Velhice e morte

Agora, que por causa da pandemia todos pensamos mais frequentemente na morte e, sobretudo, no medo de morrer, as cenas em que a morte está presente nos livros que lemos saltam mais à vista e tenho vindo a sublinhar algumas (eu, que nem sou de sublinhar livros). Mas, pior do que o medo de morrer, é certamente o medo de ficarmos diminuídos mentalmente com o tempo, ou mesmo de perdermos o tino, o que para um artista será, creio, ainda mais terrível. Stravinsky, quando já estava no fim da vida e a mulher lhe perguntava se precisava de alguma coisa, respondia brilhantemente que apenas precisava de ter a certeza da sua própria existência, o que é também uma forma de se assegurar da própria lucidez e saber-se vivo. Somerset Maugham não teve grande sorte quanto a isso, pois diz-se que, depois dos oitenta, baixava as calças em qualquer lado e fazia cocó atrás dos sofás, num caricato e triste regresso à primeira infância. Goethe, porém, manteve-se com a cabeça fresca até muito tarde (sobretudo se tivermos em conta que no seu tempo as pessoas morriam bastante mais novas do que hoje); passou os 80 anos com uma saúde de ferro e a mente a funcionar em beleza (Fausto é dessa altura) e só aos 83 acabou por sucumbir a uma trombose e perder a fala, mas diz-se que, mesmo assim, continuou a escrever letras na manta que lhe cobria as pernas, com pontuação e tudo!, como só pode acontecer a um verdadeiro génio. Sobre o livro em que tudo isto e muito mais nos é contado, falarei um dia destes, quando o terminar.


Hoje recomendo, por piedade deste fim de Maugham, que não merecia, O Fio da Navalha, o Véu Pintado ou A Servidão Humana, mas ele foi um autor prolixo, há muito por onde escolher.

Comentários

  1. Maugham é um dos meus autores e o Fio da Navalha um dos meus livros; desconhecia (e lamento saber) que terminou a vida dessa maneira. :(
    Li os três livros recomendados... e ainda mais alguns :)
    Gostei de saber que vai ter um livro novo.
    🌻
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Extraordinária Maria
      O livro não está escrito pela Rosário, nem vai ser. Ela prometeu falar dele quando acabar a sua leitura. É o que deduzo, mas nem sempre deduzo bem.

      Eliminar
    2. Olá Fernando,
      deduziu muito bem, eu é que meti água... o que hoje, com 38 graus, até nem é má ideia
      Quem me dera estar aí no seu planalto, onde deve estar mais fresquinho...
      Um bom dia!
      🌻
      Maria

      Eliminar
    3. Adenda:
      E afinal eu até sabia do Maugham, só que não me lembrava: impossível reter tudo de um livro que se leu há 9 anos - até de um que se leu há 9 dias...
      Já o fui buscar à estante para reler algumas partes.

      Eliminar
  2. António Luiz Pacheco23 de junho de 2020 às 02:14

    Interessante este post, pela reflexão inicial.
    Há muitos e belíssimos romances sobre esse tema, seja da perda de faculdades, seja sobre as memórias passadas.
    Lembro-me de repente de "Ilhas na Corrente" do eterno Hemingway. Um romance Extraordinário que me atrevo a aconselhar!

    Na actualidade, diria que a sociedade vive no pavor de perder qualidades como a aparência física, e, no terror da própria morte que não entende como um processo natural e irreversível. Nem vamos (vou!) aqui falar nisso, creio que todos o percebemos.

    A perca de qualidades físicas e mentais, bem, a minha malta diz que estou cada vez mais chato! Tenho de reconhecer eventualmente que sim, mesmo que não me dê conta... mas como passo largos períodos fora, não chateio muito. Até a minha sobrinha de Madrid criou um grupo de Watsap (eu sei que não se escreve assim, não sei como se escreve mas tive preguiça de ir ver!!!!) intitulado "famelga", o que nos permite trocar impressões, entre a Austrália, Inglaterra, Espanha, Angola, Brazil e Portugal, por onde estamos espalhados. Assim até já os chateio mais um bocadinho, mas dizem que têm saudades e eu acredito, pois também tenho, mas não deixo de lhes chamar palermas, enfim uns úteis, outros inúteis ou mesmo reformados!
    A perda das faculdades físicas... temos de aprender a viver com elas! Não será difícil de explicar e menos de entender, o que é aos 64 anos comparar-me com as performances dos 30 ou mesmo 40, na pesca submarina como atrás das perdizes ou dos búfalos! Podia ser doloroso, mas decobri que não é, e até me rio disso junto da malta mais nova nos nossos grupos e tertúlias, onde pelo menos vou ensinando e transmitindo aquilo que por minha vez me foi transmitido ou aprendi. Há que descobrir e continuar a tirar partido das sensações que estão ao nosso alcance, descobrindo novas e sem querer alcançar as de antanho.
    Não prevejo uma velhice amargurada, nesse campo, se bem que tenha saudade quanto mais não seja da facilidade com que subia um cabeço, ou do tempo de apneia...

    Quanto ao nosso outro tema, o da leitura:
    Gosto moderadamente de Maugham, por o considerar algo pesado e bastante depressivo, não é por acaso que é tido por "dramaturgo". E é mesmo trágico.
    São muito boas as duas obras que aqui se aconselham: - No fio... e a Servidão... Não li O Véu. Assim de memória, lembro-me de ter lido ainda "O canto estreito", o romance dele de que mais gostei, e, "O mágico" por tratar do nosso Pessoano personagem, Allister Crowley!
    Fica o meu comentário de traça!

    Saudações ortográficas cá da Cidade Morena, esperando não ter cometido muitos erros para não dar a impressão de que não me ralo com isso!

    ResponderEliminar
  3. Comecei por fazer confusão de Maugham com Faulkner e ia escrever que era mais um daqueles autores que li na altura errada (há uns trinta anos...), quando ainda não tinha grande paciência para ler autores difíceis. Depois consultei os "arquivos" e verifiquei que li "O Fio da Navalha", mas pouco recordo do livro...

    ResponderEliminar
  4. Somerset Maugham é, na minha opinião, um dos maiores escritores de sempre e nem acho o seu estilo particularmente dramático ou pesado. Aprecio-o e pronto. Conto leva-lo comigo no verão, época mais favorável para engravidar literariamente. Foi um compromisso que assumi, mas creio que será um enorme prazer e nunca uma obrigação, apesar do afastamento tirânico de médicos, pois ler faz bem à saúde. A única filha do maugham chegou a condessa por casamento. Esperemos que o pai nunca tenha manifestado a sua vertente de decadência atrás dos reposteiros da rainha, com quem até simpatizo. Em suma: o escritor é meu porque ambos partilhamos sofreguidão de mútua entrega. Esperemos que as férias sejam de cobranças excessivas por torradas e muitas e intensas provocações incluindo pessoal clínico (que dispensados, por desnecessário).
    SN

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foi segundo marido de Elizabeth Maugham, John Hope, Primeiro Barão de Glendevon.

      Eliminar
  5. Somerset Maugham, o escritor que "nunca gostou das pessoas", deixou uma obra que me despertou a atenção - que li e vi o filme - "O Fio da Navalha", título que eu emprego como expressão limite em determinadas situações. também li a Casuarina há muito tempo, e já não me lembrava que era da autoria dele, apenas me ficou o título na memória.
    Ele tem colada uma frase que é - "apenas os medíocres estão sempre no seu máximo" - que me parece interessante, mas não compreendo; tudo depende do que se entende por medíocre e máximo, mormente em literatura.
    Desconhecia o pormenor do arriar a calça atrás dos sofás, embora saiba que a natureza humana consiga, com a idade, levar a situações limite como estas.
    A Maria fez confusão com o que disse a Rosário, pois não me parece que a obra referida e a terminar seja da sua lavra, porquanto ela disse "sobre o livro em que tudo isto nos é contado"; se nos é contado, não é ela que conta. E falo deste pormenor porque acho interessante - e é uma ideia para algum Extraordinário - juntar curiosidades num livro sobre escritores, os seus trabalhos, a sua vida, até sobre algumas das suas mais pícaras circunstâncias.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Okay, okay, Fernando, não bata mais no ceguinho - neste caso na ceguinha!
      Deve ter sido da vontade que tenho de ler mais um livro da Rosário, gostei muito do romance que ela escreveu há muitos anos... o Fernando já o leu?
      Quanto ao Maugham, parece-me pouco avaliá-lo só por um livro ou pela sua alegada (como agora se diz) senilidade...
      Boas leituras!
      🌻
      Maria

      Eliminar
    2. Olá, Extraordinária e caríssima Maria

      Não quis "bater", nem com uma das flores com que simpaticamente nos brinda. Repeti a "deixa" porque fiz uma sugestão a algum Extraordinário, que é a de coleccionarem curiosidades sobre escritores. E ele há tantas!...
      O livro a que se refere, da Extraordinária escritora Rosário, deve ser "Alguns Homens e Duas Mulheres e Eu". Não, não li, mas ainda bem que o recomenda, porque vou encomendá-lo.
      A minha mais recente aquisição de obras da Autora foi "A minha primeira Amália", com ilustrações de João Fazenda. Maravilhoso! Já tinha adquirido, mais para os filhos, "O Clube das Chaves" e "O Detective Maravilhas" em vários volumes (nem sei se a colecção toda).

      Quanto à temperatura do Planalto, por se encontrar mais perto do Sol em altitude, está mais quente, não tanto como o abraço caloroso, à distância recomendada, que lhe endereço.

      Eliminar
    3. Sim, é esse o livro :)
      Temperatura actual em terras de Amato Lusitano: 38 graus.
      Temperatura actual em terras de Bandarra: 30 graus.
      Logo o meu abraço (ainda que virtual) é muito mais quentinho.
      🌻
      Maria

      Eliminar
  6. As diferenças e modelos, tanto se lhe estão à cultura quanto tendência e se perseguir aspetos recomendados há suavidade no processo. A natureza (neste momento) solidária, faz ajustes necessários; colaborar faz-se literalmente por si. Não menciono apatia ou medo e se o livrar a razão entre atributo e arbítrio, sobrar-lhes-á capacitação e benevolencia; ordem maior o mérito, memória. Nem sei se o tomava S.M. ou Goethe, mas chá de boldo, recomenda-se desde sempre porque é amargo e bom digestivo.

    Cláudia da Silva Tomazi

    ResponderEliminar
  7. Maugham, uma das grandes falhas do meu mapa de leituras. Acreditem, nunca li nada dele.
    Mas para o tema proposto "A Morte de Ivan Ilitch" impõe-se-me logo como o melhor. É uma novela que parece coisa pouca quando comparada com as outras grandes obras de Tolstoi, mas para mim é a melhor, aliás um dos melhores livros que li. Talvez se possa dizer que mais do que um livro sobre a morte é uma extraordinária obra sobre o sentido da vida.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco23 de junho de 2020 às 07:35

      A morte de Ivan Ilitch? Suponho que não o depois Lenine, confesso que é livro que deconhecia, embora não sendo especialista em Tolstoi.
      Estamos sempre a descobrir coisas aqui, e vou tratar de investigar...
      Recomendo vivamente "O canto estreito", porque correndo embora o risco de asnear, me parece não ser nem tão pesado nem dramático como mais ou menos costume nas obras de S. Maugham e me perdoem os seus fãs, aliás não estou a desconsiderar o Escritor!

      Saudações cá da traça livresca na Cidade Morena!

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco23 de junho de 2020 às 07:40

      Já fui ao gúguel... encontrei uma resenha e percebi três coisas:
      1- Porque se liga ao nosso tema de hoje, e creio que plenamente!
      2- Que deve ser um bom romance, como seria de esperar, cheio de reflexões.
      3- Que muitos ímpios, agnósticos, descrentes, etc. com o aproximar da morte, se abeiram de Deus... o que é um facto muito comum e pouco divulgado, pois ocorre na ponta final da corrida da vida. É curioso! Mas assim é o ser humano, fértil em curiosidades.

      Eliminar
    3. Ó Paxeco há um provérbio húngaro que, diz: na cova do lobo não há ateus.

      Eliminar
  8. Cito, de memória, de Todo-O-Mundo (Philip Roth):
    “A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre.”
    Faz-medalha este criador de horas extraordinárias.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Queria dizer “faz-me falta”, mas o traquinas do corrector ortográfico pregou-me a partida.

      Eliminar
    2. Poucos escrevem tão bem sobre a velhice como o enorme escritor que é Philip Roth.

      Eliminar
  9. De um escritor bem mais actual, Leonardo Padura, recomendo muito vivamente "O Homem que gostava de Cães", magnifico relato das lutas travadas entre estalinistas e trotskistas e biografia dos últimos anos do exilado russo no México, assassinado com uma picareta, agora que o nosso Jerónimo vai mostrando apoquentação com as promessas incumpridas em relação à Festa do Avante e a tomada de Setúbal ou Palmela, mais de oitocentos após a reconquista cristã. Nós adorámos o livro e contamos os dias até respirar livremente de novo, sem maus odores.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Picareta de alpinista ou picareta de alpista?

      Eliminar
  10. "A CANETA QUE ESCREVE E A QUE PRESCREVE" - Eis uma interessante antologia que reune uma selecção de textos literários sobre doença e Medicina, agregando excertos representativos das diferentes épocas da literatura portuguesa, que vai do século XIII (Pedro Hispano 1210-1277) até à actualidade, passando, entre outros, por Fernão Lopes, D. Duarte, Gil Vicente, Garcia de Orta, Fernão Mendes Pinto, Padre António Vieira, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Florbela Espanca, Vergílio Ferreira, José Saramago, Gonçalo M. Tavares, entre muitos, muitos outros grandes escritores.

    Estes textos mostram como a representação da doença acompanhou a produção literária ao longo dos séculos. São cento e trinta autores que aqui expõem a doença e a medicina ao longo de mais de setecentos anos, mostrando-nos situações estranhas, quase aberrantes, de desamparo e de fragilidade provocado pelo sofrimento físico ou anímico e as várias práticas doutros tempos em que, por vezes, a medicina era praticada por ferreiros, barbeiros e outras profissões.

    PASSAGENS - Teolinda Gersão - excelente romance em que o tema em causa é excelentemente narrado.

    O ESCAFANDRO E A BORBOLETA - Jean-Dominique Bauby - vítima de um acidente o autor fica numa cama de hospital em estado praticamente "vegetal" em que apenas mexe as pálpebras e assim consegue escrever (numa máquina especial para o efeito) este arrepiante relato em que ouve tudo à sua volta de quem o julga "morto" e que sobre ele, na presença dele, que tece os mais arrepiantes comentários.

    ResponderEliminar
  11. Não posso esquecer de Stephen King - "A ZONA MORTA" - A história de John Smith, cujo carro que estava conduzindo colide violentamente, levando o protagonista a ficar em coma por quatro anos e meio.
    Ao acordar milagrosamente, Jonh nota que possui agora uma espécie de dom: ao tocar nas pessoas, é acometido por visões que dizem o futuro, o passado e o presente daquele em quem toca.

    ResponderEliminar
  12. Extraordinário Pacheco,
    Embora Tolstoi se tenha desgostado da religião - estudou todas as principais, acabou por aceitar a sua, Cristianismo Ortodoxo - e tenha efetuado todas as disposições conducentes ao suicídio, acabou por abandoná-lo porque encontrou nas pessoas um sentido para a vida. E plasmou isso nessa extraordinária novela. Mas tudo se passa no plano da vivência das pessoas, nada de encontros definitivos com Deus.
    Boa leitura, se tiver oportunidade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco23 de junho de 2020 às 09:20

      Extraordinário Amalivros:
      Muito obrigado pelo seu esclarecimento e recomendação.
      Fiquei muito interessado neste livro, sim!

      Eliminar
  13. Estimada Maria do Rosário,
    do Summerst Maugham li as três obras sugeridas, mas recordo com particular carinho "Servidão Humana", um romance que me tocou profundamente. Reconheço-o como um dos grandes autores do século XX, ainda que um pouco esquecido, creio.
    Vítor Fontes

    ResponderEliminar
  14. Sobre a velhice lembrei-me de um livro que li há uns anos "Memória das Minhas Putas Tristes" do Gabriel García Márquez. A velhice tem muito que contar e que ainda não foi muito trabalhado. Não é tão interessante para o público leitor, provavelmente.

    Acho engraçado quando perguntam a políticos sobre a escrita da autobiografia e muitos pensam em escrever quando se tornam mais velhos. Se por um lado é bom esperar pelo últimos anos para fazer uma autobiografia completa, por outro alguns com essa idade terão a cabeça a traír a memória ou a ver os factos com outra experiência.
    Como não sabemos como iremos estar com mais idade, melhor ir escrevendo uns apontamentos para mais tarde.

    Do Somerset Maugham li apenas o livro da Tinta da China sobre as viagens dele ao Extremo Oriente "Um Gentleman na Asia". Uma delícia para entender a personagem.

    ResponderEliminar
  15. Eu escrevo mas não prescrevo de certeza absoluta. Por enquanto vou chatear o Fernando para a AML. Depois, sou capaz de me juntar ao movimento das ajuntadeiras por uma liderança fabril consistente. Até tenho medo deste meu dedo que adivinha.

    ResponderEliminar
  16. Da avenida de Roma ao bairro do ferro de engomar em uma eleição e trinta livros.

    ResponderEliminar
  17. Rosário: Somerset Maugham foi, sem dúvida, um grande escritor e - dizem- "Servidão Humana" tem uma vertente autobiográfica. O autor era tartamudo e projectou na personagem Philip essa contingência através de um pé boto. Ficamos também a saber que era possível a um jovem da classe média experimentar várias profissões, sem grandes transtornos, antes de se decidir pela definitiva. Existia margem orçamental para o efeito. Gostei particularmente das deambulações teóricas por ele gizadas em torno da vida de um pintor. E do facto de se ter recusado a prosseguir pois um artista não deve ser medíocre naquilo que faz: ou é muito bom ou é melhor desistir e dedicar-se à medicina, como fez Philip que, antes, tinha ainda experimentado a aborrecida contabilidade.
    Um dos aspectos mais interessantes da literatura é, precisamente, a projecção da realidade social contemporânea do escritor.. Eça foi o nosso campeão nesse conspecto, mas também Agustina, mais recentemente. Em "Os meninos de Oiro", José Matildes (que, ao contrário da sua autora, era moralista e moralão) choca-se pelo facto de um grande amigo seu, aristocrata, ter tomado como amante uma jovem música, fazendo-a fenecer entre quatro paredes, o arroubo artístico perecido em função do convívio com tão enfadonho sustento. Tão impressionado fica o protagonista que chega a pensar salvar a criatura mas, depois, achando-a indigna porquanto conformada com tal triste destino, esquece o assunto. Escrevia Agustina sobre a década de 80 do século passado, pouco depois da Revolução de Abril que nos trouxe um feliz nivelamento social.
    Seria interessante cotejar a literatura com a mentalidade de alguns funâmbulos que por aí se arrastam, julgando-se ainda viventes em uma outra realidade social, gizando propostas ofensivas, alardeando superioridade em função do dinheiro e da casta social com total desconsideração pelo mérito e capacidades de cada um. Agustina foi, aliás, lapidar no tratamento destas questões. Em "Deuses de Barro" conta a história típica da jovenzinha pobre e rural, trabalhadora do campo que, engravidando do fidalgo, pensa, ingenuamente, que este a assumirá, mas vê-se forçada, depois,a vender a criança, ainda bebé, à tia paterna, nunca mais a vendo. Realismo cruel, mas realismo e, decerto, com correspondência em muitas histórias de que a autora terá sabido.
    Enfim: obrigada pelo blogue e por esta possibilidade tão interessante de trocar opiniões. Sim: porque as mulheres não, não vivem obcecadas com a aparência física e com medo de envelhecerem. Eis mais um estereótipo alardeado pelos (pouco) inteligentes do costume.As mulheres também gostam de filosofar e debater.
    Um beijo e bom serão
    Sandra Neves

    ResponderEliminar
  18. Ora cá está um dos meus autores preferidos. Dele tenho cinco obras, mas só li o fio da navalha, por várias vezes, em períodos diferentes da minha vida, e em todos eles a sua leitura e a história me fascinaram. Não sei ainda como não li o resto da obra dele, mas entre os autores mais conhecidos da sua geração, a escrita de Maugham é sem dúvida a que mais me agrada.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório