Vasco Graça Moura (1942-2014)

Ontem chegou cedo a notícia – e era má. Uma amiga, jornalista do Público, dizia ao Manel que tudo indicava que Vasco Graça Moura morrera por volta do meio-dia. Ficámos tristes, sobretudo porque a sua luta contra a doença foi invulgarmente corajosa, uma espécie de fuga para a frente sem queixas nem lamentos, em que nunca deixou os compromissos e a escrita, por muito que lhe custasse (mas a um homem assim deveria custar muito mais não o fazer). Mas também nos doeu porque, com a sua morte, perdemos um dos nossos últimos intelectuais à maneira do Renascimento: um homem com uma cultura extraordinária da grande e da pequena história, melómano, literato, e um criador invulgar que felizmente nos lega uma obra própria bastante extensa e multifacetada e ainda, por meio das suas traduções, a obra de muitos outros autores de épocas e estilos diferentes com a sua marca poética especial. A este respeito, lembro-me de ter feito uma viagem de avião com ele há uns anos, de Lisboa para Madrid, e de ele ocupar o tempo todo do voo a traduzir dois poemas de Petrarca (só ele conseguiria fazê-lo, e bem, em pouco mais de uma hora); e de, na mesma altura, depois de um jantar em casa do então conselheiro cultural em Madrid, o escritor João de Melo, ter brindado os presentes com um soneto belíssimo, feito ali na hora, em três tempos, gabando a refeição e o convívio. A literatura saía-lhe com naturalidade, mas nunca com banalidade. Além disso, era a voz com mais peso contra o Acordo Ortográfico e, também por isso, nos vai fazer muita falta. Mesmo não concordando com muitas das suas posições políticas, tenho de dizer que a cultura portuguesa perdeu ontem um dos seus grandes vultos. E os que tivemos a felicidade de o conhecer (atenção, nunca fui íntima, nem quero passar por isso, mas estive muitas vezes com ele em acontecimentos literários ou ligados ao fado) também não esqueceremos a graça que tinha a contar anedotas.


 


 

Comentários

  1. A mesma imagem com que fiquei de Vasco Graça Moura. E desagradando-me sobremaneira os homens de Cultura que em qualquer fase da sua vida parecem mais papistas do que o "Papa" do momento (mas quem é perfeito?... há um enorme cardápio com VGM como prato principal, de que o actual Secretário não seria mais do que um mau digestivo), é indubitável que pela sua cultura e defesa da língua, VGM é mais uma das grandes figuras da cultura como Prado Coelho que deixa Portugal cada vez mais pobre e "entregue" aos representantes da descultura " como receita.

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  2. devo-lhe DANTE em português | a divina comédia | devo-lhe essa imensa gratidão

    _de_

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  3. António Luiz Pacheco28 de abril de 2014 às 03:27

    A grandeza (ou largueza, à ribatejana...) seja a nossa seja a de outrem, mede-se justamente em ter idéias diferentes de alguém, mas reconhecer-lhe a qualidade.

    Vasco Graça Moura, foi um marco na nossa cultura esclarecida. Mas nem por isso morrerá enquanto o seu nome for dito ou referido.

    E sim, perdemos o principal paladino contra o acordo ortográfico.

    Saudações Cabindas
    (hoje é dia de regresso a Luanda...)

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  4. Sem dúvida uma grande perda para o país que fica bem mais pobre. Por vezes não compreendia as suas posições e alguma truculência, mas ficam-me os sonetos de Shakespeare, entre muitos outros.

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  5. Vasco Graça Moura era um feroz crítico da "popularidade" que Fernando Pessoa acha nos nossos dias. Não posso concordar com isso, de maneira nenhuma, assim como com outras correntes do seu pensamento.
    Mas no caso do Acordo Ortográfico concordava em absoluto.
    Lembro-me que Vasco Graça Moura não permitiu que fossem instalados softwares actualizados nos computadores do Centro Cultural de Belém. Tudo para que se continuasse com o bom e velho português a que estamos habituados e o único que faz sentido.

    DeP, VGM

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  6. Conheço Vasco Graça Moura apenas da escrita e do tanto amor que teve com e pelas palavras. Vou continuar a descobri-lo pela vida. Mas, do que já li dele e sobre, parece-me um Senhor. E da última vez que o vi na TV, senti-lhe, nítido, um sofrimento tão maior.
    A morte foi-lhe descanso.

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  7. De mortuis nihil nisi bonum

    Tenho uma imensa dívida com Vasco Graça Moura: as suas inigualáveis traduções de poetas clássicos nas quais ele pôs toda a sua prodigiosa capacidade de versejador e assim criou a sua obra poética de maior valia; é de facto um prodígio conseguir verter versos de Dante, Petrarca, Shakespeare ou Villon para português mantendo a rima, o sentido e a música, com qualidade quase igual à dos originais. São de uma criatividade e de uma fidelidade – espanto-me sempre, como foi possível essa conjugação ?!. Nunca o encontrei em nenhuma tradução poética feita para a nossa língua. Por isso não me admira que dedicasse horas a traduzir um par de poemas de Petrarca, tal como a Maria do Rosário Pedreira nos confidencia. Bem haja, Vasco Graça Moura !

    Não conheci o Vasco Graça Moura pessoalmente mas múltiplos testemunhos de quem com ele conviveu referem que a sua facilidade em criar um poema, aos vários gostos clássicos, era incrível, aliás como a Maria do Rosário relata quando fala do soneto pós-prandial de Madrid. E não só em português, fazia-o, ao que me disseram, em várias línguas durante a sua estadia no Parlamento Europeu. Teria, portanto, uma capacidade mozartiana de criar poemas seguindo canones variados . E esse foi o segundo dom excecional do Vasco de Graça Moura, a juntar ao seu excelso labor de tradutor culto e criativo.

    Listadas estas duas facetas geniais do Vasco Graça Moura, o paradoxo é que a sua própria criação literária não está ao mesmo nível. Tentei ler as sua novelas e romances (ganhou um grande prémio da APE!!!) e foi a desilusão e a incapacidade minha de chegar com essas leituras até ao fim. E os seus poemas também quase ninguém os lê e parece-me ninguém os lerá daqui a uma década.

    Como político foi sectário como poucos, foi um defensor acéfalo do cavaquismo e como tal utilizou com frequência argumentos que ofendiam a mais elementar lógica e a também a inteligência dos seus leitores. Do cavaquismo recebeu múltiplas benesses e nomeações. Aceitou ser presidente do CCB depois do governo de Passos ter afirmado que Mega Ferreira seria reconduzido no cargo, para depois nomear Vasco Graça Moura sem a cortesia de informar Mega Ferreira que soube da mudança de decisão pela rádio. Defendeu a re-introdução da pena de morte. Apesar de ser um trauliteiro ao serviço de Cavaco e Passos, Vasco Graça Moura proibiu no CCB a aplicação de uma medida do governo: o uso do AO. Foi reacionário quase até ao fim !

    A minha gratidão eterna, Vasco da Graça Moura, pelas suas extraordinárias e únicas traduções poéticas ! Elas são uma enormíssima contribuição para o património literário em português !

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    1. Artur Águas, subscrevo na íntegra cada um dos seus pontos. A imagem que nos transmite do homem e da sua obra.

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    2. Caro Pedro, Obrigado pelo seu comentário. Tenho estado afastado, por razões profissionais, da leitura deste blog. Já saiu novo romance seu? Abraço.

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    3. Imagem que nos é transmitida nessa coisa repugnante que é o "português" aleijado pelo AO. Saiba-se que é legítimo e legalmente protegido recusar a obediência a uma ordem ilegal. E, como foi já demonstrado para lá da dúvida e da ideologia - por VGM e outros - e com uma clareza que não requer formação jurídica, pretender impor o AO é pretender forçar uma ilegalidade.

      Essa gente não só defende uma iniquidade, como pretende a sua imposição sem se dar sequer ao trabalho de o fazer for um processo jurídico ao menos formalmente correcto.

      O povo, embrutecido, estupidificado , recusando militantemente a cultura e a elementar instrução, consumido na mera sobrevivência ou deslumbrado na ostentação de novo rico, adere à traição, fascinado pelo canto da modernidade e invocando - pervertendo-lhe grosseiramente o sentido - a figura do Velho do Restelo.

      E curiosamente (ou talvez não) alguma gente dita culta faz o mesmo.

      Desgraçado país.

      Costa

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  8. Ai a falta que nos faz para ser a barragem que era contra o tal do Acordo... Que falta. Que perda.

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