Desinfectar livros
Desde o início da pandemia que nos chamam a atenção repetidamente para a importância de lavarmos muitas vezes as mãos e desinfectarmos tudo o que trazemos da rua, o que tento cumprir escrupulosamente, mesmo quando me parece levemente exagerado (por exemplo, a embalagem de um remédio que trago da farmácia ou algo que vá direitinho para o congelador, o que, creio, deve matar os vírus todos). Há, aliás, quem defenda que, desde que abriram as livrarias, as pessoas têm lá ido muito pouco porque se sentem desconfortáveis pensando em quem já mexeu ou folheou determinado livro (bem, amigos Extraordinários, podem sempre levar luvas e, com as capas plastificadas dos livros, passar desinfectante ou álcool antes de começar a ler). Eu cá acho que o problema é outro: temos menos voltade de comprar em geral (estou segura de que os outros negócios também andam às moscas) e temos menos dinheiro para gastar. Mesmo assim, é verdade que um médico me disse que a primeira coisa que tirou da sala de espera do seu consultório nos tempos da Gripe A foram as revistas, porque as pessoas têm o péssimo hábito de lamber o dedo para passar a página e esse é um meio de contágio muito eficaz. A este respeito da desinfecção de livros, vale, porém, a pena ler um artigo sobre como desinfectar colecções em tempos de pandemia. Não sei se as nossas bibliotecas, que já abriram ao público, não deveriam lê-lo. Aqui vai:
https://universoabierto.org/2020/06/01/como-desinfectar-colecciones-en-una-pandemia-2/
Hoje recomendo um romance maravilhoso em que a biblioteca confere poder a quem toma conta dela. Talvez já tenha falado dele aqui por outras razões, mas há que insistir nos bons livros: Casa de Campo, de José Donoso, com tradução de Sofia Castro Rodrigues.
Acho um exagero andar a desinfectar o que quer que seja... nunca o fiz e não pretendo fazê-lo. Distanciamento social, uso de máscara e lavagem frequente de mãos. Isso sim! o resto é um disparate!
ResponderEliminarConcordo. Os livros, objectos animados da nossa paixão, merecem um respeito e carinho incompatíveis com desinfecções . Há quem goste de humidificar o dedo, é verdade. Como quem se prepara para desenhar um risco branco no topo da bochecha de uma boneca de porcelana. Mas são preliminares (ainda que fantasiosos) ao acto da leitura e de tal forma subtis que carecem de interpretação. Muito piores são as descrições eróticas de algumas autoras do realismo porquanto não deixam margem para dúvidas.
EliminarBom dia com alegria
ResponderEliminarGrato pela sugestão de leitura de hoje, assenta que nem uma luva nas minhas predileções.
Relativamente ao COVID, deixo aqui para reflexão dos Extraordinários:
https://dilbert.com/strip/2020-04-22
Boas leituras
cp
Quando esta maré passar ficará a mania de desinfetar tudo e um par de botas. Parece-me um erro pois então ficaremos indefesos perante os milhentos vírus que nos rodeiam, os que já existem e os que surgirão no futuro.
ResponderEliminarTambém não desinfeto tudo o que trago da rua. Depois de vir das compras, antes de qualquer outra coisa, lavo bem as mãos. Depois de arrumar as compras, torno a lavar bem as mãos. Tem de chegar. Se não chega, paciência! Em lado nenhum existe segurança a 100%. E a Maria do Rosário tem razão: coisas que se congelam não é preciso desinfetar. E como se desinfeta pão? Ou legumes e fruta (peça a peça)? Ou embalagens de papel, como a da farinha, por exemplo?
ResponderEliminarSempre tive o hábito de me descalçar à entrada, mas não desinfeto o calçado. Nuca ouvi falar disso aqui na Alemanha, país que, como Portugal, não apresenta números altos de contaminação. Assim como não me consta que aqui se aconselhe a desinfetar o vestuário. Como o fazem? Com algum spray? Já agora, o cabelo, não?
Lavo a roupa como sempre. Mas atenção: nem todas as peças aguentam temperaturas de 60ºC ou mais! Lavem meias (acrescento peúgas, embora não goste da palavra), blusas, certas camisas e t-shirts a 60ºC e depois informem-me do resultado!
Já não é tempo de pulôveres, mas acrescento que ficam igualmente uma ruína, lavados a altas temperaturas.
Ora aqui está um comentário lúcido, que subscrevo na íntegra.
EliminarTenho lido na net coisas incríveis, quase inacreditáveis, que as pessoas fazem...
Cuidado, sim; paranóia, não!
Bom dia e muita saúde para todos.
🌻
Maria
Bom mesmo será engravidar de imediato os livros de idéias, torná-los sérios sem que percam o humor e saber que nunca mais estaremos sozinhos: nem nós nem os nossos amados e fininhos volumes.
ResponderEliminarApoiadíssimo! Aplaudo, tem música e volta em ombros!!!!
EliminarO melhor comentário que li nos últimos tempos!!!!
Bravo, e olé!
Não percebi nada mas ainda bem que gostou.
EliminarUm tema bem pouco literário-livresco, mas actual!
ResponderEliminarPela minha parte, recuso-me a entrar em pânico! Recuso-me a ter medo e a pactuar com essas verdadeiras psicoses. Não tenho medo especial e nem previno, o Covid, são piores os mosquitos e morre-se muitíssimo mais de paludismo, coisa que me apoquenta!
Sempre fui ensinado e pratico, a lavar as mãos quando chego da rua! Tal como tiro os sapatos. Desinfecto sempre as saladas, a fruta e o que se come crú - excepto as bananas.
Tudo o resto, é alienação, psicose, e arranjaram mais uma forma de nos dominar, submeter e até controlar. O terrorismo institucional que começou com o Bin Laden (o que ele se há-de rir no Além!) e a "segurança aeroportuária" que nem a lata do nívea ou o corta-unhas me deixa levar na bagagem de mão!
Felizmente ainda não controlam o que lemos! Ainda... e, falo dos livros, porque revistas e jornais já são controlados e intoxicam-nos, dizem-nos o que pensar, como fazer, o que comer e o que vestir, até o que ler, sim!
Todos os jornais e revistas, de grupos económicos, hão-de falir, de fechar, por causa disso e é bem feito! Pela carga maléfica que possuem e nos contagia. Goebbels também há-de estar a bater palmas lá o Inferno, onde o Diabo o aproveitou para sussurrar aos ouvidos dos políticos e donos dos media!
Já temos um PR ex-comentador, aguarda-se que a qualquer momento tenhamos Primeiro-Ministro dono de jornal ou TV, Ministros que sejam Directores nos média, apresentadores de programas e por aí.
A ditadura dos media é que nos devia preocupar, mais do que os fantasmas da direita e da esquerda com que os media e os seus assalariados (os "famosos", os "actores" e "cantores") nos andam para aí a acenar.
Leia-se! Livros, bons, ou nem por isso, mas leiam-se livros! Sobretudo clássicos, escritos por gente de confiança, antes desta nova vaga dos "influenciadores" e dos "fazedores de opinião". Com os livros, os livros honestos e de um tempo em que se escrevia com outros objectivos, viajamos, nos distraímos, nos emocionamos, nos mantemos pessoas e sobretudo pensantes! Livres, esclarecidos e senhores de nós mesmos, sem ter de ser contra isto ou a favor daquilo. para ficar bem diante dos outros.
Não gostei da Casa de Campo, sobretudo pela forma como é escrito, o estilo, e, achei aquilo muito confuso para se ler em tantas páginas. Na verdade não sou grande apreciador de José Donoso. Li (no original) El Mocho... é pesado, também não foi dos livros que gostei.
Falando de argentinos, "A invenção de Morel", "O enteado", "Dom Segundo Sombra" e "Martin Fierro", são os meus preferidos!!!!
E sobre o tema bibliotecas e literatura, lembro de Jorge Luis Borges, argentino, "A biblioteca de Babel" , e, "O livro da areia", em que ele diz justamente aquilo que eu supracitei, naquela minha breve análise sobre a literatura... enfim, atrevo-me a inspirar no pensamento deste grande escritor. E como não? Creio que é legítimo!
Saudações tranquilas, cá da Cidade Morena!
António Luíz: o fininho não é um actor. Ficava bem ao Covid assumir a derrota até porque será em breve assumida. E quaisquer regressos a uma anormalidade normal anterior são já impossíveis.
Eliminar"A Invenção de Morel " inesquecível !
EliminarAHHHH! Logo vi... alguém tinha que ter lido!!!!
EliminarEheheh!´
Agora deu-me vontade de ir reler...
E Borges é um mestre da escrita, da escrita sem arrebiques nem floreados em demasia, ele transmite o que quer, como quer pura e simplesmente, é como um "asado" de carne Argentina; só precisa de sal e brasas!!!!
Grande abraço churrasqueiro cá da Cidade Morena, onde o churrasco é uma religião!
Perdão... disse Borges... asneira! Bioy Casares... se bem que o prólogo do livro referido, seja de Borges.
EliminarEsse livrinho do Bioy Casares é um tratado sobre grandes temas da condição humana e abarca vários géneros literários (romance de aventuras, novela romântica, ficção científica, novela policial, epopeia de herói perseguido e solitário, etc), com um enredo cujo mistério nos prende desde a primeira página e só se resolve no final do romance. Escrito em 1940, antes das grandes obras de Borges, é incrível como "A Invenção de Morel" antevê tecnologias informáticas do final do século como a holografia. Com os efeitos especiais do cinema de hoje daria um grande filme nas mãos de um Spielberg, embora seja impossível transpor para a tela a fascinante meditação existencial que ocupa as últimas páginas da obra.
Eliminar
ResponderEliminarDesinfectar? Não.
(pobres livros...)
E não é apenas por rimar com "estragar".
Há coisas bem mais agradáveis.
Bom, bom, é ler e partir à aventura,
numa daquelas "viagens" intermináveis,
e sentir, o que há de melhor na literatura...
Olha... outra Extraordinária comentação (digo assim por causa da cacofonia)!
ResponderEliminarOs Extraordinários, anónimos ou não, encontram-se inspirados, terá sido o fim de semana?
Eheheh!
Gostei muito Luis Eme!
Abraço António Luiz.
EliminarAqui há uns anos comecei a ler "A Casa de Campo" mas não consegui ir além da página trinta e tal, tal a estopada (directamente proporcional à fama que efectivamente tem).
ResponderEliminarSerá que, passados estes anos, manteria a mesma opinião?
E uma das (não menores) atrações deste romance fabuloso (a mais do que um título) é a voz narrativa: autorial, sofisticada e engenhosaPaulo - e que, como ele reconhece no início do segundo capítulo, nos acena ou nos 'puxa pela manga' para estabelecer as suas polidas intrusões metanarrativas.
ResponderEliminarPaulo Lopes
Oh, os livros magrinhos são poderosíssimos e ganharam mais uma vez.
EliminarAo contrário do que aconteceu no primeiro mês de confinamento, em que a leitura decorria lenta, depois de algum tempo ler tornou-se para mim uma necessidade tão grande que dei por mim a fazê-lo com grande sofreguidão. Concluí a leitura de livros que tinha pousado, li outros que há muito pensava ler e adquiri, através da internet, livros para ler e para oferecer. Penso que nunca li tanto em tão pouco tempo, apesar do tele trabalho e das lides domésticas, que procuro não descurar.
ResponderEliminarBom fim de semana e boas leituras. :)