Santa ignorância
Desde que trabalho em edição e, sobretudo, desde que escrevi uma série de livros juvenis que, na altura, foi bastante popular e teve até adaptação televisiva, pedem-me frequentemente que vá a escolas ou publique textos em manuais escolares sobre o meu amor à literatura portuguesa e a minha paixão por certos autores que hoje, pelos vistos, são malqueridos pelos alunos. Falo, por exemplo, de Fernão Lopes ou Gil Vicente, que a miudagem acha muito difíceis, ou de Bocage, a que a juventude actual parece não achar graça. Muitos professores não sabem como motivar os estudantes para a beleza e a verve do texto de certos autores, e eu compreendo que seja difícil com tantas horas de jogos na Internet; mas de vez em quando também penso que a impossibilidade de transmitir a paixão por certos textos reside no facto de os próprios professores não gostarem deles ou, pior do que isso, não os conhecerem. Uma amiga francesa que ensinou durante muitos anos no Liceu Francês de Lisboa contou-me que, um dia, uma jovem professora de Português lhe perguntou se ela sabia a nacionalidade de Sophia de Mello Breyner Andresen, pois um dos alunos lhe tinha perguntado durante a aula e ela respondera que era inglesa, mas depois ficara a pensar se, afinal, não seria americana... Santa ignorância. E depois querem que os miúdos gostem de ler.
Sou professora de Português e subscrevo TUDO o que disse. Nos tempos que correm, os alunos não leem porque não são motivados nem pelos professores nem pelos pais, que também fazem parte de uma geração que não leu! É desolador dizê-lo, mas é a constatação de uma realidade com a qual lido diariamente.
ResponderEliminarLuísa Cordeiro
Lamentável o desconhecimento. Mais lamentável a atitude de não admissão do mesmo e utilização do método dedutivo do apelido para apresentar uma resposta errada dada como certa.
ResponderEliminare um método dedutivo mal utilizado que o apelido não parece inglês ou americano sequer. Santa ignorância sobre santa ignorância.
EliminarEu estudei no Liceu Francês há 40 anos, e quem me deu o gosto pela leitura foram os meus professores de francês, e a literatura, o teatro e a poesia franceses, tão ricos e dados com tanta paixão. Os meus professores de português já na altura não se interessavam pelos autores que davam, e eu lembro-me de que não gostei de nada, praticamente até chegar aos Maias e mudar de professor. Tenho a mais grata memória de tudo o que li em francês naqueles anos, e a pior ideia do que li em português – clássicos a que infelizmente, raramente regressei. Felizmente continuei sempre a ler, e agora leio muita literatura portuguesa contemporânea. Aos clássicos, regresso muito mais aos franceses. Isto para dizer que o problema do ensino do português, não é de agora. Mas também me custou conhecer os professores de português dos meus filhos. Uma delas, que até era directora de turma, falava um péssimo português. Não devia ler nada. Mas houve outra, mais tarde, excepcional. Que fez por exemplo o meu filho mais velho conhecer e passar a ler João Tordo. Felizmente, há excepções em tudo.
ResponderEliminarNão deixei meu nome: Filipa
EliminarE há ainda o problema do discurso/linguagem normalizado/normalizadora. Os paladinos do politicamente correcto aliados aos produtores de conte´+udos informáticos desprovidos de conhecimentos linguísticos, os jornalistas que comunicam de viva voz e /ou por escrito que se auto-castram ou que são obrigados a castrar qualquer veleidade de linguagem que vá para lá do entendimento do mediocre mau-entendedor... Tudo isso leva a que, confrontados com uma riqueza vocabular ou uma simples menos comum organização sintática leve qualquer miúdo a simplesmente olhar para Eça (nem sequer vou mais para trás) como se "aquilo" fosse chinês. E é, para ele.
ResponderEliminarFora isso, tenho uma Licenciatura em Letras e já na altura em que me formei, no final dos anos 90, numa entrevista que dei a um vídeo de final de curso, disse que temia que, se um dia tivesse filhos esles fossem ensinados pela maior parte dos meus colegas de curso. Letras continua a ser o curso para onde vão todos os que não têm jeito ou não se querem esforçar para outra coisa. Raros são os alunos que entram em letras e gostem de ler (raros, repito: aposto que menos de 10%) e os professores das Faculdades de Letras, compelidos pelo trauma constante da "utilidade das humanidades" acabam por dar passagem a quem simplesmente não tem nível. E o grave é que o grosso desses acabam como professores.
Como é que gente que à partida não gosta de ler vai ensinar os outros a gostar? Não falemos sequer da ignorância ou de conhecimentos mínimos ou de uma base de cultura geral... porque também ninguém que não goste de ler vai preocupar-se em querer "saber".
Claro que há excepções a estas regras mas são, infelizmente, excepções e a regra, infelizmente, é a regra.
Quero crer que ainda há no ensino público quem gosta de ler e ensina a ler. Não tem, necessariamente, de ser professor de português. O professor de português é um privilegiado, pode mostrar o seu amor pela literatura sem sair do programa. Mas a leitura é tema transversal a todo o ensino, qualquer professor pode ser incentivo.
ResponderEliminarSempre se leu pouco em Portugal, não é mal de hoje. Hoje é apenas mais gritante devido às oportunidades que existem quer para impedir, quer para motivar a leitura.
Ouso dizer que a grande grande maioria dos professores não lê sequer um livro por ano!
ResponderEliminarE quando digo maioria atrevo-me a dizer mais de 90%.
Quando há alguém que diz as coisas melhor do que poderia dizer, não hesito e passo a citar José Tolentino Mendonça:
ResponderEliminar«Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei — e que lhes disse — foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo.” Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. Falta uma iniciação que seja digna desse nome. E, a esse propósito, lembrei-lhes o que dizia Rubem Alves: que era pela cozinha que deveríamos sempre entrar numa sala de aulas, pois ensinar é a arte de despertar a fome em alguém.»
Bela resposta.
EliminarIrresistível piada: “O verbo ler não suporta o imperativo.” LEYA
Bela, sábia e adequada citação!
EliminarUm abraço cá da Cidade Morena, Extraordinário Mário Sérgio.
Obrigada. Excelente partilha.
EliminarDos outros, pouco sei... daquilo que os professores fazem, ainda menos sei.
ResponderEliminarEm tempos, ali pelo ano de 79 e começo dos anos 80, quando eu mesmo fui professor (no Grupo de Biologia e Saúde), havia muitos colegas de Português oriundos da área da filosofia, cujas aulas em vez de serem de literatura (e os respectivos "pontos") eram de pura interpretação política dos textos ou das obras. Para não falar dos autores.
Que consequências terá isso tido? Não sei, mas tenho uma suspeição...
Falando por mim, não foram própriamente os professores que me puseram a ler, porque o meu gosto pela leitura vem muito de trás, do gosto pelos livros que sem saber ler folheava pelas gravuras ou fotos. Havia felizmente um larga biblioteca em minha casa, e, assim que me apanhei a ler, comecei a poder seguir aquilo de que antes só apreciava pela imagem.
Depois, na escola primária, as selectas literárias e os excertos dos livros de leitura, conquistaram-me para as obras e os autores, fosse a carga de um búfalo por Serpa Pinto, ou uma briga de varapaus por Camilo, o "Ladino" de Miguel Torga... um Mundo para descobrir! Descoberto por mim mesmo, usando das ferramentas certas.
Os professores... lembro-me do saudoso, despenteado, efusivo e algo tresloucado Dr. Barata, barrigudinho, sempre metido numa gabardina e de boina basca enfiada na farta e forte cabeleira, a quem no 5º ano do liceu tive a felicidade de ter por professor. Batendo a compasso na secretária, declamava entusiasmado e apaixonado: "pá-rá-pá-pá-pá" marcando o compasso da métrica d' Os Lusíadas enquanto um de nós lia uma estrofe. E terminava: Isto é maravilhoso, pá!
Contagiou-me. É o que posso dizer, pois fiquei a adorar a obra camoneana!
Saudações cá da Cidade Morena.
Pois eu gosto imenso de ler e não sei a razão disso. Em casa não havia livros, apenas o jornal e não era diário. Quando tive que ler os textos do livro do liceu achei-me não só a gostar como a desejar poder continuar a lê-los. Ai entrou a fortuna das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Depois, com a minha magra mesada, preferi comprar livros a outros objetos.
ResponderEliminarSó falta contar como até os "maçudos"clássicos me interessaram. O professor sabia despertar o interesse, explicando por palavras suas muitos dos versos d'Os Lusíadas. Quando surgiu algo sobre a modorra a bordo, ele perguntou se sabíamos como era a organização a bordo dos navios, se sabíamos o que eram os quartos. Nnguém sabia. Foi dessa explicação que chegamos ao "quarto da modorra" e então recomeçamos a leitura. Assim era agradável, instrutivo e vantajoso para o estudo do livro de Camões.
Esse professor também sabia explorar o espírito competitivo juvenil. De vez em quando anunciav "hoje há salta que é rego". Os alunos alinhavam ao longo das paredes e ele fazia uma pergunta. Quem sabia mantinha o lugar, quem não sabia era ultrapassado pelo 1o que acertava, à voz de "salta que é rego". Falta dizer que o professor era irmão do catedrático de Letras que marcou gerações, o Padre Professor Doutor Manuel Antunes, de quem não fui aluno infelizmente.
ResponderEliminarBoa tarde, Extraordinários Leitor@s:
ResponderEliminarNo meu caso, o meu gosto pela leitura provem de influência directa do meu pai. Sempre existiram muitos livros lá por casa. De todos os temas e de livre acesso. Ou seja, sem qualquer tipo de proibição.
Nunca me foram lidas histórias infantis. Mas sempre se leu alto lá em casa. Não eram histórias infantis. Eram capítulos de livros de adultos, que eu gostava muito de ouvir.
Na escola e da primeira à terceira classe, tive uma professora daquelas rijas, vindas directamente do Estado Novo. Ou seja que ensinava "a toque de caixa", onde não faltava a reguazinha de madeira, para os mais preguiçosos. Sim, era esse (segundo ela), o meu grande defeito. E em consequência, como é evidente, também provei do peso da régua. E garanto-vos que nem sequer fui a Vila Real.
Na quarta classe, tive uma Professora Maravilhosa! Vinda das ex-colónias (salvo erro de Moçambique). Essa sim, sabia ensinar sem amedrontar. Sem chantagear. E antes de começar a aula, fazia questão de ler sempre um capitulo de um livro. E que bem que ela lia! Como se não bastasse, e uma vez que ainda estávamos muito longe das magnificas Bibliotecas Escolares que existem nos dias de hoje, motivou-nos a, e durante aquele ano lectivo, levássemos alguns livros "lá de casa", a fim de que não nos faltassem leituras. Esse era o "prémio" para todo aquele acabasse antecipadamente o exercício. Era ir ler um livro. Tenho a dizer que aproveitei várias vezes essa fantástica possibilidade. E é bem natural que, desta maneira não se pudesse dizer que eu fosse "assim tão preguiçosa". É como muito bem canta a Mariza: "Há gente que fica na História, da História de gente!" Foi exactamente esse o caso da Professora Matilde.
Mas estas coisas aconteceram há quarenta anos. Um dia destes e ao falar com uma vizinha que durante muitos anos foi professora primária, soube que a mesma nunca gostou de ler livros. Ensinou a ler e escrever durante toda uma vida. Diligentemente. Porém nunca gostou de ler... livros. Como é que isso é possível?
Excelentes Leituras para todos. E há nossa mínima escala façamos a diferença no que toca à motivação para a Leitura.
Celeste Silveira
"E à nossa mínima escala...", evidentemente.
EliminarCeleste Silveira
A formação inicial de professores deixa muito a desejar. Não é de hoje, começou a perder qualidade durante a década de 90 e ainda não se conseguiu encontrar um caminho sólido e de qualidade. Após os três anos da licenciatura segue- se um mestrado de especialização mas depois há que possibilitar a prática acompanhada, e remunerada, obviamente. Isso não tem sido feito e é pena pois tem consequências más no ensino de Português e de todas as outras áreas.
ResponderEliminarTeresa Biu