Inventar palavras

Não se é considerado um génio literário por dá cá aquela palha – e, tantos séculos passados desde a sua morte, Shakespeare continua a ser um génio para toda a gente que aprecia literatura e não só. Entre outras razões, porque foi dos escritores que mais contribuíram para o crescimento da língua inglesa. Para quem não saiba, ele inventou milhares de palavras novas que hoje fazem parte não só dos dicionários, mas do uso corrente dos falantes anglófonos – uma delas, bem aparentemente moderninha, é «manager», calculem. Mas existem muitas outras que lhe são atribuídas, embora não se saiba bem se foi ele realmente o seu inventor (é sempre possível que quem as criou ou pediu emprestadas a outras línguas fosse simplesmente analfabeto e não as pudesse registar). Em todo o caso, há exemplos bem interessantes – como «lonely», cuja primeira aparição escrita se deve à peça Coriolano, e «hurry» que consta da Parte I de Henrique VI (talvez antes os ingleses fossem menos apressados). E são também da sua pena os mais ou menos opostos «radiance» e «gloomy», bem como as palavras «critical» e «generous» (ambas derivadas do latim, mas inglesadas pelo nosso homem). Enfim, quando se celebra um autor pela sua inovação linguística (Mia Couto e o seu «esparramorto», por exemplo), não se deve esquecer que, por muita criatividade que exista hoje, ninguém supera o velho William.

Comentários

  1. Isso é só por que não nos deixam, MRP.
    Um espalhatermos era o que me assentava melhor.

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    1. E até Carvalho da Silva contribui hoje para a "alegria" pela palavra: diz que iremos continuar entroikados por mais mil anos.

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  2. Presidente da Assembleia da República-Assunção Esteves - que tanta celeuma provocou com a inconsequência e não só poderá ser, afinal, mestra no assunto...

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    1. Caro Severino
      Você não conseguiu explicar com o devido rigor a palavra com que Assunção Esteves enriqueceu a Língua Portuguesa.
      Houve aqui, portanto, um inconseguimento da sua parte - que se admite, pois que é recente a inovação linguística.
      Mas, estou em crer, o inconseguimento perdurará na nossa História, não apenas como mera palavra, mas principalmente como conduta - pelo menos até ao momento em que conseguirmos substituir os nossos dirigentes por cidadãos que consigam ter em atenção as pessoas, e não apenas os números.
      De inconseguimento em inconseguimento, até ao conseguimento final! - es la consigna.
      Um abraço.

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    2. Ó JJ acreditas que o que me dá cabo da cabeça é este novo acordo ortográfico, não é que seja propriamente contra (estou confuso) mas com esta celeuma toda a confusão instalou-se de tal modo que às vezes não sei, sinceramente, já como é que certas palavras se escrevem (estou a falar a sério).

      Um abraço

      Saudações Kafkianas

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    3. É. Vivemos numa enorme trapalhada. Em todos os aspectos. E então no que diz respeito à Língua... Já não bastava a confusão do acordo ortográfico, agora também temos de fazer um esforço extra para conseguir decifrar a novilíngua do poder.

      A superlativa expressão da trapalhada é, justamente, o “inconseguimento” – conceito que recentemente fez a sua assunção elevando-se do limbo onde esteve.

      E é de facto a noção do “inconseguimento” a que melhor corresponde à essência conceptual da novilíngua, pois que esta é criada, justamente, para que o comum dos mortais se deslumbre com o seu aparato superficial e não consiga entendê-la na sua profundidade, isto é: “inconsiga” captar o conteúdo que as novipalavras escamoteiam. Ou seja: que lhe entrem por um ouvido e saiam pelo outro, e não levante problemas.

      Que eu saiba, o José Pacheco Pereira é o único entre nós que, qual George Orwell, vai conseguindo estoicamente decifrar a prolífica e manhosa nova terminologia. E, pelo que vou lendo nas coisas que ele escreve sobre o assunto, parece-me que é capaz de existir já material suficiente para alguém com talento começar a fazer poesia em novilíngua.

      Isso é que dava jeito à Senhora Presidente da AR, pois que ela gosta de, nos momentos de maior elevação, citar aos deputados uns versos a propósito. Mas pronto: o problema é dela.

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    4. Simples: não se escrevem as vogais que não são lidas. Os fantasmas gráficos foram abolidos. Lógico e higiénico.

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  3. Muitas palavras inglesas com origem no latim, são-no por via indireta, ou seja, através do francês. Na verdade, o inglês que conhecemos hoje em dia é uma mistura (quase fifty-fifty) da antiga língua saxónica e do francês. Isto porque os normandos franceses conquistaram o reino britânico em 1066, mais precisamente, o Duque da Normandia, William The Conqueror. Durante cerca de três séculos, a família real britânica falava francês (eram franceses, incluindo um rei simbólico como Ricardo Coração de Leão, que não sabia uma palavra de inglês), enquanto o povo persistia no seu inglês. As duas línguas foram-se misturando, de maneira que o latim lá entrou indiretamente, na grande maioria dos casos.

    Não será assim neste caso que mencionou, pois, ao tempo de Shakespeare, já não havia esta dualidade, o inglês "moderno" dava os seus primeiros passos. Daí também a importância do dramaturgo, que contribuiu para enriquecer e estabelecer a língua. Assim um pouco como Martinho Lutero contribuiu para a hegemonização do alemão, com a sua tradução da Bíblia. Aliás, pode dizer-se que Martinho Lutero criou uma espécie de "Acordo Ortográfico".

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    1. E, já agora, o nosso D. Dinis decretou que os escritos oficiais fossem escritos em português e não em latim, decisão tomada bem antes da tradução de Lutero. Parece ter sido essencial para a afirmação do português como língua ibérica e sua individualização em relação ao castelhano.

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    2. Sem dúvida!
      Deixe-me só acrescentar que o avô de D. Dinis, D. Afonso X o Sábio, fez o mesmo ao castelhano. E foi também mais ou menos na mesma altura que o rei Henrique V (salvo erro) decidiu tornar o inglês língua da corte (não só do povo).

      Mas fiquei a pensar no "generous". Analisemos as palavras em francês: "généreux", "généreuse". Escritas de maneira completamente diferente, mas há grande familiaridade na pronúncia (leiam-nas alto!). O inglês está cheio de casos destes. O que me leva a pensar que também "generous" só indiretamente vem do latim.

      Nesse caso, seria de perguntar se foi mesmo criada por Shakespeare. Bem, não tenho condições de o pesquisar e penso que a Maria do Rosário poderá fundamentar a sua afirmação.

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    3. Cara Cristina, obrigado pelos seus sempre sábios esclarecimentos !

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    4. De nada! Também aprendo muito consigo, o seu conhecimento literário é invejável.

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    5. Obviamente fui muito afoito em citar D. Dinis perante quem é especialista e escreveu um excelente romance sobre este nosso rei. Confesso que o "excelente romance" é o que me dizem porque eu ainda não li o seu romance, mas vou lê-lo em breve.

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    6. Fez muito bem em citar! Ele contribuiu muito para o consolidar do reino como país, não só através da língua. As nossas fronteiras, as mais antigas da Europa, foram definitivamente estabelecidas por D. Dinis.

      É uma biografia romanceada, espero que goste :)

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  4. E que foi o nosso Shakespeare em invenção de novas palavras? Camões, Gil Vicente, Vieira? Quem sabe?

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  5. e como é difícil desinventar uma só | guerra


    _de_
    [que parece agora provável na Ucrânia]

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  6. Isto a provar-se, alguma vez, que o "good ole Wills" foi uma única e só pessoa...

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