Eco convertido? Nem por isso

O senhor Umberto Eco é, como toda a gente sabe, um acérrimo defensor do livro em papel, que acha o melhor instrumento de aprendizagem e transmissão de conhecimento, defendendo, aliás, que só pode ser maluco quem afirma que um dia desaparecerão os livros em papel. Mas eis que, por ter de fazer uma viagem para os EUA acompanhado de 20 livros que lhe eram indispensáveis à tarefa que ali o ocuparia, decidiu comprar um iPad e (diz ele numa entrevista a um jornal brasileiro) gostou! Porém, quando lhe perguntam se mudou a sua opinião sobre o digital e a Internet, responde que não, que na Internet a informação não é seleccionada, aparece sem hierarquia nem crivo, e que a Wikipédia é um perigo, pois presta um péssimo serviço aos cibernautas que, dificilmente, conseguem separar o que está certo do que está errado. Como exemplo, fala do que circula sobre si próprio e do tempo que perde a corrigir as entradas com o seu nome nas Wikipédias do mundo inteiro. E avança que o excesso de informação provoca amnésia (nunca me tinha lembrado disto) e que filtrar o conhecimento é fundamental para se ser culto, mas um ignorante jamais saberá filtrar, pelo que sugere que, para evitar o descalabro futuro, se crie desde já uma disciplina ou uma ferramenta chamada Teoria da Filtragem baseada na experimentação quotidiana da Internet. Um desafio para as universidades vindo do senhor Umberto Eco.

Comentários

  1. E não é que o senhor tem bastante razão no que diz!

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  2. Concordo com o Sr. Umberto. Penso que a censura hoje se faz pelo excesso de informação fútil em detrimento da mais importante. Se não soubermos filtrar a informação começamos a desvalorizá-la. Saturamos e acabamos por não ler ou ver o mais importante. Um exemplo são os óculos da google que nos permite ter informação constante em todo o lado - restaurantes, horários de autocarro, nomes de ruas e história dos edifícios. Imaginem-se como turistas a visitar uma cidade e a quererem descansar a cabeça de toda a informação. Há que saber dosear, senão ficamos "amnésicos" ;-)

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  3. António Luiz Pacheco30 de abril de 2014 às 02:46

    Concordo inteiramente... e como discordar?

    1- Em relação aos e-books ou lá o que é, como forma de condensar e transportar informação - eu sou um mártir a pagar excesso de bagagem pois ando sempre com uma carga de livros atrás... hoje vou embarcar, felizmente para Londres e só depois Portugal e a British Airways permite-me levar 23 kg na mão!

    2 - A informação que se obtém na net, é útil, mas perigosa... é preciso saber filtrá-la, pois está lá muita coisa errada, ou que induz em erro. Sofro também muito com isso, pois há sempre que me traga argumentos do estilo: "mas eu consultei um site brasileiro que dizia...", e sai asneira! Muita gente pensa que aquilo que leu num site qualquer tem a força da lei da gravidade de Newton!

    Só quem conheça o assunto e domine a matéria devia ter acesso... ou então haver um modo de impedir que qualquer um poste na net o que quer que seja!
    E os estudantes a copiarem dali trabalhos?????

    Saudações kaluandas!

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  4. É verdade!

    Mas também não é menos certo que nunca tivemos acesso a tanta informação e com tanta celeridade. E, se fizermos bom uso dos instrumentos, eles nunca nos dominarão. Sucederá precisamente o contrário.

    Um beijinho e bom feriado.

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  5. Excesso também, progresso! (ingresso, congresso...)

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  6. Uso muito a net. Uso muito o que me diz sobre os mais variados assuntos. Alguna artigos, possivelmente, contêm erros. Mas o uso que faço é doméstico e pretende apenas uma ideia geral sobre algo. Julgo que para o efeito, serve. Não memorizo um terço do que leio. Mas a rapidez com que flui é um factor altamente atrativo.

    Como Humberto Eco, não acredito que esteja terminando o reinado do livro em papel.
    E gosto do que escreve.

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  7. Tautologia estranha? Ou impossibilidade? O que é um ignorante? O que é um homem culto? Quem os define? Quem os comanda? Que conhecimento deve passar nesse filtro? E de que é ele feito? Como o ignorante poderá aspirar à cultura se não sabe filtrar? Que sociedade será essa onde o conhecimento está reservado aos cultos? E como se cultivam os cultos? Por nascimento? Por osmose? Por aparência? Por sequestro de poder? Por Impossibilidade ou tautologia? Ou pela novoforma " nacional: por condição de Recursos? Não, este eco prefiro o filtrar só o ouvindo uma vez! Prefiro o do Nome da Rosa ou de Como Fazer uma Tese!

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    1. "E como se cultivam os cultos?" Como diz Umberto Eco, pela capacidade de seleção de informação. Algo cada vez mais necessário nos dias de hoje.

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  8. Compreendo que Eco seja homem capaz de defender, com convicção e fundamentadamente, a viabilidade de uma ferramenta de filtragem da informação que circula na net.

    É que ele (e agora transcrevo umas linhas que escrevi em tempos), «no romance “A ilha do dia antes”, inventa e descreve a fabulosa Machina Aristotélica que o padre Emanuel tinha no convento de Casale. O mecanismo tinha a função de estabelecer metáforas, usando conhecimentos que eram combinados aleatoriamente accionando uma manivela que movimentava três cilindros nos quais estavam inscritas nove letras. Num grande livro o padre acumulava tudo o que ia sabendo sobre a primeira das “dez categorias”, a qual é a Substância. De cada manipulação do cilindro resultava uma combinação de três letras. Obtidas estas letras, ele consultava, por certa ordem, três das oitenta e uma gavetas onde se encontravam uns cartões ou fichas que continham, organizado por ordem alfabética, todo o conhecimento que havia sobre as restantes nove categorias. O padre escolhia, no Grande Livro das Substâncias, um tópico, depois dava à manivela, e desse modo lhe saíam três categorias com as quais construía uma metáfora que aplicava ao tema escolhido. E assim sucessivamente para cada três gavetas, o padre ia obtendo infinitas combinações dos conhecimentos guardados na Machina, e, ilimitadamente, ia construindo as suas metáforas.»

    Pois bem: esta seiscentista Machina Aristotélica, ela própria uma metáfora na fantasia de Eco, reúne os rudimentos do nosso actual computador, e – ecco qua! – já filtrava informação.

    O livro foi publicado em 1995, o que quer dizer que Eco anda há já uns bons vinte anos a engendrar esta coisa da filtragem.

    Homem de visão, hein?!

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    1. Adorei. Obrigado, Joaquim Jordão!

      Cristina

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  9. Así como Internet se encamina a ser la nueva mente global revolucionando las relaciones sociales, es también una especie de territorio salvaje en el que se da lo mejor y lo peor.
    Thomas Merton: “Sí / a todo lo que es bueno en el mundo y en el hombre…/ el sí de una libertad y no de sometimiento…”

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  10. A Internet não pode ser controlada. É o reino da anarquia.

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