Pérolas
Chega-me às mãos um livrinho de uma pequena editora, a Glaciar, chamado Os Cinco Enterros de Fernando Pessoa. É uma antologia poética de Juan Manuel Roca, um dos nomes mais importantes da poesia da Colômbia, nascido no ano de 1946 e premiado com tudo e mais alguma coisa, não apenas no seu país, mas em toda a América de língua espanhola e também em Espanha. A selecção dos textos (um dos quais dá, de resto, nome ao volume) esteve a cargo de outra poeta colombiana, Lauren Mendinueta, e a tradução chega-nos pela mão de Nuno Júdice, que sabe o que faz. Como a melhor forma de conhecer qualquer poesia é através da leitura, não servindo de muito dizer apenas coisas sobre ela, fico caladinha hoje e mostro um poema, esperando que ele impressione positivamente os leitores deste blogue. Pelo menos, tanto como a mim. Até porque fala de um assunto que nos interessa a todos.
Breve História de Ninguém
Diz o senhor Nabokov que a literatura não nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela, as quatro patas no ar, um lobo cinzento brandia a sua língua estralejante.
Diz, melhor, que a literatura nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela não vinha ninguém.
Desde então, ninguém é um personagem eterno, um fantasma nos vales do poema.
pérolas mesmo, Rosário. :)
ResponderEliminarOra aqui está uma sugestão irrecusável, pelo menos para mim.
ResponderEliminarObrigada!
:-)
Antonieta
Lindo!...
ResponderEliminarBonito, sem dúvida. Tenho entretanto reparado que, ultimamente, passou a chamar-se poetas às poetisas e eu não compreendo porquê. Acho bem menos poético.
ResponderEliminarTem dias em que acho piada ao Nabokov...
ResponderEliminare two week quinzena.
EliminarGosto e gastaria no típico produto colombiano "carriel" bolsa ou seja: mala a garupa lá de outrora.
ResponderEliminarQuanto ao poema precoce e autêntica tradução.
Transcrevo de Juan Manuel Roca: «(...) a literatura nasceu quando uma criança (...) e atrás dela não vinha ninguém. Desde então, ninguém é um personagem eterno (...)»
ResponderEliminarPalpita-me que, tendo feito cinco enterros a Pessoa, Roca queria dizer que “Ninguém” é um personagem eterno.
“Ninguém” é um fantasma nos vales do poema.
Ninguém o comprova melhor que o próprio Pessoa, cujo cadáver foi por cinco vezes adiado:
«Sem a loucura, que é o homem
Mais que a besta sadia?
Cadáver adiado que procria?»
Já Ulisses disse ao Ciclope que se chamava Ninguém... Ninguém é, assim, o mais velho dos arquétipos literários. E Pessoa, sendo tantos, terá sido também Ninguém.
EliminarLá deixei eu a autenticação a identificar-me. Antes que o Severino volte a ralhar,
EliminarJosé Cipriano Catarino.
Nada comparável a quando mo pai ralhava...tchau.
EliminarPior é Zeus Tonitroante. O tonante. Ou o meu pai com o cinto.
EliminarPara não ser desancado, assino comme Il faut.
José Cipriano Catarino
É isto.
ResponderEliminarArte Poética.
'Oh! Ingenuidade mãe piedade' está para (colecção JJ).
ResponderEliminarIngenuidade: mãe da piedade?
EliminarSim, admito. A piedade decorre da ingenuidade alheia. Perante um ingénuo, o sentimento mais comum é ter pena dele.
Poderíamos então dizer, Cláudia, que “Ninguém” é um ingénuo nos precipícios da piedade?
Fantástico...
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