Das ausências

Em Outubro passado, por ocasião do festival literário de Óbidos, veio a Portugal Davide Enia, o autor do magnífico Notas sobre Um Naufrágio; ficou depois uns dias em Lisboa para entrevistas e uma apresentação do livro na Livraria da Travessa. Como uma das suas peças (Enia é também actor, encenador e dramaturgo) já tinha sido levada à cena pelos Artistas Unidos, pedimos encarecidamente a Jorge Silva Melo que fosse o apresentador. Não só aceitou, como nos brindou com uma apresentação belíssima, pedagógica, inteligente e sem um segundo de chatice, o que é mesmo muito raro nas apresentações de livros. Já há vinte anos ele tinha apresentado o romance de estreia de Filipa Melo que eu publicara de forma igualmente cativante. Nunca fomos íntimos, eu até fazia com ele bastante cerimónia (o respeitinho com quem o merece é muito bonito); mas fiquei triste, com essa tristeza que se sente por alguém próximo, quando na terça-feira pela manhã me meti no carro e levei a estalada da notícia da sua morte. Não o sabia sequer doente e ainda queria convidá-lo para apresentar muitos livros que viesse a publicar, pois era garantia de que correria bem. E agora já não posso. Encenador, realizador, fundador da Cornucópia e dos Artistas Unidos, homem culto e interventivo, sem papas na língua e excelente comunicador, Jorge Silva Melo vai deixar saudades. A sua falta será notada durante muito tempo.

Comentários

  1. Lembro-me de gostar de ler as crónicas que o Jorge Silva Melo escrevia no suplemento Mil Folhas do Público. Escrevia como falava, de uma maneira cativante. A peça do Davide Enia que o texto menciona é o "Itália-Brasil 3-2", que os Artistas Unidos levaram a cena por volta de 2004 ou 2005. Apesar de ser sobre um jogo de futebol (mas não só), foi uma das peças mais comoventes que vi.

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  2. Um Príncipe da Renascença, do barroco, do Jardim da Parada, de sei lá mais o quê, saído de uma geração, direi única, do «Diário de Lisboa-Juvenil, ideia e trabalho de Mário Castrim.

    «Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim, o que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, este poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
    É este o meu consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver» escrevia Stig Dagerman em 1955.»

    Jorge Silva Melo no seu livro «Século Passado»

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  3. António Luiz Pacheco17 de março de 2022 às 04:46

    Pessoas da cultura, de cultura e em particular do Mundo do Livro ou da Escrita, quando partem podem deixar saudade a quem com eles conviveu, porém fica a obra, mais ampla e abrangente que o seu autor.
    Fazem sempre falta, pois nunca são de mais, pelo contrário, e, com a tendência actual, liberal, parte da cultura e a leitura são mesmo para obliterar porque não são rentáveis.
    Confesso que aguardo com grande expectativa a nomeação do próximo ministro da cultura.

    Saudações cá da Cidade Morena.

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    Respostas
    1. O que tem que ver o ministro da cultura com a “cultura”? Nada, um gere e a outra existe. Ambos, presumivelmente.

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    2. António Luiz Pacheco17 de março de 2022 às 16:45

      O capitão do Solnado, que gostava de dizer coisas, diria "pois".
      É o que eu lhe digo, caro Rui Figueiredo: pois!
      Que quer que lhe diga?
      Pois?
      Ok, "prontos" , digo... pois!
      Se não entende a importância de um ministro da cultura, só posso dizer-lhe: pois!
      Um abraço cá ca Cidade Morena.

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  4. Vi Jorge Silva Melo fazer em debates de televisão aquilo que se pode ver em teatro. Tratava os assuntos como se estivessem habitados por personagens, a intervenção tornava-se cativante. Como um milagre a vida brotava ali.

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  5. A mim, que não o conheço senão do que fez, vai fazer-me muita falta. A gente gosta de quem escreve e pensa como ele, sente afinidade. Jorge Silva Melo é-me mais família do que muito parente. A vida vai desatando os laços e creio bem que partimos despojados.

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