Competências e capacidades
Há quem diga que, depois da pandemia, nada será igual; há quem, pelo contrário, declare que, passada a fase pior, tudo voltará a ser como antes (Houellebecq dizia-o num artigo recentemente publicado no Expresso). Acredito que haja mudanças... A quantidade de coisas que deixámos de comprar e que percebemos que realmente não nos fazem falta é uma delas (e o dinheiro vai ser menos para muita gente); mas mudará também a forma como os pais olham para os seus filhos pequenos, pois finalmente passaram com eles o tempo que só lhes dedicavam à hora do banho ou aos fins-de-semana. E talvez tenham descoberto que eles se entretêm maravilhosamente com um livro de histórias, uma corda de saltar, uns lápis de cera e meia dúzia de carrinhos com mais felicidade do que com o inglês, os cavalos, as aulas de piano, o atelier de cerâmica... Tomara. Como diz, numa entrevista que li há meia dúzia de dias (embora tenha mais de um ano), um homem muito sábio (refiro-me a Laborinho Lúcio), hoje «encharcamos de tal maneira as crianças com competências que nem chegamos a descobrir quais são as suas verdadeiras capacidades». Ter nascido e brincado antes do nascimento da Internet dá de facto esta lucidez impressionante. Espero que da pandemia possa nascer realmente algo de positivo quanto a este assunto.
Hoje recomendo um livro que dá para grandes e pequenos e pode ser lido pelos pais aos filhos: Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. O autor foi Prémio Nobel da Literatura em 1956, embora em Portugal seja um desconhecido.
Eu também gostava que as coisas mudassem para melhor, mas não acredito.
ResponderEliminarAs pessoas são as mesmas. Os nossos governantes continuam a "mentir" e a dizer o que mais lhes convém, com o calculismo de sempre (o primeiro ministro e o presidente da república são exímios...).
Uma boa parte dos portugueses ainda se tornaram mais egoístas e cínicos. Basta sonharem que há um produto qualquer que vai escassear, para "limparem" todas as prateleiras dos supermercados... E se se sentem acossados, por qualquer coisa que meta alguém estrangeiro, libertam logo o "racista" que está dentro de si.
Podia continuar, mas não vale a pena.
Em relação à família, depende da idade dos filhos. Quem já tem filhos adolescentes ou adultos (é o meu caso, filha de 15 e filho de 22), sentiu que eles ainda se fecharam mais dentro do telemóvel. Tentei que a minha filha lesse um livro (ela que quando era mais pequena gostava de ler...), mas ela disse que depois pensava no assunto... e claro que o livro continua fechado perto da sua secretária...
A sugestão literária de hoje, sim, é das boas, como é costume.
Adorei ler Platero e Eu. Teria uns dez ou onze anos aí por volta de ' 74, '75 do século passado! 😊
ResponderEliminarTeresa Biu
Comprei e li Platero e Eu (um pequeno grande livro) em 2003, numa colecção promovida pelo Diário de Notícias sobre autores galardoados com o Nobel.
ResponderEliminarÉ autêntica prosa poética.
🌻
Maria
Cara Extraordinária Maria
EliminarPara o caso de não dar conta, comentei um seu comentário no post de ontem. Estive para não o fazer, demorei, fi-lo agora porque só me apercebi... agora. Escrevi, apaguei, reescrevi, não leve a mal a ousadia, tanto mais que me custa, por ser a si.
Par toutatis, Fernando, o que para ali vai...
EliminarCaramba, eu só dei a minha opinião. Posso?
E o Fernando deu a sua: Pode!
Lamento o trabalho que teve, mas eu desisti a meio... até me sinto culpada... mas é que doem-me muito os olhos :(
As minhas desculpas.
Ah, e bom fim-de-semana!
🌻
Maria
E talvez tenham descoberto que eles se entretêm maravilhosamente com um livro de histórias, uma corda de saltar, uns lápis de cera e meia dúzia de carrinhos...
ResponderEliminarÓ Caríssima e grande poetisa MRP gostei da sua ironia (só pode ser ironia!), porque, tal como salienta o Luís Eme, a grande maioria deles, senão a grande totalidade esteve certamente sempre, mas sempre e cada vez mais agarrada ao telemóvel!!!!
Esconda-lhes o telemóvel e veja o pânico que deles (e não só, claro) se apodera.
A leitura tem vez e voz, certamente. Mas, a liberdade segundo a literatura enquanto conceito ou está prática em deambular aprendizagem "sofre" entraves se lhe deixa à margem oculta. O consenso literário em casa época é de natureza gutural e se lhe serve a ressonância o conhecimento.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Concordo que as crianças são «encharcadas com competências». Mas antigamente descobriam-se mais as suas verdadeiras capacidades? Não me parece. Haveria casos em que sim. Mas, de uma maneira geral, o destino dos filhos era programado pelos pais, que não queriam saber de competências nenhumas. Por um lado, a situação económica das famílias era pior. Por outro, os pais achavam-se no direito de determinar o futuro dos filhos, tanta era a pressão social. Ainda não há muitas décadas, as raparigas eram programadas para o casamento, as competências limitavam-se, obrigatoriamente, a saber cozinhar, limpar e tomar conta dos filhos. Outro tipo de competências não era bem visto.
ResponderEliminarMas também os rapazes não gozavam de escolhas livres, eram aquilo que os pais queriam. Muitos deles, por exemplo, estavam destinados ao Seminário desde o momento em que nascessem . E qualquer profissão que se desviasse muito daquilo que os pais planeavam era mal vista.
Brincavam de outra maneira, sim. Mas não me parece que os pais, salvo raras exceções, os observassem, a fim de descobrir quais seriam as suas competências, dando-lhes espaço para seguirem as suas vocações.
Muito pertinente e verdadeiro, tudo o que comentaste, Cristina.
EliminarObrigada, Luís.
EliminarConheço o poeta hoje aqui trazido, mas nunca li nada dele, se bem que saiba "Platero" ser um burro, pois é até um nome popular em Espanha.
ResponderEliminarE não é o único burro a ser tema ou personagem de obra literária, portanto! Como bem sabemos...
Há um dito assim: um burro carregado de livros, é um doutor! Enfim, espero bem não me encaixar neste quadro, eheheheh!
Quanto ao que se pode esperar em termos de alterações, depois de passada esta crise... bom eu não espero nada, francamente, apenas continuar a existir.
Tranquilamente... não as temo, nem faço previsões, afinal mudanças ocorrem todos os dias, quantas suportei já? E tão radicais...
Pensemos lá um bocadinho, todos nós: - Quem, é que não sofreu nunca mudanças profundas? Quem não assistiu a elas? Participou delas ou lhes sofreu consequências?
Por quantas crises, revoluções, ou o que queiram chamar-lhes, não passámos todos já?
Digam-me lá, a vossa vida foi sempre igual? O vosso corpo e o sentir? Aquilo que vos rodeia? Até o vosso pensar?
Façamos um simples exercício dentro do assunto primeiro que aqui nos reúne:
- Os livros de que gostaram e gostam, foram sempre do mesmo género? Ou houve alteração e passaram a gostar daquilo que antes não liam, ou deixarem de ler uns para passar a ler outros? Não alargaram o vosso leque de interesses? Ou pelo contrário o estreitaram?
Logo por aí teremos a prova de que a mudança está sempre presente, ocorre naturalmente.
Em que é poderá ser diferente esta pandemia nos seus efeitos que não tenha sido outro acontecimento, crise, revolução, mudança?
Não me encontro nem sequer expectante!
Saudações saudáveis e tranquilas, cá da Cidade Morena onde se vive serenamente.
Eu tenho um filho de quase 4 anos que, devido à idade precoce, ainda não tem hábitos de leitura mas posso-vos afiançar que adora livros: adora o objecto, a história que ele sabe que o livro contém, as imagens e até o cheiro do livro aprecia. Se querem que o livro subsista não tenham dúvidas que tem que se começar de inicio: o colégio do meu filho tem uma iniciativa em que se dedica todo o mês de Abril ao livro, de seu nome "Abril livros Mil" - neste mês alunos, pais e educadores participam em várias actividades, todas ligadas ao livro. O amor pela leitura não aparece aos 20, aparece antes muito antes, caso contrário nunca vai chegar.
ResponderEliminarBom fim de semana a todos