Excerto da Quinzena
De um autor recentemente agraciado com o Prémio da Fundação Inês de Castro pelo conjunto da obra, aqui vai:
Chegam e entram. É o momento em que a menina Cláudia pode finalmente olhar para Mariano, frente a frente. O homem. Tenta mirá‑lo de um modo disfarçado, com o vagar de quem espera encontrar nele algo de secreto que afinal não existe, a começar pelos olhos, os traços do rosto, os ombros fortes, as mãos grandes e campestres, apesar de bem tratadas. Olha‑o, estuda o que nele falta decifrar. A firmeza dos dedos e dos pulsos. As expressões do olhar, o movimento emotivo dos lábios. Não se parece nada com o que lhe disseram dele: é alto, aprumado, um bonito homem com mãos de milhafre e sobrancelhas encrespadas sobre uns olhos parados – amarelos e frios. Não esperava dar com a descrença passiva desses olhos. Nem com o silêncio nervoso dele. Nem com a serenidade aparente da sua timidez. Dados que escaparam à sua imaginação. E nem lhe passara pela cabeça que um homem com uma história assim fosse afinal um tímido e que tão mal disfarçasse a sua timidez.
Em sendo a sua vez de olhar, Mariano não o faz de frente, e sim de um modo vago que finge não ter o propósito de a observar. Olha apenas ao redor do rosto dela, dos seus extraordinários olhos verdes, corolas nítidas a sobressaírem do moreno da pele. A sua boca parece demasiado tensa nesse primeiro momento a sós com ela. Há um instante, fugaz, em que os olhos de ambos se cruzam, num puro acaso. Repelem‑se. Queima‑os o contraste entre o verde ofídico dos dela e o amarelo dos dele. A estranheza torna‑se pensativa no rosto dos dois.
João de Melo, Livro de Vozes e Sombras
Há umas semanas, Maria do Rosário Pedreira deixava por aqui um desabafo, lembrando que a Poesia aparecia pouco nestes excertos quinzenais.
ResponderEliminarA Poesia, ah! pois a Poesia.
Dizia o Manuel António Pina:
«As 300 pessoas que em Portugal compram livros de poesia são as 300 pessoas que escrevem poesia também – já pensei juntá-las numa almoçarada.»
Trago-vos um poema de António Gedeão, «Poema do Gato» ‘de que gosto muito.
CristinaCarvalho diz que seu pai, António Gedeão, em idade adulta, não teve gatos mas enquanto viveu na casa na Calçada do Monte, os gatos apareciam pelos quintais das traseiras.
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
João de Melo (Pacheco) , se é o mesmo que estou a pensar, escreve muitíssimo bem!
ResponderEliminarMerece ser premiado, este sim!
Saudações cá da Cidade Morena.
Ali, entre as prateleiras do seu mestre [Aristóteles] e o sossego das suas classificações, Demétrio deve ter compreendido que possuir livros é um exercício de equilíbrio sobre a corda bamba. Um esforço para unir os pedaços dispersos do Universo até formar um conjunto com sentido. Uma arquitetura harmoniosa perante o caos. Uma escultura de areia. O refúgio onde protegemos tudo aquilo que receamos esquecer. A memória do mundo. Um dique contra o tsunami do tempo.
ResponderEliminarDemétrio transferiu para o Egito [Alexandria] o modelo de pensamento aristotélico, que, naquela altura, estava na vanguarda da ciência ocidental. [...]. No entanto, apesar das boas intenções, Demétrio sucumbiu às intrigas da corte de Ptolomeu. Conspirou, caiu em desgraça e foi preso. Mas a sua passagem por Alexandria deixou marcas duradouras. Graças a ele, instalou-se um fantasma protetor na Biblioteca, o de Aristóteles, o apaixonado pelos livros.
Indesculpável não ter mencionado autor e obra: Irene Vallejo - O Infinito num Junco, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas
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