Escrever e aprender

Não sou, já aqui o disse, grande apologista de cursos de Escrita Criativa. Parece-me que o talento não se arranja neles e que muitos dos seus frequentadores sem talento atafulham depois a minha caixa de correio electrónico com propostas que mais valia terem ficado na gaveta (ou até por escrever). Mas também sei que muitos destes cursos podem ajudar os que já têm talento a organizar as ideias, a encontrar o tom, ou até a escrever melhor um texto que nada tenha que ver com ficção. E não duvido de que ouvir «lições» de quem é profissional da escrita é certamente uma benesse. Até por isso, interessei-me pelo livro Manual de Sobrevivência de Um Escritor, de João Tordo, que acrescenta ao livro um subtítulo que desarma: o pouco que sei sobre aquilo que faço. E nem é porque ele me recorde no seu caminho de escritor num ou noutro passo do livro (fui sua editora muitos anos) que o recomendo aqui, mas sobretudo porque, longe de funcionar como a maioria desses cursos, é um conjunto de experiências e conselhos para quem pensa tornar-se escritor que servirá, em muitos casos, para que alguns escolham mesmo outra vida... É que, como sabe quem escreve  (e João Tordo teve de lutar muito para poder sobreviver escrevendo a tempo inteiro), não é uma vida fácil... Vale muito a pena ler e levar a sério. Tiro o chapéu, aliás, a várias afirmações que muitos outros escritores que conheço nunca fariam. Leiam-no, pois.


Hoje recomendo também um livro de um homem que não escreveu sobre a escrita, mas sobre a leitura: Dicionário dos Lugares Imaginários, de Alberto Manguel (que leu para Borges em jovem), mil e tal páginas maravilhosas sobre mundos que só existem nos livros, como Avalon, Xanadu, Macondo e muitos mais.

Comentários

  1. Obrigada querida Rosário. O João é maravilhoso e eu posso testemunha-lo pois fui sua talentosa aluna. Há porém problemas que não se resolverão sem conflito e é bom que se saiba que foram eles a escolher assim. O Jornal Nacional deste fim de semana ha-de trazer notícias de além mar. Obrigada.

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  2. Ultimamente não o tenho lido, mas na minha opinião o João é quem escreve melhor da nova geração de escritores (que já começam a ser velhos...).

    Gostava que escrevesse mais sobre o nosso país, mas percebo que ele queria conquistar a "universalidade", escrever para o mundo...

    Em relação ao tema, é bom que as pessoas percebam que por alguma razão não existem cursos de "romancista ou poeta". Nem há segredos. Gostar de escrever e gostar de ler, são o caminho certo...

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  3. António Luiz Pacheco19 de junho de 2020 às 02:35

    Já aqui se falou, ainda há pouco tempo, desse livro de João Tordo.
    Também já reconheci que nunca li nada dele, e mais não fosse pelo que diz o nosso Extraordinário Luis Eme, em quem acredito, tenho mesmo que o ler... fica a promessa (a mim mesmo, é claro...) !
    Dos cursos de escrita criativa, nada posso dizer pois nunca frequentei... mas tendo a concordar com a Nossa Extraordinária Anfitriã, pois se há quem saiba deste tema é seguramente ela! Penso eu de que, e não estou a engraxar!
    Parece-me evidente que há que separar os CEC ministrados por Escritores (João Tordo) ou por literatos de reconhecida competência, até professores de literatura ou similar, daqueloutros por curiosos, isto é por teóricos que nunca escreveram nem escrevem.
    Sei de vários casos.
    Eu, tive uma cadeira de Estilística Prática, já aqui falei nela e nos professores o "Casal Ventoso" como na nossa irreverência de estudantes lhes chamámos. Foi extremamente útil, a quem quis perceber para que servia, é só o que digo.

    O "Dicionário dos Lugares Imaginários" , é um daqueles livros Extraordinários, sim, sem dúvida! Que boa alembradura essa... e há outros do género, cujos títulos não me recordo agora, mas por exemplo "bestiários" de seres, ou de animais imaginários, usados na literatura que também são interessantíssimos e até uma leitura daquelas para entreter e descontrair, que nos descansam a mente.
    É que há mesmo livros para tudo, não duvidemos, e Extraordinárias são de facto as horas que passamos a ler.

    Um fim-de-semana cheio de venturas, saúde, apetite, Sol, e claro, muitas páginas, são os meus votos cá desde a Cidade Morena!

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    1. "Casal Ventoso" é (ou era) um bairro problemático do Porto, com muitos "dealers" e drogas. Numa fase da minha vida, convivi com viciados em droga, que se abasteciam no "Casal Ventoso". Hoje, não sei, saí do Porto há quase 30 anos.
      Não sei se sabia...

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    2. António Luiz Pacheco19 de junho de 2020 às 11:17

      Sim, o Casal Ventoso era o bairro da droga, ali na parte alta de Alcântara e Prazeres, e, a alcunha por nós posta ao casal Anette e Prof. Sousa e Costa, mais velhos mas com aspecto de hippies reciclados sobreviventes do Maio de 68, de cabelos compridos e sempre despenteados como se ao vento...

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    3. Casal Ventoso era em Lisboa e não no Porto.

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    4. António Luiz Pacheco19 de junho de 2020 às 13:51

      Sim, Lisboa... nem reparei nesse pormenor! Foi o João Soares quem reclassificou e recuperou aquela zona.

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    5. Sim, desculpem, fiz uma imensa confusão. No Porto também se falava muito nesse "famoso" local.
      Parece que quase trinta anos de Alemanha me confundiu as ideias...

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  4. Será um fim de semana noticioso. Obrigada João e Gleisi.

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  5. Ó Caríssima Maria do Rosário sei que (mais uma vez) não vai gostar do que vou escrever (mas é o que penso, embora isso possa não interessar a ninguém) mas não resisto:
    -dizer que João Tordo teve de lutar muito para poder sobreviver escrevendo a tempo inteiro não tendo uma vida fácil...é como ouvir o António Costa a dedicar a final da Champions em Lisboa aos médicos deste país...às vezes temos mesmo que reflectir para não ofender quem, neste momento tenta sobreviver,
    O João Tordo (um filho da Av. de Roma) a lutar para sobreviver...

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    1. Severino, devem contar-se com os dedos de um mão, os escritores portugueses que vivem desafogadamente, a escrever a tempo inteiro (falo de literatura, não de jornalismo...).

      Não é por o João viver na Avenida de Roma e ser filho de um "cantautor" e compositor, que as coisas mudam de figura...

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    2. Tirou-me as palavras da boca. E, lendo o livro, percebe-se melhor.

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    3. E finalmente li o livro (Manual de sobrevivência de um escritor) e desde já devo confessar que estava redondamente equivocado; a minha consideração pelo João Tordo subiu muito, muito e só agora fiquei com a ideia concreta das dificuldades que um escritor (a maioria) tem para sobreviver, nomeadamente dos jovens escritores portugueses.
      Quero ler todos os livros do João Tordo.
      Aliás, eu sou um bom cliente dos novos autores portugueses (David Machado, Afonso Cruz, e mais alguns -e agora do João Tordo-).

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    4. E adorei este "Manuel de sobrevivência de um escritor", -que excelente livro, tenho-o todo sublinhado-!

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  6. Lugares para acrescentar ao dicionário: Chão de Vento, Água de Todo o Ano, A Ver o Mar, Punhete (atual Constância), Porcalhota (atual Amadora), Ribeira de Rio de Cões. Não são imaginários, são reais.

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    1. Caro amalivros,
      precisamente por serem reais é que não podem ser acrescentados àquele Dicionário, que trata apenas de lugares imaginários, criados na ficção com tal mestria que quase nos parecem reais.
      Eu gostei muito do livro, mas sou suspeita, pois sou muito fã do Manguel. :)

      Bom fim-de-semana.
      🌻
      Maria


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  7. Obrigado pela partilha. Não pelo tema da escrita, mas sobretudo porque gosto de ouvir escritores falar/escrever sobre o seu ofício.

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    1. Muitas vezes precisando de grande coragem para fazê-lo . Obrigada, há momentos determinantes em que devemos mesmo arriscar falar sobre o ofício. Hoje e amanhã serão dias inesquecíveis.

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  8. O João não é só um ilustre finalista de vários prémios literários em curso no país: se depender da boa literatura será também o vencedor do mais desejado de todos. Obrigada ao Brasil, querido país irmão. SN.

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  9. Adorei o texto, inclusive não conhecia o João Tordo e gostei bastante do subtítulo da obra mencionada acima, "ou o pouco que sei sobre aquilo que faço", risos. Abraço de um leitor brasileiro!

    Victor Wallace.
    https://wallsbooks.blogspot.com

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