientes parece desagradado com a situação e até contagiou o ambiente, o champanhe perdeu o espírito. Nada é propício.
ResponderEliminar«Ao desaparecer a descontracção, perde-se o dom da escuta e desaparece a comunidade capaz de escutar. Esta comunidade está nos antípodas da nossa sociedade activa. O dom da escuta assenta precisamente na capacidade de prestar uma atenção profunda e contemplativa, capacidade vedada ao ego hiperactivo dos nossos dias (...) só a serenidade contemplativa abre as portas ao lento e moroso. Até Nietzshe sabia que toda a vida humana terminaria numa actividade fatídica, se fosse despojada de todo o seu lado contemplativo "A falta de serenidade conduz a nossa civilização a uma nova barbárie. Nenhuma era valorizou mais os seres activos, isto é, os inquietos. Uma das correcções que urge, pois, fazer ao carácter da humanidade é desenvolver, e em grande medida, o seu lado contemplativo." (Nietzshe, Humano Demasiado Humano)»
A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, excertos das págs 27 e 29