Pseudónimo

Há dias, contei que em 1984 assinei alguns poemas com pseudónimo. Há imensas razões para não se usar o próprio nome – mas, no meu caso, foi um poeta respeitável que me disse que, se queria publicar, devia pensar num nome literário (o que fiz, claro). Mais tarde, porém, quando comecei a escrever livros juvenis, o editor aconselhou-me a recorrer ao meu nome verdadeiro, uma vez que os meus alunos e ex-alunos (eu estava então no ensino) não me poderiam reconhecer pelo pseudónimo (o princípio do marketing, suponho). Achei, pois, melhor pôr o meu nome real em tudo, por pouco literário que fosse, em lugar de me chamar duas coisas distintas. Que leva alguém a assinar com um nome diferente do seu? Não gostar do que lhe deram? Talvez, mas Possidónio Cachapa ri-se de si próprio, dizendo que, com um nome assim, não precisa para nada de um pseudónimo. Por outro lado, o bancário José Fontinhas preferiu ser o grande poeta Eugénio de Andrade... Já Bocage usou um pseudónimo para arrasar quem quis sem se denunciar (esperto, sem dúvida, como, aliás, muitos jornalistas que, no antigo regime, aproveitavam a capa do nome falso para dizerem o que, se calhar, não diriam se assinassem com o seu nome). Também conheço quem tenha ficado em apuros por constar do seu passaporte nome diferente daquele em que a organização de um festival literário lhe tinha reservado o hotel e passado o cheque das ajudas de custo; e ainda quem continue a assinar com o apelido do ex-marido (quando se começa com um nome e se tem sucesso, é muito difícil voltar ao nome de solteira); e até sei de um senhor que foi convidado para um encontro só de mulheres por assinar com um petit-nom – Mia (Couto) – que noutras línguas é feminino. Enfim, haverá de tudo, mas eu, sei lá porquê, não tenho já muito que ver com o meu pseudónimo – e, sem querer, também já não consigo ler esses poemas antigos como se fossem (só) meus.

Comentários

  1. E são formas de sermos outras pessoas ao mesmo tempo ou dão-nos hipótese de escolher algo tão primário como o nome, coisa tão fundamental nas nossas vidas e para a qual não fomos tidos nem achados.
    Alter-egos, super-egos, máscaras e defesas, brincadeiras, estratégias de marketing e liberdades, os pseudónimos podem ser tantas coisas...

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  2. o uso do pseudónimo tem vantagens e desvantagens.

    compreendo perfeitamente o seu uso quando os autores escrevem coisas diferentes (ensaio e ficção por exemplo) e querem deixar registada a diferença, através do nome.

    e também porque penso que quem escreve não tem necessariamente que ser sempre a "mesma pessoa".

    quem conhece a poesia de Pessoa (em que uma pessoa consegue ser várias, exprimindo-se de forma completamente diferente), entende isso perfeitamente.

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  3. Eugénio de Andrade/José Fontinhas não era bancário, mas inspector-administrativo dos Serviços Médico-Sociais do Ministério da Saúde, como é referido na biografia q Arnaldo Saraiva fez dele.
    Bocage usou pseudónimo porque essa era a prática corrente da Arcádia Lusitana, a q pertencia.

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    1. Tem razão, Rui Almeida. Os árcades privilegiavam a Natureza nos seus poemas e, por essa razão, escolhiam pseudónimos com alusões bucólicas. Bocage optou por um anagrama do seu nome, Manoel, com uma referência à sua origem (Setúbal): daí o Elmano Sadino. O pseudónimo não visava, pois, "arrasar [...] sem se denunciar", mas era simplesmente uma regra da Arcádia. Para vergastar os seus contemporâneos, Bocage nem se escondia: assinava muitas vezes como Bocage mesmo.

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    2. E creio q tenho razão também (não por conhecimento directo, mas pelo q li de Arnaldo Saraiva, q me parece ser fonte de confiança) quanto a Eugénio não ter sido bancário.

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  4. Os pseudónimos usam-se por tanta coisa - algumas já citadas e apresentados hipotéticos motivos.

    Toda a gente se define pela obra e não por usar nome ou pseudónimo - que também é nome.

    Entendo tão bem o Eugénio quanto a Rosário; não me parece bom nome de poeta José Fontinhas. Quanto a Possidónio Cachapa, ele sabe da poda.

    Entre outras coisas, o pseudónimo salva do quotidiano. Resgata o autor para outro mundo. É uma cisão necessária em alguns autores, desnecessária noutros. E depois há nomes que não entram, que entrosam mal com outros, que não quadram com o escritor e a obra. Casos existe em que o pseudónimo demarca terreno público e é cortina sob o privado. Talvez.

    Ou permite um certo mistério gracioso e grátis; um ser sem a barreira de ser x ou y; o prazer de se construir a desejo, alienando parte de quem se é.

    Desde que sem fins malévolos ou enganadores, nada contra pseudónimos. Na escrita.

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  5. António Luiz Pacheco14 de abril de 2014 às 02:59

    Interessante tema, uma vez mais... e interessante a diversidade ou coincidência de opiniões.

    Acho que todos temos "um nome", profissional, diferente daquele porque somos conhecidos na família ou círculo de amigos, pois sendo o nome aquilo que nos identifica em toda a linha, é algo que temos como nosso.

    A opção de um nome artístico ou o tal pseudónimo, entra um pouco nessa linha de ter uma identidade, seja por que razão fôr.

    A minha 1ª mulher manteve o nome de casada, o que curiosamente teve de ser oficialmente autorizado por mim... a razão é que sendo ela investigadora no Inst. Ricardo Jorge, e tendo publicados trabalhos ou comunicações com o nome que usou enquanto casada, ia perder esse crédito em termos profissionais e curriculares.

    Sei de quem use pseudónimo por timidez, porque não quer que colegas de trabalho saibam da sua outra atividade, talvez por falta de segurança, mas acho que se compreende.

    Eu gosto de alguns pseudónimos, confesso, se bem que nunca usasse nenhum, a despeito de ter algumas alcunhas - o que é diferente. Gosto por exemplo de "Torga", e a sua conotação à serra é óbvia!

    Por exemplo, o que levou Rómulo de Carvalho a escolher o pseudónimo de António Gedeão?
    Certamente o seu carácter discreto.

    Acho até fascinante este tema!

    Saudações Caabindas

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  6. Ó Pacheco então o Manuel da Silva quando pensou em divulgar os seus dotes artísticos para a música não passou a usar um nome lindo: - Zé Cabra (e, neste belo país à beira mar plantado, vendeu milhares de discos)...

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    1. António Luiz Pacheco14 de abril de 2014 às 03:46

      Ora... com o Zé Cabra e os Cebolamole, justifica-se plenamente o uso de pseudónimos, para um dia os filhos não sofrerem o opróbrio ... eheheh!

      Agora ter um apelido "Carreira", se calhar é mais rendoso... eheheh!

      Abraço!

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  7. Tal como, no país do Zé Cabra, um indivíduo chamar-se João Simão da Silva não seria a mesma coisa se não se chamasse Marco Paulo... tal como chamar-se António Manuel Mateus Antunes não seria a mesma coisa do que ser o Tony Carreira, é assim como que o país do faz de conta... isto de gerir carreiras tem o seu calculismo não só na música pimba, mas afinal parece que em todas as áreas, infelizmente até na literatura, aquela que deveria estar mais a salvo destas desonestidades...

    E calculistas já me bastam os Cavacos, os Passos, Portas e idêntica fauna animalesca e detestável...

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    1. No entanto certamente que também haverá excepções (em todas as áreas), por exemplo aquele que o Pacheco nomeou - Torga não me parece que tivesse intenção de, ao utilizar este pseudónimo, fosse o de geria a carreira mas sim o de o conotar à terra.

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    2. António Luiz Pacheco14 de abril de 2014 às 07:35

      Sem dúvida, e é biográfico ó Severino!
      Miguel, por mor de Cervantes e de Unamuno e, Torga, porque uma planta bravia e serrana que tem a particularidade de ter uma raiz que se usa na lareira.
      Um nome telúrico, como ele foi.

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  8. Recordo também João Baptista da Silva Leitão de Almeida, imortalizado com o chique apelido Garrett - a propósito, dizia ele que escrevia com dois tês a ver se pronunciavam pelo menos um, pelo que me faz urticária ouvir chamar-lhe, ou à rua a que deram o seu nome, " Garré".
    No meu caso, utilizo peseudónimos apenas para concursos e como não tenho gosto nem jeito para os escolher, adoptei um estratagema que não vou revelar. De resto, faço questão de assinar sempre por baixo de tudo o que escrevo, jamais recorri a Nick names ou ao anonimato para o fazer. Porque, como canta Jackes Brel em "Les bourgeois", "et moi, moi, qui étais le plus fier / moi, moi, je me prenais pour moi."

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    1. Ó José Catarino agora fizeste-me relembrar coisas que ouvi há cerca de trinta anos (era eu um puto)-é que essa do Garré já um ex-chefe meu me falava no facto, tal como tu muito bem o relatas, foi daquelas coisas que me ficou para sempre no subconsciente.

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  9. Jacques e não Jackes. O raio do corrector...

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  10. Sem o Extraordinário Google, respondam:

    Quem é (ou foi) o Julinho da Adelaide?

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    1. Como eu sou ingénuo e pensava eu que João Simão da Silva, Zé Cabra, António Manuel Mateus Antunes eram seres possíveis apenas neste belo país à beira mar plantado, aparece-me agora este intelectual do Julinho da Adelaide, que grande zequinha...Julinho da Adelaide (será para uma melhor gestão da carreira fora das lides intelectuais?)

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  11. Já agora...ninguém revela o tal pseudónimo da MRP? :)

    Abraços
    Cláudia Moreira
    Pseudónimo sem razões nem porquês: Magnólia

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  12. E o Saramago?

    "José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago... " (da Autobiografia)

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  13. Já agora: um dos mais interessante casos de pseudonomia é João Falco, usado por Irene Lisboa nas páginas da Seara Nova e em dois ou três dos seus primeiros livros. No entanto, não deixava de usar o feminino na primeira pessoa, denunciando propositadamente o seu género.

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    1. Tempos houve em que as mulheres se viam obrigadas a usar pseudónimos masculinos, caso contrário as editoras não lhes aceitavam os originais. Tanto as irmãs Bronte como Jane Austen publicaram sob pseudónimos masculinos. Os seus verdadeiros nomes só começaram a aparecer em edições das suas obras mais tarde, já elas tinham morrido.

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  14. escolher um | nome | que em simultâneo me esconda e me revele * revele quem não sou para que aquele que sempre fui possa ser um pouco mais !!! quanta comicidade não haverá [também] nessa necessidade de se ser A e A´ | quer dizer AA’ ou A´A talvez até ‘AA ou AA, ou ainda ,AA ou A,A
    _de_

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  15. E sabem quem era a María del Perpetuo Socorro?
    Gabriela Mistral, poetisa chilena galardoada com o Nobel em 1945.
    :-)
    Antonieta

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