Humildade ou vaidade
No livro de João Tordo que referi recentemente neste blogue, Manual de Sobrevivência de Um Escritor, numa espécie de conselho àqueles que querem tornar-se escritores e submeter o seu primeiro manuscrito a um editor, o autor recomenda que sejam humildes e saibam ouvir. Mas também conheço muitos jovens escritores que entendem humildade como subserviência e preferem não publicar o seu livro a ouvir uma crítica ou ter de mexer uma linha no seu manuscrito. A humildade tem que se lhe diga... Li recentemente que os famosíssimos irmãos Goncourt (sim, aqueles que deram nome ao célebre prémio literário francês e são referidos sempre que alguém fala dos intelectuais da sua época), escritores e homens ricos e cultos que conheciam absolutamente todos os confrades e artistas seus coetâneos, têm na sua sepultura em Montmartre apenas os respectivos nomes e as datas de nascimento e morte, mais nada. Porém, se a maioria das pessoas sempre interpretou tal facto como prova da sua humildade, a verdade é que o comentário de Jules Renard no seu diário sobre esta situação faz cair na decisão uma nódoa de ambiguidade. Humildade?, duvida Renard. Qual quê! Pelo contrário, eles acharam que eram de tal forma conhecidos que bastavam os seus nomes para toda a gente saber quem ali repousava...
Nunca li nada de Renard (a não ser pequenas citações em livros de outros autores), mas ando mesmo com vontade de o fazer (até porque essas citações aparecem em obras de escritores muito distintos e de idades diferentes). Não posso, por isso, recomendá-lo para já, mas conto fazê-lo em breve. Li em jovem, para uma cadeira de Francês, parte de uma biografia de Maria Antonieta feita pelos irmãos Goncourt, mas não sei se está cá traduzida. Escolho então um romance que recebeu o Prémio Goncourt já neste milénio e que fala do mundo dos artistas e críticos com verrina que baste (como a de Jules Renard): O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq.
Uma boa biografia de Maria Antonieta é de Stefan Zweig; acabei de ler Balzac e Maria Stuart, do mesmo autor e são fantásticas; mesmo traduzidas do alemão, em português, não perdem nada da erudição, do rigor histórico e da prosa riquíssima do autor. São electrizantes, lêem-se como um romance policial.
ResponderEliminarEu li essa biografia da Maria Antonieta há tantos, tantos anos (antes dos 20) mas já não me lembro de nada... e devia, até porque gosto muito desse autor, mesmo muito.
EliminarPor falar em campas simples, lembrei-me das do Vincent e Theo van Gogh.
🌻
Maria
Concordo. S. Zweig descreve o prumo objetivo, recomendo de Joseph Fouché.
EliminarCláudia
Quando vivi em França não perdi a oportunidade de ir a Auvers-sur-Oise: almocei no Auberge Ravoux onde viveu Van Gogh, passei pela Igreja que ele pintou mas não entrei porque estava a haver missa e fui ao cemitério onde me recolhi uns instantes junto das campas rasas dos dois irmãos. Depois fui visitar a casa do Dr. Gachet, o médico de Van Gogh, hoje uma casa-museu que está tal e qual como no séc. XIX. Jornada inolvidável; só tenho pena de não ter tirado fotografias, ainda não havia o digital.
EliminarÉ verdade, falta-me o José Fouché, na altura em que li quase todo o Stefan Zweig publicado em Portugal dei prioridade às novelas e alguns ensaios. Se o encontrar nalgum alfarrabista está na calha!
EliminarMuito obrigada por ter contado. Tenho um carinho muito especial pelo van Gogh e gostaria imenso de fazer esse percurso. :)
Eliminar🌻
Maria
Em tempo, encontrei hoje num alfarrabista o José Fouché, vai ser a minha próxima leitura. Gosto do Zweig. Enche-me as medidas.
EliminarJules Renard!
ResponderEliminarUm nome que há muito não ouvia... curioso. Um autor de que persiste um par de livros na antiga biblioteca lá de casa, originais franceses, do tempo de meu avô. Não me recordo dos títulos, mas são sobretudo temáticos sobre o campo segundo creio.
No entanto há um que li e me marcou: "Histoires Naturelles"!
Lembro-me muito bem. Li-o ainda na escola por indicação familiar e por confronto com um outro notável que igualmente me marcou, "Bichos" , de Miguel Torga, que ignoro se terá sido inspirado pelo autor francês.
Há nestes contos, um que me toca particularmente: Le chasseur d'immages. Um escritor, e um naturalista como foram ambos (Renard e Torga), é deveras um caçador de imagens!
Além de que, Renard foi um pensador, e, muitas obras francesas contêm pensamentos seus, que também ornavam os nossos livros escolares da língua francesa e provávelmente mimguém recorda ou fixou este nome , como tal!
Que bela e Exraordinária recordação me trouxe aqui, hoje, o nosso Extraordinário Espaço e a sua Extraordinária promotora... sobretudo porque precisamos hoje, aliás como sempre, de pensadores, mas de pensadores-mesmo, livres, descomprometidos e que pensem apenas na moral, na humanidade e não em termos de filosofias partidárias ou que visem atingir algo que não ser humano e ter uma moral, também humana. Não de grupo, seita, partido ou clube!
A propósito do caso dos Goncourt, lembra-me uma anedota brasileira, sobre um fulano - aliás excelente pessoa - chamado Máximo.
No leito de morte, terá confessado que sempre odiara o nome, pelo que pedia como última vontade que tal não fosse citado,na lápide, para que nunca mais fosse chamado pelo detestado nome e assim poder finalmente alcançar a paz eterna.
A chorosa e dedicada família, assim fez, mas mandou escrever na lápide um longo e elogioso epitáfio em que o descrevia como marido, pai, patrão e membro da comunidade exemplar, que nunca tratara ninguém mal, ajudara os necessitados, apoiara pobres e doentes, estudantes sem recursos, fundara associações de carácter solidário, não bebera jamais, não traída a mulher, amigo dos amigos, benfeitor da terra e do seu país... enfim uma longa lista de encómios, que chamava a atenção de quem passasse junto da sua campa pelo tamanho da pedra lapidar e o longo texto em letras douradas. E, todos os passantes ficavam por momentos presos na sua leitura, exclamando sem excepção: - Puxa, esse cara era o Máximo!
Saudações naturais e cheias de imagens, cá desde a Cidade Morena.
"O pendura" do Jules Renard é óptimo livro. Foi editado há uns anos pela Assírio & Alvim.
ResponderEliminarBom dia!
ResponderEliminarEu não simpatizo lá muito com naturalistas - a sua visão radical da realidade segundo a qual o individuo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade, embate nas minhas convicções profundas de que cada Homem é dono do seu destino e livre de o retirar às correntes dos ditames alheios. Sou uma romântica e, se falamos de século XIX, é mesmo para os românticos e para os ideais da Revolução Francesa (sanguinária mas idealista) que vai a minha preferência.
Sobre esses irmãos Goncourt foi escrito um artigo muito interessante no Brasil que os relaciona, à laia de caso de estudo, com a escrita de Marcel Proust que, no século XX, terá sido muito influenciado pelos ditos. Aí, citando Proust, os brasileiros Regina Campos e Guilherme Silva recordam que “Os historiadores,
se não fizeram mal em desistir de explicar os atos dos povos pela vontade dos
reis, devem substituir esta pela psicologia de indivíduo medíocre.” (PROUST,
2007, p.441). Atenção que o artigo foi publicado na reputadíssima "Lettres Françaises".
Não querendo ser verrinosa, concluiria eu que, quem tanto se julga abençoado pela austríaca hereditariedade não precisaria de parasitar o povo e seus talentos mantendo-se para além do suportável nos dias de quem não o aprecia. E não há cansaço que vença uma natural (que não naturalista) antipatia pela suposta superioridade fundada em filosofias muito diversas da nossa. A minha, já o disse, é a da autodeterminação que encontrou suporte e esteio, no século XX, no denominado "Sonho Americano". Enfim: já que os recomenda, lerei qualquer coisa dos irmãos Goncourt até dia 30. Depois disso, terão guia de marcha, sob pena de a língua portuguesa ser, de novo, postergada em favor da anglicidade na qual fiz, por ora, uma pausa, na expectativa de que a réstia de educação dos naturalistas os leve a sair porta fora ao mínimo bocejo da anfitriã: eu! Já há muito o deveriam ter feito. Incluindo o inefável Proust. Esta manutenção é de um topete e de uma empáfia avassaladores!
Por fim, é curioso ter referido a rainha decapitada pois ainda ontem escrevi um capitulozinho em que a mencionei. Engraçada coincidência! É verdade! Pretendendo chamar a atenção para o estado de decrepitude do Hotel Glória, que, há mais de sete anos, clama por obras em plena zona nobre do Rio de Janeiro, coloquei as minhas personagens a subir-lhe as escadas na época do seu maior brilho (a da Segunda Guerra mundial) para participarem num dos seus afamados bailes de máscaras. E a mineira Rosinha ia precisamente disfarçada de Marie Antoinette! E agora adeus que vou até Natal espreitar por cima do ombro do Roosevelt e do Vargas. (Perdoem-me o momento de vaidade, mas tenho a veleidade de achar que serei determinada pelas minhas capacidades e talentos e não pelos disparates de naturalistas que, tendo ascendência austríaca, são bastante falhos de inteligência, vergonha e amor próprio).
Sandra Neves
Gosto de a ler, Extraordinária Sandra!
EliminarNo entanto, sem pretender polemizar, permito-me citá-la a si própria:
- "E não há cansaço que vença uma natural (que não naturalista) antipatia pela suposta superioridade fundada em filosofias muito diversas da nossa.".
À suposta superioridade fundada em filosofias muito diversas da nossa, temos de acautelar o vice-versa, para não nos colocarmos nós mesmos nessa situação de suposta superioridade, por muito certos e resolutos que estejamos.
Ainda a propósito, não resisto a repetir uma piada antiga, lida num Almanque Bertrand:
A) - Um indivíduo que afirme ter a certeza absoluta, do que quer que seja, não passa de um idiota!
B) - Achas?
A) - Absolutamente!
É por isto que acho o ser humano absolutamente interessante! Eheheheh!
Saudações cá do Meridiano 13 Leste!
Os americanos reabrirao as traduções dia 1 face à inusitada conduta deste país. Com o apoio francês que também já entende tanta demora como enjoativa. Se é isso que Portugal quer, assim será. SN.
EliminarA SN escreve muito bem, embora muitas vezes eu não atinja alguns pormenores da sua subjectiva forma de escrever. Mas, tal como o Pacheco diz, gosto de a ler, creia.
EliminarÉ enigmática, não é completamente anónima porque assina, por vezes quero identificar os anónimos através da forma como escrevem e expõem as suas ideias. Se é a SN que eu julgo, é aquário de signo e jurista... e mais não digo sobre a detectivesca tentativa.
Já fui aqui criticado por supostamente não gostar do anonimato, embora ele seja justo e compreensível, com muitos anónimos em elevado grau de conhecimentos literários, bons comentadores e tolerantes. Não é que não goste de anónimos - que gosto - mas, por vezes, é como se eu estivesse em Podence a falar com um "Careto", sem saber se por baixo do traje colorido está homem ou mulher.
Digamos que está uma mulher em que a fúria se sobrepõe quase sempre ao medo. Já hoje me zanguei muito com um Fernando e um António. Sou aquariana de signo o que me torna racional mas idealista e fria mas apaixonada. Toda uma contradição. Tenho o hábito de escolher maridos pobres para construir em conjunto. Não lhes levo a sério as picardias porque sou vaidosa e convenci-me de ser superior às minhas rivais. Obrigada e bom serão.
EliminarSobre os Goncourt e o seu suposto orgulho na omisso epitáfio, não creio que tivesse sido a intenção de expor dessa forma uma modéstia que se transformaria em falsa modéstia, a dar azo para vitupério.
ResponderEliminarTodos os escritores têm orgulho, desde os maiores aos mais pequenos. E todos gostam de ser reconhecidos, adulados, referidos, comentados e, como direi mais, com os pezinhos na água morna. Uns mais que outros, como é óbvio, em maior grau ou menor. Lá diria a Jane Austen, que li: orgulho e preconceito; neste caso, cada um toma o que quer.