Um susto
Contaram-me não há muito tempo uma história que assusta qualquer um. Numa escola de Música do Norte do País, de nível superior ainda por cima, o professor deu a ouvir aos alunos de determinado instrumento obras de compositores do século XVII, e uma rapariga alegou ser impossível que as peças escutadas fossem dessa época pois na altura não existiam meios para as gravar e fazer discos... Desconheço o que fazia ela numa escola superior de Música, mas este ano nas Correntes d’Escritas participou numa das mesas do encontro um dos membros do colectivo Vozes da Rádio que contou um episódio semelhante. Estando alguns estudantes de música a ensaiar num teatro uma peça de António Pinho Vargas, este resolveu aparecer para ouvir a sua prestação; e, quando entrou no palco e disse quem era, um dos alunos deu simplesmente um grito. Querendo saber porque provocara a sua presença tal reacção, Pinho Vargas certamente não contava com a resposta do rapaz: “Desculpe, mas é que os compositores costumam estar mortos.” Tem graça, mas se calhar é mais sério do que cómico.
Questionado sobre um determinado assunto de comportamento cívico, um licenciado (em economia), perguntava-me -o que é um transeunte?
ResponderEliminarhá muitas razões para se escolherem compositores mortos, a principal talvez sejam os direitos de autor (que não é necessário pagar...).
ResponderEliminarem relação à rapariga, lá diz o povo, que a ignorância é muito atrevida...
e hoje escuta-se muito menos o outro. nunca houve tanta gente a saber tudo (os chamados "sabões").
Creio que na actualidade vive-se com e em função de informação!
ResponderEliminarA informação impera e flui... há muita gente informada sobre tudo e mais alguma coisa, com opiniões pré-concebidas e peremptórias porque são baseadas em informação... mas, e corrijam-me, noto que se pensa pouco!
Recolhe-se e processa-se, armazena-se muita informação mas não se raciocina, é como se as idéias não carecessem de ser trabalhadas, pensadas, para serem formuladas ou mesmo defendidas, e, consequentemente melhoradas.
Creio que o que se passou com a referida moça, é exemplar!
Ela tem a informação correcta: no século XVII não se gravava som, é indiscutível e certíssimo!
Porém não pensou, que a música se escrevia... ou até é passível de transmissão por oralidade nem que seja assobiando! Logo, pode ser reproduzida e gravada numa época posterior...
Reparem que temos um jovem e ilustre secretário de estado adjunto de um ministro adjunto - coisa que só neste país, onde se criam posições e títulos (Foge cão que te fazem barão! Para onde? Se me fazem visconde...) e se alimenta um ridículo absurdamente Hermanjosesco, (aquele governante faz-me lembrar algo assim como ser aprendiz de auxiliar de ajudante de servente de pedreiro): Esta luminária, cuja inteligência brilhante despontou numa "J" e se formou numa universidade prolongando-se em carreira certamente recheada de sucessos que o guindou a tão elevado cargo num ministério, anunciou há pouco tempo com toda a pompa e de forma triunfal, que iam apoiar o retorno dos milhares de emigrantes que têm abandonado Portugal, numa primeira fase seriam 50, o que é relevante tendo em conta só os 300 mil que estão em Angola! E mais, o apoio à sua iniciativa seria sob a forma de um apoio financeiro a projectos, de 10 a 20.000 euros! E isto tudo é apresentado como a salvação do país e das gentes... Digam-me lá quem é que pensa em voltar para Portugal e desenvolver um projecto com aquele montante... um carrinho de castanhas? Uma banca de jornais? Pagando os emolumentos e custas da inscrição nas finanças e segurança social, com as retenções na fonte, IVA, IRS, pagamento especial por conta e outras roubalheiras, quanto ficaria dos tais 20.000 euros e para fazer o quê com eles? É que nem para um "kupapata" (mototáxi) dá...
O que sabe da vida e dos negócios, ou das actividades fora das suas influências políticas, aquela inteligência superior na sua vasta experiência?
É a prova provada que nem pensar sabe... e menos os que lhe permitem anunciar tal plano!
Aprender a pensar, precisa-se, urgentemente e a todos os níveis, penso eu!
Saudações apreensivas cá da Cidade Morena e do semba!
Recomenda-nos o Pacheco: «Aprender a pensar, precisa-se, urgentemente e a todos os níveis, penso eu!»
EliminarPois bem: sigo o seu conselho e fixo o meu olhar no monitor, a ver se consigo pensar em alguma coisa.
Reparo nas horas que aparecem no fim dos comentários e verifico que este relógio foi adiantado não uma, mas duas horas.
Isto dá que pensar!
O Pacheco, por exemplo, ficou logo uma hora à frente do tempo.
Extraordinário equinócio, o de Maria do Rosário!
É que, assim, as horas ficam ainda mais extraordinárias – e uma pessoa fica com mais tempo para pensar.
Penso eu.
:))
EliminarRecebi às 15:24, cara Beatriz.
EliminarEstou a trabalhar, que remédio tenho senão guiar-me pela hora oficial...
Mas ainda bem, que assim saio uma hora extraordinária mais cedo.
;)
Tenho uma história lateral que terminou numa enorme gargalhada mas com um filho de uma amiga, criança ainda de sete ou oito anos na altura.
ResponderEliminarUm dia numa festa de anos onde estava a minha avó septuagenária esse menino, hoje já com mais de vinte anos, encontra a minha avó que não via há um ou dois anos e pergunta-lhe espantado: ainda és viva?
Hoje eu sei que já sabe como o senhor de La Palice , ainda por cima é da área da comunicação, que só está morto quem já não é vivo; embora talvez não lhe fugisse a boca para a verdade ao afirmar que há neste mundo muitos "mortos" que ainda estão vivos! Tu ainda és Presidente?, poderia perguntar ele candidamente numa recepção qualquer.
Uma coisa que se tem vindo a alterar assustadoramente é a relação com o tempo, a capacidade de pensar o tempo e no tempo.
ResponderEliminarNão sei a exacta proporção mas é cómico e sério:)
ResponderEliminarDe qualquer forma parece-me muito mais leve a surpresa do aluno que a afirmação da aluna. Se ela demonstra alguma falta de inteligência além da ignorância ele apenas desconhecia o facto de estar ensaiando uma peça de um compositor da actualidade. Mas, quem sabe, o maestro também deveria ter informado. As pessoas não são treinadas para a curiosidade intelectual (treina-se a outra, feita de mexericos e tricas desimportantes) e se ninguém informa, há-de ser difícil a cultura tornar-se hábito.
A formação do gosto é um problema atualmente sem solução. Investe-se quase tudo na técnica, quase nada nas humanidades e sobra quase zero para o gosto. E entre as artes a mais maltratada é justamente a música. Não temos culpa, deseducados que estamos pela rádio e a televisão. Será possível escapar ao sequestro a que nos sujeitou o gosto dos profissionais daqueles meios em todos os países do mundo?
ResponderEliminar