Os livros chamam-nos

Pacheco Pereira é um homem muito lido, tem uma biblioteca tão grande ou maior do que as bibliotecas públicas (um armazém alberga-a, ao que parece) e são sempre boas as suas crónicas sobre os livros, as livrarias, a leitura. Não há muito tempo escreveu, aliás, um belo texto sobre a capacidade que os livros têm de chamar por nós, levando-nos a desejá-los, a comprá-los e... nem sempre a lê-los. Foi, pelo menos, o que se passou com ele recentemente – e nesse texto conta como adquiriu três títulos, dos quais, muito provavelmente, só lerá um de fio a pavio. Mas expõe no seu artigo um ponto de vista extraordinariamente interessante, que se prende com o facto de a curiosidade ser, segundo ele, o grande motor intelectual de sempre e de encontrar estranheza na circunstância de meio mundo a achar um defeito, e não uma qualidade, e de pouco se ter escrito ou debatido sobre ela, por muitas obras e colóquios que existam dedicados, grosso modo, ao conhecimento. E, ao falar deste aspecto que crê subvalorizado, avança também que ser curioso é meio caminho andado para se ser surpreendido e chamado por certos livros, mas que isto lhe acontece sobretudo em livrarias tradicionais, com os volumes em papel que ainda se podem folhear, pois, quando frequenta as livrarias virtuais, já sabe de que vai à procura e, portanto, não sente normalmente apelo nem surpresa. E, sendo um homem invulgarmente culto, tem a inteligência de dizer que o seu apego a certos livros que se calhar nem virá a ler tem que ver com a sua vontade de aprender, com a sua noção de que é ignorante em muita coisa, ao contrário de certos arrogantes incultos que crêem já nada precisar de ler ou saber (e são tantos). Termina o artigo declarando que, enquanto houver livros para ler, não terá um único momento aborrecido na vida. Concordo que, com livros à disposição, fiquemos salvaguardados do tédio, mas também há muitos livros chatinhos...

Comentários

  1. Viva o libre pensamento. viva a honestidade intelectual. viva a cultura. E. .. Viva a curiosidade eo pracer do descubrimento. (escribo en galaico-duriense)

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  2. O nº. 126 da revista LER (Julho/Agosto 2013), dá-nos uma (pequeníssima) perspectiva da sua biblioteca e traz algumas observações muito interessante do Pacheco Pereira sobre os livros:

    "ANDO SEMPRE COM LIVROS ATRÁS E NUNCA ME ABORREÇO, TENHO SEMPRE COISAS QUE QUERO VER, QUE QUERO LER. ENQUANTO NÃO ACABAREM OS LIVROS, OS JORNAIS, O MUNDO EXTERIOR, A CURIOSIDADE COM AS COISAS, A ENORME QUANTIDADE DE COISAS QUE A GENTE NÃO SABE E QUE PODE APRENDER, EU NÃO TENHO UM MOMENTO ABORRECIDO"

    Fala ainda de muitos outros temas (e'mail , facebook , ignorância, música, filmes, quantos livros tem, como os arruma, e muitos outros temas relacionados com o livro)

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  3. Falando de livros, a curiosidade não mata o gato, fá-lo mexer-se por fora e por dentro.

    António Breda Carvalho

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  4. António Luiz Pacheco8 de abril de 2014 às 03:47

    Eheheh!

    Só falta o Extraordinário Severino dizer "Anda Pacheco...".
    Mas revejo-me inteiramente e comungo de muitas das opiniões e idéias deste Pacheco, pois temos ainda isto em comum.
    Goste-se ou não dele, é inegável ser um erudito e alguém que não teme dizer e assumir o que diz.
    Há uma longa tradição, nossa dos Pachecos, em assim sermos.

    Este post assenta que nem uma luva neste nosso Extraordinário Blog de amantes dos livros.

    Se o outro escreveu sobre uma jangada de pedra, pois nós temos jangadas de papel!

    Saudações cabindas!

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    1. Pacheco só há um o António Luiz e mais nenhum.

      anda Pacheco

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  5. acho que sim, compramos livros para saber.

    e claro, também para conhecer e outras vezes apenas por curiosidade.

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  6. A propósito da última frase deste post sobre o facto de haver livros chatinhos - pois não é que mesmo ontem acabei de ler um desses - NADA A TEMER do Julian Barnes (e como eu gostei dos primeiros dele (O PAPAGAIO DE FLAUBERT , MESA LIMÃO, ARTHUR & GEORGE)).
    No entanto já estou a viajar lindamente (O HERÓI DISCRETO - Mário Vargas Llosa-as primeira 18 páginas prometem).

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  7. Não podia comungar mais deste post . E revejo-me em tudo o que Pacheco releva.
    Há quem se agarre às religiões para poder justificar o céu, há quem se agarre aos livros porque eles têm nas suas páginas a sua razão de viver.
    Colocar tudo sob observação, sob reflexão, como se cada objecto fosse uma face de um cubo de Rubik que sabemos impossível deslindar.
    Com os livros não há de facto momentos aborrecidos na vida: porque mesmo que o seu conteúdo, a sua estética, a sua textura, não estejam em consonância com a luminosidade do dia, há sempre em si o elemento peso e massa que nos faz sonhar e sentir sermos passageiros de um nau sempre à descoberta.

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    1. Ó Pedro - qual Pacheco? é que, como já referi anteriormente, Pacheco só há um, o António Luiz e mais nenhum!

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    2. Também, também, Severino! Mas o António Luiz é mais estilo Corto Maltese , o Pereira mais estilo Calvin & Hobbes!

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    3. António Luiz Pacheco8 de abril de 2014 às 05:16

      Ahahah!
      Quem me dera ser Hugo Pratt... já ficava contente!

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  8. Um grande erro educacional, censurar a curiosidade das crianças. Quantos talentos não se tolheram à custa de tão grande absurdo?

    É tão lindo ser-se curioso! É-se tão feliz, quando se é curioso!

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  9. Quanto a livros e Pacheco Pereira, também retive a confissão que ele fez de que é frequente por parte de aqueles que, pouco dados a livros, por alguma circunstância entram na sua biblioteca/armazém lhe perguntarem: “e você leu estes livros todos?” ao que ele responde, deixando espantados os seus pragmáticos interlocutores, “nem pensar, um grande leitor lê na sua vida um máximo de três a quatro mil livros”. A curiosidade de quem gosta de ler é desmesurada e ampliada pelo prazer inigualável de se viver rodeado de livros, uma imensidão que nos protege da nossas múltiplas finitudes. Nada de comparável a um ebook contendo dez mil livros.

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    1. António Luiz Pacheco8 de abril de 2014 às 05:23

      Nem mais Extraordinário Artur!

      A propósito de tal pergunta, que é fatal, li algures a resposta que que achei a mais inteligente e certa:
      "E para que quereria eu uma biblioteca só com livros lidos?".

      Abraço de Cabinda!

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    2. Também a propósito de livros lidos dizia o Umberto Eco: -tenho cinco mil livros e há sempre o imbecil do costume que entra e diz quantos livros tem, leu-os todos? E o que é que eu respondo:? nenhum, de outro modo porque os guardaria aqui? o senhor porventura guarda as latas de conserva depois de as esvaziar? os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece....

      do livro "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA"

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    3. Grande resposta !
      Vou guardá-la no meu repertório de bolso. Quando a usar acrescentarei: "e esta sabedora máxima veio de Angola !"
      Boa estadia por Cabinda, alvo de muitas míticas histórias que me foram contando ao longo dos tempo retornados, militares e outros que por lá foram passando, eu que tenho a mágoa de nunca ter posto os pés em Angola.
      Um abraço amigo para o incansável António Luís Pacheco que tanto nos faz por aqui pensar, dia sim, dia sim.

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    4. "E para que quereria eu uma biblioteca só com livros lidos?"
      Que mais não seja, para os reler, ora essa!
      Diz-me a experiência que reler é, muitas vezes, mais proveitoso do que apenas ler, como quem cumpre uma obrigação, e arrumar.

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  10. Pacheco Pereira tem razão quando diz que a curiosidade é uma qualidade. Só é defeito quando em excesso, como tudo. É a curiosidade que me faz andar por aqui e descobrir coisas e pessoas interessantíssimas (pelo menos para mim).
    Gosto de livros, e tal como ele prefiro os de papel. Também compro por impulso e às vezes arrependo-me, por considerar que poderia ter feito uma melhor escolha, mas nunca dou o dinheiro por perdido.

    Concordo com a Maria do Rosário quando diz que há muitos livros chatinhos . Mas há outros, curiosamente de autores pouco conhecidos, que me empolgam e me fazem andar cada vez mais atenta a novos nomes. De preferência nossos. Portugueses.

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  11. os livros que se reúnem não são livros | são fascículos de uma enciclopédia pessoal nunca concluída ! vida ! que os amantes do disperso e do diverso amam assim

    _de_

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