O que ando a ler
Quando estava na Temas e Debates, nos primeiros anos deste século, publiquei um autor colombiano maravilhoso, de quem o grande García Márquez disse ser alguém a quem de bom grado passaria o testemunho. Os romances que dei à estampa foram Rosario Tesouras e Paraíso Travel e, já depois de eu ter deixado a editora, saiu ainda Melodrama, mas com a chancela da Quetzal. Tinha de algum modo perdido o rasto a Jorge Franco (que no meu tempo assinava Jorge Franco Ramos, mas deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro), mas ele agora ganhou um dos prémios de língua espanhola mais prestigiantes, o Prémio Alfaguara, e é precisamente o livro galardoado – O Mundo de Fora – que me encontro a ler neste momento. É bom matar saudades deste escritor que sabe contar uma história como ninguém e desenha personagens que ficam na nossa memória para sempre. Aqui, um ricaço – de castelo, limusina, criados para tudo e uma filha que é uma princesa de conto de fadas – é sequestrado por um gangue de rapazes aselhas que o fecham numa cabana, o remetem a um quartinho onde existe apenas um catre, e tentam pedir por ele um resgate. Mas nem Dom Diego colabora (não se deixa fotografar nem escreve um bilhete pelo seu punho para mostrar que está vivo), nem a sua família parece querer negociar com o chefe dos sequestradores – o absolutamente fantástico Mono, frustrado, mandão, cheio de devaneios sexuais mas com problemas de erecção com a namorada Twiggy (outra grande personagem), cansado da sua quadrilha de estúpidos e medricas e fascinado quer pela filha do sequestrado, quer por um rapaz que adora motos e relógios caros e o sabe levar como ninguém. Com saltos ao passado – para afinal descobrirmos porque Dom Diego tem a vida que tem e o seu castelo colombiano (um capricho seu, e não, como se possa pensar, um delírio de pato-bravo, porque o homem é um gentleman) – vamos acompanhando os dias e as conversas entre sequestrado e sequestrador, um mano-a-mano notável de que a esta hora ainda não sei quem sairá vencedor. Recomendo vivamente esta pérola.
Li em tempos "Paradise Travel", e gostei bastante sobretudo dos personagens! Aprecio particularmente num autor duas coisas:
ResponderEliminar1 -A capacidade de descrição física das coisas. Lugares, pessoas, animais, paisagens...
Nem por isso dos estados psicológicos dos personagens, pois isso é connosco leitores e acho cansativo quando se prendem exaustivamente a esse detalhe! Acho de uma pobreza total como se não houvesse mais nada para descrever ou como se ao autor faltem temas, arte, engenho, vivência... é o que deitou por terra "Serpa Pinto, o mistério do sexto império"!
2- A capacidade de criar personagens que nos atraiam! Há tantos personagens imortais, que são como nossos velhos amigos e conhecidos... que ficam connosco e de quem nos despedimos com pena.
Marlon e Reina, eram dois personagens desses que ficam connosco, e creio que Jorge Franco é bem forte neste aspecto... diria até que a maioria dos escritores ibero-americanos o são, logo a começar no D. Quixote e Sancho Pança que se estende pela interminável lista da obra de Jorge Amado apenas para citar dois exemplos que me parecem tão demonstrativos do que digo, fabuloso o "casting" dos personagens!
Este livro deve ser muito ao meu gosto, pelo que posso depreender da sua descrição...
Saudações da Cidade Morena
"Um Pinguim na Garagem", do Luís Caminha. Uma escrita, no mínimo, diferente. Bastante original.
ResponderEliminarUm livro de facto muito original. Mas haverá nos tempos que correm lugar à originalidade, ou vivemos tempos de normalização?
EliminarPedro Sande, a resposta é não. Dizem que são os tempos modernos, a globalização... mas são as pessoas que se rendem à globalização as culpadas. Há tempos também li o livro em causa e notei uma escrita diferente. Gostei muito. A seguir comecei a ler um livro chamado "Enquanto Salazar dormia" e, enfim, que desconsolo... subir a bitola para depois baixá-la assim. Acabei por desistir. Literatura não é só pôr uma sucessão de acontecimentos no papel... é surpreender, com uma imagem, uma ideia, o que for.
EliminarHoje em dia, quando alguém escreve diferente diz-se que enterra a história por baixo do estilo, que é um barroco. E, no entanto, eu se ler um livro sem trabalho da palavra, sinto que li palha.
De qualquer modo, há muito bons autores aos quais é dada uma oportunidade. Mas sinto que cada vez menos...
Caro João Mendes Infelizmente também tenho essa percepção. Estou cansado de ler livros idênticos, sem conteúdo, twins iguais aos progenitores, repletos de lugares comuns e de sabores sempre idênticos, saborosos na sua palha-ração apenas para leitores despojados de sentido crítico e conteúdo. A nossa sociedade em termos gerais com as felizes e costumeiras excepções, como é bom de ver pelo vómito diário das nossas televisões, sempre à procura do seu público, fomentando magistrais CR7's da pimbalhada ", em vez de os educar para o bom gosto e para os valores da reflexão, vergou-se à alarvidade, ao comodismo, ao cretinismo mais descarado, com asnos pseudo-elitistas a dar o mote, segurando a batuta e apontando ao povo o caminho do grande precipício . E o dramático é que estão tão enganados como os políticos, pois muito bom povo sabe o que quer virando-lhes as costas. E depois olhe, depois é a guilhotina...
EliminarGostei de o ler, em ambas as vezes, Extraordinário João Mendes!
EliminarSaudações da Cidade Morena
E asi também, como de costume, Extra. PAS!
EliminarAbraço cá da Cidade Morena!
Um abraço, António, aí para o novo mundo, do decadente Portugal!
EliminarE já agora o que pensa uma boa leitora de livros: «Pronto, é só para dizer que estou totalmente de acordo convosco. Literatura sem palavra trabalhada, burilada, sem a construir como se fosse um rendilhado... é pobrinha " , pobrinha ". Boas histórias entretêm, histórias escritas com palavras pensadas, degustadas, alimentam a alma. Claro que muitos já terão esquecidos que têm alma, por isso, se esquecem de a alimentar... os poderzinhos que nos rodeiam venderam-na, daí que alimentá-la esteja fora de causa».
EliminarO que me confunde nestes tempos modernos dos call center e do novo Fordismo é que em vez de se apertar parafusos aperta-se clientes: não se aprende em Portugal?
A trilogia Filhos da Violência, de Doris Lessing. Vou n'Um Casamento Apropriado, o 2o volume. A nova mulher, a guerra- temas ainda próximos, o colonialismo - já um pouco distante.
ResponderEliminarestou a ler "Life" do Keith Richards, dos "Pedras Rolantes" e estou a gostar bastante.
ResponderEliminarapesar de ser um "calhamaço" (não gosto de livros de mais de trezentas páginas, são pesados e demoro mais tempo a ler...).
gosto da forma simples, mas rica em pormenores, como o Keith conta a história da sua vida.
o último livro que li foi um desilusão, "O Meu Amante de Domingo" (não tanto pelos palavrões ou cenas ousadas, mas por não ter história, pelo menos para mim).
Estou a ler Maíra de Darcy Ribeiro editora Record.
ResponderEliminarAqui há dias, tendo-me ocorrido uma empática conversa com um amigo sobre “O Delfim”, fui num impulso ver se encontrava na desarrumação os livros de José Cardoso Pires. Acabei por dar com eles, mas estavam para ali numa grande misturada com os de Alexandre Pinheiro Torres (o amarantino Pinheiro Torres, faz favor de dobrar a língua).
ResponderEliminarO exemplar de “Tubarões e Peixe Miúdo” tinha lá dentro umas fotocópias dobradas.
Vai-se a ver e uma era a carta de Pires a Torres, como que em resposta à, chamemos-lhe assim, fábula “De como José Cardoso Pires (mal ajudado por Sacatrapo) pescou o seu primeiro tubarão-azul na Cornualha”.
Outra era um texto de homenagem póstuma de Torres a Pires.
E também lá estava cópia de “Fumar ao espelho”, auto-retrato de Cardoso Pires aos cinquenta de idade.
Foi aqui que, cigarro entre os dedos, ele disse a si próprio: «(...) fumar ao espelho não é só ver para trás olhando de frente. É também um modo-josé de futurar, para lá do rosto que o repete e que fumega. E aí, deixa que te diga, o pessimismo... que nos lixa. Porquê?»
E, lá para o fim, haveria de concluir: «Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.»
Segundo ficciona Pinheiro Torres o caso foi que, quando Cardoso Pires andou lá pela Universidade da Inglaterra, “O Delfim” caiu nas mãos de um Prof, ilustre zoólogo, o qual, lá do alto da sua especializada sabedoria, o desafiou a escrever uma coisa maior que um reles golfinho (=delfim), coisa que se visse, como seja um “Tubarão”.
Sacatrapo: «Mas o Zoólogo é burro. O teu delfim não é nenhum animal. Ele não percebeu nada do livro.»
Pires: «Aí é que está. Ele vive num mundo onde não se sabe o que é um símbolo ou uma metáfora. E é de símbolos e metáforas que vivemos na Aldeia da Roupa Branca.»
Mais tarde, na homenagem, Pinheiro Torres haveria de reforçar que «o nosso grande Zé Cardoso, que morto se encontra muito desperto dentro de nós, viveu as suas melhores obras de pena amordaçada, a fugir pelo longo corredor da Parábola».
Pois. Zé Cardoso já tinha dito, ao espelho: «Seja ela o que for, peço desculpa mas sem solidão ninguém vive. Solitário, não vamos mais longe, é este escritor que aqui está quando se entrega ao acto de escrever. Quer ele queira, quer não, só assim pode cumprir linha a linha a sua escrita na qualidade simultânea de autor e de leitor que são duas figuras distintas da Utopia de si mesmo. E depois? Há algum mal nisso?»
E, repito eu: «Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.»
Não querendo dar o assunto por encerrado, Pinheiro Torres, na homenagem, deixa-nos esta dica para que preparemos a posteridade: «Sempre pensei que um texto que repetisse verdades já com barbas poderia ser muito novo e original. Só que [e eu, JJ, sublinho] hoje nota-se que a arte de escrever se confunde com a arte de estar na corrente do que agrade ao leitor cada vez mais raro.»
Deixou-nos esta advertência já lá vão mais de quinze anos…
Mesmo a acabar um livro já aqui falado: Má Luz de Carlos Castán . Para quem tenha dúvidas da obrigatoriedade de ler esse livro, espreite um pequeno capítulo em que o autor, a propósito de uma fotografia da sua infância, conversa com a criança que foi, um dia. Do mais belo e comovente que já li. Esse capítulo derrubou-me completamente, confesso.
ResponderEliminarA ler, também, o belíssimo Ana de Amsterdam da Ana Cássia Rebelo. Curiosamente foi através do Horas Extraordinárias que descobri a existência desse blogue. O livro reúne alguns dos melhores textos publicados no blog, numa espécie de diário íntimo. Nada disso seria extraordinário não fosse a excelência da escrita da autora. Não só os textos são primorosamente escritos, como irrompem com uma crueza que espanta e fere, abanando preconceitos e mentalidades. Aliás o livro evoca-me um outro que li recentemente e que me fascinou profundamente: Crónicas do mal de amor, da Elene Ferrante . A mesma crueza no retrato desapiedado que faz da solidão, da perda, da dor psíquica. Da ténue e frágil fronteira entre a sanidade mental e o desequilíbrio psíquico. Muito bom , mesmo!
"A mesma crueza no retrato desapiedado que faz […] da dor psíquica."
EliminarDor essa que se consubstancia, se faz física, se aninha “na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca[…]náuseas. Vontade de vomitar, também. […] se transforma em lágrimas […] sobre a sopa de agriões.” A etiologia aponta para um lugar escuro. Por ora, prescindo; é março, afinal.
Não seja por isso: daqui a meia dúzia de meses as folhas voltam a cair das árvores. :)
EliminarE parece-me que andou a espreitar a minha página do facebook... ehehehhe
Ponto de paragem obrigatória! Aproveito para lhe agradecer os bons momentos que já me proporcionou.
EliminarA Ana de Amsterdam e a Ana B são a mesma pessoa?
EliminarPergunta intrigada e curiosa cá da Cidade Morena.
Eu é que agradeço a visita. :)
EliminarÓ homem de Deus, desde quando Amsterdam começa com b? Nesse caso eu seria ana a. eheheheh
EliminarAna de Amsterdam é o nome do livro e do blog da autora. Se o procurar aqui no HE, na coluna dos blogues que a nossa Anfitriã segue vai lá ter direitinho.
Ahhhhhhh!
EliminarMas podia munto bem ser... Ana B. ser o nome e Ana de Amsterdam o pseudónimo.
Eheheh! Perdoe a burrice... o blog já lá tenho dado uma espreitadela, mas o tempo é pouco para tanta tentação da net...
Saudações internáuticas (ou internéticas?) cá da Cidade Morena, onde a net é leeentaaaa.... ai-ué!
«deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro» - e qual é o mal de se ser referido com o nome da mãe?!
ResponderEliminarNa Alemanha, eu sou referida com o nome... da minha avó materna! Os alemães têm muita dificuldade em lidar com vários nomes de família. Eu tenho três e eles acham um absurdo. Quando digo que, em Portugal, há quem tenha quatro (há quem tenha mais, mas é raro), eles desatinam de vez.
Vai daí, fazem como os espanhóis: utilizam o primeiro nome de família. No meu caso, é Santos, o da minha avó materna. No princípio, estranhava; mas agora, até gosto, acho que é uma boa forma de homenagear essa minha avó!
Ora bem, e Jorge Franco Ramos, na Alemanha, seria referido como Franco, ou Franco Ramos, dificilmente só por Ramos.
Ando a ler "A visita do brutamontes" de Jennifer Egan. É um dos que ficou pelas estantes a aguardar vez. Estou a gostar muito mas não direi que estou a adorar. Para as criticas que teve e o prémio que ganhou, talvez eu tivesse expectativas muito elevadas.
ResponderEliminarApontei este autor, de que nunca tinha ouvido falar, e este "O mundo de fora".
Uma boa semana a todos,
Rui Miguel Almeida
"ESTRADA PARA LOS ANGELES " - John Fante-ora aqui está mais um escritor maldito, daqueles que nos põem a cabeça à roda e nos põem a pensar. Estou a gostar de pensar!
ResponderEliminarEste é o segundo livro da saga Bandini que leio (creio que serão quatro), já tinha gostado do primeiro (A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI ).
Claro que não é um autor fácil mas para isso lê-se o Peixoto, como diria o Ricardo...
Acabei hoje mesmo Agarra o Dia, de Bellow, e já que falaram de "retratos desapiedados […] da dor psíquica", aproveito a dica: talvez também encaixe no Saul de quem nunca tinha lido nada. Por acaso já folheei vagamente o livro da Ana de Amsterdão e fiquei surpreendido. No bom sentido, esclareça-se: deve ser ainda mais desapiedado. No entanto, ainda não sei para que lado me vire de imediato: talvez outro Modiano, pois apetece-me deambular.
ResponderEliminarPois esta semana só houve lugar a uma pequena colectânea chamada O Lado de Dentro Do Lado de Dentro. Dezoito autores entre micro contos e poesia. De Afonso Cruz a Richard Zimler , de Alice Vieira, a Cristina Silveira de Carvalho e André Gago. Uma referência especial a Frederico Fezas Vital com o seu micro conto "Nos Espelhos não há ninguém".
ResponderEliminarO que li eu:
ResponderEliminarNo café da juventude perdida de Modiano (gostei), Uma outra voz, de Gabriela Ruivo Trindade (adorei),
o Horizonte, de Modiano (gostei) e reli toda a obra de Valério Romão que é simplesmente electrizante, fascinante, compulsiva e devastadora de emoções.
Um abraço tardio,
Carla Pais
Completamente de acordo quanto à obra do Valério Romão.
EliminarAgora voltei ao Roth (o sempre e admirável Philip Roth) com O fantasma sai de cena.
ResponderEliminarLeio "Os lindos braços da Júlia da farmácia". Não é um livro recentíssimo, mas para mim é. Aprecio estes contos desgarrados e contados com muita arte. Algumas histórias são bem originais.
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