O nosso agente em Lisboa

Há uns dias, assim, de repente, veio a má notícia: Ilídio Matos, o primeiro agente literário português (e o único em Portugal ao longo de décadas), representando os direitos de editoras alemãs, suíças, norte-americanas e outras, tinha morrido. Dois dias antes, duas editoras da LeYa tinham almoçado com ele e dito que estava entusiasmado com uma operação às cataratas que ia fazer, pois andava a ver muito mal. Mas que, de resto, parecia francamente bem e cheio de projectos. Nesse dia planeei combinar mais um almocinho com ele e com a minha amiga Ana Pereirinha, editora na Planeta, pois há muito que lho prometêramos; mas já não irei a tempo – e arrependo-me obviamente de deixar que o stress se sobreponha tanta vez às coisas realmente importantes da vida. O Ilídio era um grande amigo – e, com aquele seu ar de pai, chamava-me carinhosamente «joiinha» ou «doutorita», pois conhecia-me desde 1987, o ano em que me iniciei no mundo dos livros. Ele tinha um fantástico sentido de humor e, estando no mundo editorial há tantos anos (tinha oitenta e sete), histórias interessantes para contar que nunca mais acabavam e faziam as delícias de quem o ouvia. Quase todos os editores sentirão a falta dele, tenho a certeza, e merecia que todos os jornais lhe dedicassem umas valentes páginas porque faz claramente parte da História da Edição em Portugal e foi um dos seus mais originais protagonistas. Ficámos sem o nosso agente em Lisboa – e estamos tristes.

Comentários

  1. Que pena não sabermos mais sobre este nosso fascinante agente literário. Pensava que não havia agentes literários portugueses. Existem outros ? Para além deste depoimento da Maria do Rosário, só li a curta homenagem do Francisco José Viegas ontem publicada. Será que alguém conhece mais textos sobre Ilídio Matos ? Será que Ilídio Matos escreveu algures sobre a sua profissão e a sua paixão pelos livros ? Será que o entrevistaram ?

    E, já agora, uma nota de inveja: como eu gostaria de morrer desse modo súbito e cheio de sonhos (mas quase aos noventa anos, não antes...) !

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    1. Virginia Costa Matos19 de maio de 2020 às 00:32

      Que bonito, obrigada, aquece a alma e ajuda a brotar as ideisas no papel! De regresso a Portugal, procuro um agente literário!!! Virginia Costa Matos

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  2. Há pessoas assim, que não são daqui nem dalém, são da História. As memórias são coisas fabulosas, passado em movimento, que temos o dever de partilhar, para preencher a História, para que nos possamos aproximar, dela, dos outros e de nós próprios.

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  3. Isto anda sinistro, no campo da literatura. Hoje faleceu o crítico literário mais conhecido da Alemanha, que, por acaso, até nasceu na Polónia: Marcel Reich Ranicki, que tinha 93 anos.

    Era bastante duro, como crítico, e uma figura polémica, que criou inimizades com Günther Grass e Martin Walser. Ranicki era muito sensível às questões do nazismo e do anti-semitismo, porque ele próprio, nascido judeu, sofreu muito durante a 2ª Guerra Mundial.

    Quando se ouviram vozes a reclamar da sua dureza crítica, um homem que, afinal, nem sequer era escritor, ele publicou um livro, em 1999, que vendeu mais de um milhão de exemplares, na Alemanha! Contou a sua própria história, no "ghetto" de Varsóvia. Conhecem o filme "O Pianista"? Pois Marcel Reich Ranicki viveu, precisamente, aquele inferno, só sobrevivendo também por muita sorte. Adorei o livro, de uma lucidez impressionante. Por acaso, li-o pouco depois de ter visto o filme de Polanski e andei muito tempo com o "ghetto" de Varsóvia na cabeça.

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    1. Lembro-me bem "O PIANISTA" grande interpretação do actor principal (aquele magrinho).

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    2. Adrien Brody - soberbo.
      E soberba a realização de Polanski, que consegue tornar interessante um filme que, em grande parte do seu tempo, se resume à atuação de um simples ator.
      Soberba aquela cena em que ele, escondido num apartamento, faz deslizar os seus dedos pelo teclado de um piano, imaginando as melodias na sua cabeça (como o tocador de João Ricardo Pedro, que, aliás, surgiu depois). Não se podia dar ao luxo de emitir qualquer som. Mas era a sua única ocupação, que evitava que enlouquecesse de tédio e de medo.

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