Invenções

Há uns meses reeditei um antigo ensaio biográfico de Orlando Raimundo sobre Marcello Caetano e agora publico o seu livro mais recente: António Ferro: O Inventor do Salazarismo. Certamente todos conhecem o nome de Ferro, o homem da propaganda de Salazar que congregou à sua volta artistas e escritores (Almada Negreiros, por exemplo), lhes deu condições para servirem o regime com grande criatividade e entrevistou o homem de Santa Comba que admirava mais do que todos (e que acabou por lhe dar um pontapé no rabo depois dos serviços prestados). Pois bem: Ferro, para quem não saiba, é o homem que inventou o Galo de Barcelos (se julgavam que era uma antiquíssima tradição, desenganem-se), os cordões de ouro das noivas do Minho, a aldeia mais portuguesa de Portugal (que arranjou a seu gosto, modificando o mobiliário doméstico) e até as marchas populares. Com uma capacidade de manipulação e cosmética que poucos tiveram, era também dono de uma imaginação e de uma cultura raras entre os homens de Salazar e, embora pareça que se impôs desde o início com uma impostura (alegando ter sido o editor da revista Orfeu, quando apenas o foi na ficha técnica – e por ser menor na época e, portanto, não poder ser vítima de queixas e processos), a verdade é que muito do que foram as artes do seu tempo (pintura, cinema, dança) se devem a Ferro e às suas ideias engenhosas. No livro de Orlando Raimundo, podemos conhecê-lo do nascimento à morte, com o seu génio e as suas imposturas – mas será impossível doravante passar-lhe ao lado.


9789722056892_o_inventor_do_salazarismo.jpg

Comentários

  1. está na lista, por várias razões, inclusive por ter tido o Orlando como mestre de jornalismo.

    António Ferro foi uma lufada de ar fresco no Estado Novo (tal como Duarte Pacheco).

    Salazar devia gostar muito dele para ir na sua "cantiga"...

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco31 de março de 2015 às 02:31

    Salazar será sempre um mistério... pelo menos a meu ver.

    Esclareço desde já que não sou de todo seu admirador ou saudosista, aliás nem por tradição pois de ambas as partes da minha família tanto materna quanto paterna, e a despeito de ter havido muitos parentes que ocuparam cargos elevados na justiça, governo, forças armadas e até no governo colonial, não se era "Salazarista" e muito menos "do aparelho"! Meu avô Abreu foi mesmo destacado membro da oposição (era afecto ao General Norton de Matos).

    Um dos aspectos mais curiosos é este: Salazar terá sido um mau avaliador de homens? Ou um mau condutor, um líder sem qualidades de liderança?
    Reparem que tantos dos seus delfins, desde logo Henrique Galvão, Moniz da Maia, o próprio Humberto Delgado e até Norton de Matos, que foram homens de Salazar, contra ele se viraram... corrijam-me os Extraordinários mais sabedores e até estudiosos destes assuntos...

    Outro aspecto que eu gostaria de contrariar, é algo de que a esquerda pseudo-culta e elitista tanto gosta de apregoar, como a pretensa falta de cultura do Salazarismo!
    Nada mais errado, creio eu.

    A esquerda modernista e dita progressista, andava pelos "caveaux" de Paris a ouvir jazz, lia Sartre, via cinema psicadélico, já fumava umas brocas e bebia coca-cola, extasiava-se com Pollock, Wahrol e por aí fora. Para eles isso é que era cultura...

    Por cá, apostava-se no popular... no tradicional, pois o Salazarismo era avesso às modernices, desconfiava delas... e para se enganar Salazar era até fácil: Ferro como Galvão (com a Exposição do Mundo Português - aliás coisa notável!) foram mestres nisso, como a nossa Extraordinária Anfitriã refere, pelas suas criações!

    Mas, isso não deixava de por um lado ser cultura, se bem que diferente daquela que os progressistas alardeavam, e havia bom-gosto, sem dúvida!

    A esquerda sempre se achou dona da cultura, da arte e do bom-gosto. É um facto, e uma falsidade acrescento. Mas apenas consegue ignorar a diversidade, mais nada e aí é igualzinha à direita que também se acha superior.

    Dizer e acreditar que no Salazarismo era tudo cinzento, é ignorar que no Bairro Alto o pessoal da cultura se veste de negro, cultiva olheiras e no geral um ar degradado... é o que identifica quem seja "culto" ou intelectual, aquela pose de se estender sobre a mesa ou espalhar na cadeira como se a coluna vertebral fosse incapaz de suster o peso da cabeça... fica bem!
    Afinal se formos a ver, iguais, de sinal contrário!
    E serão de sinal contrário?

    Saudações coloridas e vigorosas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A cultura não pertence a esquerdas ou direitas, é de todos. Ou deveria. Tanto quanto me apercebi o salazarismo não estendeu a cultura - nem sequer o ensino - a todos os portugueses (a não ser essa parte quase burlesca de galos de Barcelos e arrecadas) e criou uma espécie de modelo cultural fechado e meio pacóvio com que hoje é difícil concordar. Claro que havia gente de bom gosto e verdadeiros artistas. Mas onde há censura a arte não pode desabrochar em pleno. O espírito livre do artista não coaduna aos limites de uma política provinciana.

      De António Ferro sei alguns poemas. E gosto deles. Facto que não me faz concordar com o galo de Barcelos nem outras amostras do kitsch português. Pode ter feito boas coisas, mas ser português não é isso.
      Duvido que um dia leia o livro e mude de opinião. O salazarismo enferma de tanto erro e mente curta, causou tanto sofrimento inútil ao povo português, que não me imagino a admirar quem o tenha incentivado.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco31 de março de 2015 às 13:44

      Concordo!

      Eliminar
  3. Há um conjunto de afirmações que me parecem, no mínimo, duvidosas (e.g., ter sido Ferro o inventor das marchas populares ou dos cordões de ouro das minhotas). Não acredito em tudo o que leio, espero que os mais conhecedores me corrijam.
    JCC

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caros extraordinários: confesso que caí nestas mentiras de 1 de Abril, por as não esperar no último dia de Março.
      Marchas populares: remontam ao séc XVIII, galo de Barcelos, ver http://pt.m.wikipedia.org/wiki/Lenda_do_Galo_de_Barcelos
      Cordões de ouro das minhotas: "luzente de ouro", Camilo Castelo Branco...

      Eliminar
    2. Ver
      http://lopesdareosa.blogspot.pt/2016/04/o-ouro-das-minhotas.html
      Sem mais comentários
      lopesdareosa

      Eliminar
  4. Salazar dispunha de uma sólida formação em finanças públicas, conhecimentos jurídicos, relações internacionais, política em geral, mas com grande défice no campo da cultura.

    ResponderEliminar
  5. António Ferro, pessoa de cultura, foi o homem em que se apoiou para cobrir essa lacuna e lançar políticas culturais.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco31 de março de 2015 às 03:05

      Ou seja... Salazar, era um homem inteligente, consciente das suas limitações!

      Nisso não tenho dúvidas...

      A sua limitação cultural, tanto a pessoal de cariz católico como a universitária, clássica, obtida em Coimbra, seria então por ele sentida? Mas ao que parece desconfiando fortemente do que vinha de fora, e do que fosse novidade... creio que não era conservador e sim retrógrado.
      Curiosamente os governantes de hoje, igualmente bimbos ou de raiz aldeã uns e evoluídos outros, pelo contrário extasiam-se com tudo que seja modernice aparente, e desejam dar ao Mundo uma imagem de que são governantes práfrentex!
      Bacôcos ...

      E serão mais inteligentes ou cultos por isso?
      Hum ... não me parece...

      Eliminar
    2. Não, não. Menos inteligentes somos nós que os elegemos com o nosso voto democrático.

      Mesmo que não tenham sido eleitos com o meu ou com o seu voto.

      É terrível, mas a linguagem partidária parece esgotada, exangue.

      Eliminar
  6. SALAZAR não fora um primário BEATO, da igreja mais retrógrada e mais reaccionária, e outro galo, porventura, poderia ter cantado...

    Este livro parece-me muito interessante até porque trata de PROPAGANDA...(quero lê-lo).

    ANTÓNIO FERRO-Ministro da Propaganda

    PROPAGANDA=propagação de uma ideia, de uma religião, apostolado, catequese

    ResponderEliminar
  7. Capa genial; até parece que fala!

    ResponderEliminar
  8. Do que me recordo, e recordo-me bem, isto era inegavelmente cinzento, retrógado, bafiento, um nevoeiro perpétuo não obstante um ou outro Ferro. Agora estamos num deserto, mas há mais claridade e temos telecomando.

    ResponderEliminar
  9. Bem, o telecomando muda-me de uma coisa má para outra igual ou ainda pior. Estou a compreender o que é o totalitarismo.

    ResponderEliminar
  10. Ver
    http://lopesdareosa.blogspot.pt/2016/04/o-ouro-das-minhotas.html
    Sem mais comentários
    lopesdareosa

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório