Dois livros
Dizem que os lançamentos dos livros são quase sempre uma fogueira de vaidades, uma festa para o ego do escritor ou apenas um pretexto para se rever amigos e família na companhia de um livro. Não sei ao certo e já vi de tudo. Pouco comum, no entanto, é que dois autores resolvam fazer uma apresentação simultânea e se ofereçam para falar do livro um do outro. Mas foi o que aconteceu recentemente a Miguel Real e Manuel Frias Martins (que foi meu professor de Literatura Inglesa na Faculdade, já lá vão anos) quando se encontraram por acaso na Fundação José Saramago e perceberam que tinham ambos livros novos a saírem no mesmo mês. O livro de Miguel Real é uma ficção (O Último Europeu) e o de Frias Martins um ensaio (A Espiritualidade Clandestina de José Saramago), mas nem essa diferença os impediu de porem a coisa de pé. A sessão decorrerá mais logo na Fundação José Saramago e abaixo segue um convite para o caso de quererem aparecer por lá.
Uma pergunta:
ResponderEliminarO livro "O último europeu" já està nas bancas?
É que a minha mulher vem aí em breve, e queria que ela me trouxesse esse livro...
Um comentário:
Parece-me uma excelente idéia! Afinal o lançamento assim toma um carácter mais de tertúlia e creio que pode haver mais e melhor interacção!
Já agora, digo que gostava muito de um dia conhecer e poder conversar com Miguel Real, cuja obra muito aprecio.
Saudações literatas da Cidade Morena
Sim, o livro está à venda há cerca de um mês.
EliminarÓ Pacheco e olha que, embora o possa não parecer, o Miguel Real é uma pessoa simples e muito agradável.
EliminarE eu que até não tinha uma boa ideia do Miguel Real (como escritor) pois o primeiro livro que li dele foi (para mim) uma autêntica estopada (O ÚLTIMO NEGREIRO), mas depois li "O Feitiço da Índia" que, de algum modo, me fez mudar de ideia.
ResponderEliminarAqui que ninguém nos ouve: gosto muito do Miguel Real, alguém que conhece como poucos o que por aí se escreve. Não encontro muitos críticos como ele; a sua intelectualidade é cortês, faz-se ressaltar na justa medida da análise, o que, cada vez mais me convenço, não é coisa pouca. E, apostaria, sendo as recensões pedagógicas, não deixarão de soar a rebaixamento no caso de certas individualidades. Tenho pena de não poder estar presente.
ResponderEliminarPor falar no livro do MR, O Último Europeu, regressado da F. de Direito de Lisboa onde Stuart Holland e outros se perguntaram «A Grécia. E agora?» remeto-vos para as páginas 109 e 110 de Moolb o Reverso, onde os dois EU's que nos afligem actualmente se debatem. Com a vossa paciência e a minha amizade! «Já ninguém se lembra de Albino Luciani.
ResponderEliminarNão, não é nenhum capo siciliano, um Ndangreta Calabriano ou um membro da camorra napolitana.
Mas é uma cosa nostra. Pelo menos um assunto (nosso), para os seguidores do catolicismo e do ecumenismo humanista.
Quem foi esse, perguntou-lhe um acólito de Cristo que viajava quase ao seu colo, meio adormecido, embalado pelo ronronar da carruagem que atravessa gingona a península itálica. A bota, pensa AB, que já se sente a subir para o corpo todo europeu. O corpo, os braços e finalmente em Vilar, a formosura da cabeça. Coragem, o senhor dá o fardo, mas também a força para carregá-lo, diz Willebrands pela sua boca. O Papa sorriso, o candidato de Deus. Ah, fez o outro, Io dimenticato. Pois, pois, esqueceste, diz o nosso viajante que parece ao longe, muito ao longe, só possível numa cabeça que se separa do corpo, distinguir as luzes trémulas e sempre de luto de Lampedusa. Porque os homens bons cedo se esquecem, repete para si. Lúcia, a vidente, sabia que Albino Luciani um dia seria Papa. E que o seria por pouco tempo. A evidência é também vidente. Io dimentico. Os homens bons não suportam a pressão. Os homens bons são solitários a quem não é permitido o seu lugar nas tribos dos poderosos. O Papa Breve sabia que se ia. Há lugares que não estão fadados para os homens bons. A bondade remete para o remorso. E não é uma protecção forçada como a da Máfia, mas uma missão construída no poder da associação da vontade com a bondade.
O poder não é alimento do poder.
É antes desilusão, desgaste. Ele virá porque eu me vou, disse Luciano com os olhos postos em Carol Wojtyla. Ele virá porque eu me vou, repete AB antes de adormecer a caminho da cidade eterna. Moolb ou AB sabe, como um seu padre amigo jesuíta, que a cidade leva-nos para fora e faz-nos entrar na velocidade. Como este comboio onde podemos encontrar-nos ou perder-nos. Ou talvez onde podemos lembrar ou esquecer. AB dorme agora o sono dos justos e recorda-se. Lembra-se, acima de tudo, de Lampedusa e dos gritos dos afogados, dos casais no seu túmulo de água abraçados, nesses anjos mortos ainda não experimentada a vida, agarrados nesse fundo azul às mães pelo cordão umbilical.
Nos homens e mulheres que descalçaram a vida e repousam agora na areia quente das praias, despidos dos seus pigmentos, em posições estranhas, levados pelos sonhos e pela aventura.
Eu não sou esse tipo de homem diz Bloom , que logo se afasta de AB , porque sabe que ele é diferente. É o seu outro lugar no mundo. O caminho inverso que todos iremos percorrer. A sua progeria.
Acordado pelo cruzamento de um outro comboio, AB vê passar, como se cada composição fosse uma tela ou um fotograma, por que se quer lembrar, por que quem não lembra esquece e engana (ou é enganado), Pietro , Clara Pettaci e, pois claro, Benito Mussolini. Il Duce parece agora, como um contorcionista, estar a endireitar-se. E vai trepando como um contorcionista vivo, afinal a grande virtude de todos os aprendizes ou experienciados ditadores, para essa armação de ferro, vai vivo, mas o seu rosto parece um bolo, um pedaço de plasticina por moldar uma face.
Logo a multidão esquecida parece recuperar outro fôlego e grita em uníssono, viva Il Duce! E nas praias e águas de Lampedusa os mortos inquietam-se e encolhem como bichos-de-conta, querem pensar que não morreram em vão, querem aquela história que lhes contaram da liberdade. Uma outra história, um seu outro patamar.
Com os gritos cada vez mais estridentes na Piazzale Loreto, aquele rosto torna agora uma outra configuração, uma outra feição; o egocen-trismo de Il Duce parece agora tomar uma outra forma, Ri-se não repetindo a frase final, Atirem aqui no peito, não destruam o meu perfil, mas uma nova, Veja