Oportunismos

De há uns doze anos a esta parte dedico-me quase exclusivamente à edição de literatura em língua portuguesa, a que acrescento, esporadicamente, livros estrangeiros de jovens autores promissores, especialmente de países com línguas menos procuradas pelos meus colegas (catalão, coreano, neerlandês, alemão...); mas quando comecei a carreira, e ao longo de quase de vinte anos, publiquei muitíssimos livros traduzidos, de ficção e não-ficção, de biografias a testemunhos, ensaios ou aquilo a que os ingleses chamam «não-ficção narrativa». Já há séculos, porém, que não era contactada por esses editores e agentes com quem trabalhei muito no passado. Mas eis que eles de repente aparecem a propor obras com um denominador comum: o facto de serem de autores ucranianos ou dizerem mal da Rússia e lhe apontarem os defeitos e os podres. E, reparem, nem tem nada que ver com a Rússia de Putin, muitas vezes são livros já esquecidos de dissidentes da União Soviética, que deviam estar parados nos catálogos; mas, em cenário de guerra, ressuscitam e são potenciais sucessos de vendas. Se alguma vez pensei que as terríveis circunstâncias que vivemos ainda se haveriam de tornar motivo para uns negócios em livros que pareciam obsoletos... Ele há coisas.

Comentários

  1. Não tem nada a ver com o tópico, mas para quando a edição portuguesa de Putin's People de Catherine Belton?

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  2. Hum... vejamos, mas era de esperar!
    É assim que funciona o mercado. Quando há um acontecimento desta amplitude, inspira não só os criadores como desperta junto dos consumidores a procura de produtos relacionados com o tema na ordem do dia!
    Quando não há acontecimento nenhum, os especialistas sabem criar essa oportunidade de muitas outras formas, como bem sabemos ou devíamos saber, os que nos consideramos esclarecidos. Presumo que no mercado da edição seja semelhante, um acontecimento como este é uma benesse, uma janela de oportunidade como se diz, de negócio, para editar ou reeditar.
    Não me admiro. No entanto estimo que seja sim uma oportunidade para criar leitores, interessar gente, divulgar a leitura, mostrar o que o livro é na realidade e para lá do negócio das casas editoras: uma memória! Um depósito de informação!

    A propósito do comunismo, ontem estive em casa de um bom amigo, grande empresário, de posses. Embora trabalhe com ele quase todos os dias, pois tem fazenda e pescaria e agora um grande projecto de conservas, costumamos juntar-nos aos Domingos, para conviver, experimentar boas comidas e provar bons vinhos, falar de outros temas que são muitas vezes justamente os comeres e beberes, coisas boas em geral. Por acaso, ontem fiz lá um excelente cebiche de albacora que foi muito bem acompanhado por um célebre e premiado Casal Branco, Fernão Pires, (de Almeirim) o qual deu o mote para celebradas e divertidas histórias do já falecido, aristocrático mas excêntrico e distraído arquitecto que foi dono daquela propriedade. Bom, estavam presentes vários médicos cubanos, que são visita habitual e gente muito boa, quase todos jovens cheios de sonhos e em busca de oportunidades para a sua vida. Cultos e interessados conversamos muito, aliás todos lêem! Beneficio disso também, pois recentemente um deles tratou-me de uma febre tifóide que nunca fora diagnosticada e já estava numa situação extrema, criando-me infecções e problemas nos últimos meses. Vendo-os a eles e elas, reunidos a um canto do jardim de cactos, com lindíssima vista para o mar na baía do Santo António, na piscina, a conversarem animadamente, de expressões felizes com os seus copos de gin ou cerveja na mão, ouvindo música, comentei para os meus amigos:
    - Olhem, é assim que se combate o comunismo!

    É a espantosa realidade das coisas, a tal que deveria ser a nossa descoberta de todos os dias, e, bastar-nos...
    Saudações cá da Cidade Morena, onde também há qualidade de vida, embora não para todos, mas isso também faz parte do Mundo em que vivemos.

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    1. Não ouviu a parte do comentário dos cubanos “É assim que lhes mostramos que não devem ter preconceitos com quem pensa diferente”.

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    2. António Luiz Pacheco29 de março de 2022 às 03:37

      Vai-me perdoar pela franqueza, na resposta ao seu comentário. Você não me conhece, por isso não levo a mal, mas esclareço que não tenho nem nunca tive preconceitos, nem problemas com quem pensa diferente. Tenho amigos comunistas, fascistas e de todas as cores, clubes, tendências, que desde que respeitem as minhas nos damos muito bem e até discutimos essas tendências, o que é são!
      Em segundo lugar, o meu comentário em relação aos referidos cubanos (de quem sou amigo e devedor de cuidados como apoio no que posso) foi jocoso, uma brincadeira, para quem a consiga entender pela ironia de os frutos da revolução cubana que conduziu aquele povo à maior miséria e a uma opressão ditatorial sabida, estivessem em ambiente de piscina privada, a beber e a comer do bom e do melhor, tudo ao contrário daquilo que a revolução cubana lhes proporciona.
      Mas ainda bem que o conseguem aqui alcançar. No entanto o desejo de voltarem ao regime onde viveram é muito fraco, falamos de jovens de 30 anos que já abriram os olhos.
      Saudações burguesas cá da Cidade Morena.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi28 de março de 2022 às 04:00

    Bom dia. Excelente e corajoso post.

    Trata-se de um tema bastante incomum nos termos em que "ressuscitar obra(s) russa(s)" se lhe torna atraente negócio. Embora poupa-me o descrédito em absolver o modo alienado e pouco humano, por isso nem sou curiosa a prática intelectual soviética. Ora, basta saber a introspectiva ou melhor o recipiente literário imerso à realidades mui distantes quão distinto o comportamento dos ursos.

    Os números (universais) são referenciais desde sempre e não enganam. Mesmo a distância há uma série bem complexa em comparação e por exemplo liberdade revela diferentes moldes, culturalmente em questão vem a ser a "matriosca" que suporta a sucessão existencial feminina o envolucro quase hermético, cala-se na voz, na face gélida.

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    1. António Luiz Pacheco28 de março de 2022 às 06:21

      Caríssima Cláudia, atrevo-me a chamar a atenção para a Extraordinária e Imensa fonte de inspiração, para todas as artes e inumeráveis artistas, que sempre foram as guerras, todas as guerras! Isto para observar estrictamente o assunto deste tópico de hoje.

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    2. Cláudia da Silva Tomazi28 de março de 2022 às 09:36

      Extraordinário ALP estamos tão acostumados com o termo "espólio de guerra" onde a terra arrasada e a crueldade, nos causa imensa tristeza e atrevo-me incluir o sentido plural da humanidade.

      Não creio neste ruído artístico onde a "desgraça alheia" desperte alguma inspiração, embora a comoção ou temor sejam o contraponto, combustíveis dos princípios a vida. As relações comerciais equivocadas tambem, expõe o nível de ambição a que se propõe em alguns casos propriamente a opinião exibe rigidez e desconforto, uma espécie de miséria velada nos valores. Nenhuma pátria sorri na guerra. Já, os clãs são terríveis.

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    3. António Luiz Pacheco28 de março de 2022 às 12:19

      Dizes muito bem, e não contesto.
      Apenas que a guerra sempre inspirou obras de arte: grandes romances, e, grandes quadros!
      Isso creio que é inegável.
      Saudações em paz, cá deste lado do Atlântico, aliás Sul!

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  4. Os interesses económicos prevalecem sobre todos os outros. Quando há desacordo ganha a economia.

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  5. Pois nem de propósito... ontem, na Almedina do Saldanha (Lx) onde me desloquei para adquirir umas obras "chatas" de Direito, encontrei três "velhos" exemplares, posicionados em destaque, do Nikolai Gógol (ucraniano...) - o seu "Tarass Bulba", uma primeira edição de Maio de 2017, da "E-Primatur". Nem exitei...
    Vem à colação a nota dos editores, na qual se afirma que esta novela (considerada "uma das obras-primas do autor"), explica "uma parte da génese do recente conflito entre Ucrânia e Rússia".
    Referem-se sem dúvida à invasão da Crimeia, ocorrida em 2014. Quando a Europa ocidental dormia...
    Note-se que a tradução desta obra foi feita directamente do russo por Maria Vassilieva e Larissa Shotropa, as quais traduziram o conto original de 1835 (que não agradou ao Czar...), e o conto mais alargado de 1842.

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